quarta-feira, 30 de março de 2016

História gótica

22. O funeral realizou-se debaixo de chuva.
O chão ensopado do cemitério da aldeia tornava difícil manter aberto o buraco que o dono da taberna, coveiro quando era necessário, passara a manhã a escavar. O caixão, de pinho e sem adornos, desceu batendo contra as paredes da cova até chegar com algum estrondo ao fundo, onde assentou meio torto e talvez meio aberto. "Melhor para os bichos", pensou o padre benzendo o morto, um camponês dos seus cinquenta anos que em poucas semanas definhara até não ser mais do que um saco de pele flácida, ninguém sabia porquê. Toda a aldeia assistia ao enterro. A mulher e os filhos do agricultor, chorosos e vestidos de negro, atiraram mãos cheias de terra para cima do caixão. Não havia flores. Os aldeões, que murmuravam entre eles discutindo explicações do sucedido, fizeram silêncio para ouvir o padre que já pigarreava. "Irmãos." Todos endireitaram as costas, prontos para a solenidade do acto. "Despedimo-nos deste nosso irmão com tristeza, mas também com a esperança na vida eterna de que a morte não é mais do que o anúncio. Um anúncio constante, pois morreremos todos tal como foi determinado desde o princípio dos tempos, nós que nascemos em pecado na terra e renascemos em arrependimento nos céus. Nos céus onde nos espera a misericórdia, recompensa de uma vida piedosa e humilde. É grande a compaixão do Altíssimo, mas é severa a sua justiça. Que sirva esta morte de advertência aos vivos. Que seja uma exortação ao cumprimento da vontade Daquele que nos premiará com a beatitude eterna e nos castigará com o sofrimento perene. Prémio e castigo aguardam quem vive bem e quem vive mal. Vê tudo Aquele que está em todo o lado. Vê tudo e tudo julga. Penetra nos corações e descobre os segredos que aí escondemos. Pesa as almas limpas e as almas sujas. Da terra viemos, à terra voltamos. Oremos." Satisfeito com o seu discurso, o padre esperou uns minutos e fez um gesto com a cabeça dando a ordem ao palafreneiro, sacristão quando era preciso, para passar o cesto das ofertas entre a assistência. "Vamos ver se valeu a pena dar esta pérola a estes porcos." O discurso escrevera-o ainda no seminário e valera-lhe o encómio dos professores. Fora sendo aprimorado pela repetição ao longo de anos de cerimónias fúnebres em aldeias cujos habitantes não o compreendiam, e não o compreendendo não se apercebiam de que era sempre o mesmo. Os aldeões levaram as mãos aos bolsos. "Fundos e quase vazios", pensou o padre. Sentiu um calor na face ao notar que a rapariga, a uma certa distância do evento e acompanhada de dois homens, tinha os olhos fixos nele, tão fixos como ele tivera os seus sobre o colo dela. Quase deixava cair a bíblia de capa muito gasta que trouxera. "Este não", disse a rapariga aos seus companheiros.

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