terça-feira, 29 de março de 2016

História gótica

21. Os dois homens levantaram a cabeça ao mesmo tempo.
Os dois levaram a mão ao bolso e os dois tactearam no interior até encontrarem uma carta e uma fotografia. Groesken e Valodu, assim se chamavam os dois homens, o homem do dominó e o homem trémulo, sentiram uma vontade inesperada de ir até à taberna. De coração acelerado, Groesken levantou-se do penedo onde se sentara para contemplar a colina. Valodu saiu da sombra da árvore onde se abrigara, igualmente perturbado. Chegaram à taberna com um intervalo de alguns segundos, o suficiente para não esbarrarem um no outro à porta. Uma vez lá dentro, olharam em volta. Nenhum deles sabia o que procurar. Reconheceram-se assim que cruzaram os olhos, eles que nunca se tinham visto antes. E olharam ambos para uma mesa num canto, de onde a rapariga também os olhava, também como se os reconhecesse. Todos sentados à mesa, tiraram dos bolsos as fotografias e as cartas e puseram-nas sobre o tampo irregular. Encostadas umas às outras, as fotografias e as cartas encaixavam-se perfeitamente. Corria depressa o sangue pelas veias destes três, animados como conspiradores que matam reis e explodem parlamentos. "Estão quase completas." "Falta uma." Falando em sussurros tão baixos, era difícil perceber quem falava, e a estalajadeira, que entretanto se aproximara para perguntar o que queriam beber, percebendo que não devia interrompê-los voltou para a cozinha. "Uma fotografia e uma carta." "Então temos que esperar. Nem que seja um ano, uma década." "Se morrermos sem completar isto, e sem fazer o que temos que fazer, outros virão, como vieram já aqueles que interrogaste", disse Groesken. Valodu acrescentou "E não terão, como não tiveram esses e não temos nós, qualquer garantia de sucesso." A rapariga concordou abanando a cabeça. "Talvez tenha já chegado a pessoa que falta", disse. "Temos que olhar bem para as caras, procurar todos aqueles que tenham vindo de fora, de alguma cidade", continuou. "Sim, vamos reconhecê-lo imediatamente." "Quem sabe, há sempre aqueles que não querem vir. Talvez este seja assim, talvez resista." "Também nós já recusámos acreditar. Todos sabemos que é impossível. Excede as nossas forças, arrasta-nos. E ainda que não fosse assim, todos temos um motivo muito forte para vir. Quando se experimentou tudo sem qualquer resultado, resta o inimaginável." Lá fora, o céu ficara totalmente tapado por nuvens cinzentas, e já começavam a cair aquelas bátegas pesadas que anunciavam uma chuvada torrencial. Da janela ampla da farmácia, o boticário observava a mudança brusca do tempo, e pensava " Começou soalheiro o dia." "Mas aqui o sol dura sempre pouco tempo, gasta-se uma fortuna em velas." Suspirou, com um suspiro de quem se sabe preso e impotente. "Não podemos acreditar em tudo o que lemos", pensou. "Não são só os criminosos e as princesas que perdem a sua liberdade. Pode-se estar encerrado numa cadeia que mais ninguém vê." Afagando o bigode, mordeu um bombom. Veio-lhe à cabeça a imagem de uma mulher ainda não totalmente estragada pelos encargos de uma vida de aldeia que no dia anterior entrara na loja para perguntar se precisava de um ajudante na botica, "o meu filho sabe ler e escrever. E fazer contas. É honesto, é trabalhador. Não quero que acabe os seus dias na mina."

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