sexta-feira, 18 de março de 2016

História gótica



3. No salão amplo e de tecto alto, as paredes cobertas de tapeçarias com cenas de batalhas, de inimigos ajoelhados oferecendo as espadas, de florestas reduzidas a cinzas, mas também com animais exóticos e inexistentes, plantas assustadoras e escarpas, reúne-se um numeroso conjunto de seres cuja estranheza desafia a imaginação.
É quase impossível descrevê-los. E mesmo contá-los, porque a luz é pouca e o salão está de tal modo cheio de móveis onde se escondem e de onde saem, que o número deles é indeterminável. Há alguns, porém, que se mantêm estáticos. Já conhecemos dois deles, a mulher do vestido prateado e capa cor de vinho, e o homem coxo. Sentados num canapé de espaldar baixo, estão quatro crianças, ou criaturas que parecem crianças mas a quem falta qualquer coisa de infantil. São todas iguais. O seu sexo é indefinido, como quase tudo neste lugar. Dão-se as mãos e olham em frente, as pernas curtas balançando em sincronia perfeita, como soldados, como máquinas. Vestem os mesmos calções cinzentos e meias vermelho-escuro até aos joelhos. Os mesmos sapatos de verniz preto brilhante. As mesmas camisas brancas impecavelmente engomadas. Têm o mesmo cabelo louro, quase branco, pelos ombros e com uma franja direita. Quem se aproxime deles ou delas pode ouvir um murmúrio baixo que repete a mesma frase. Gradatim ferociter. Gradatim ferociter. Gradatim ferociter. "Basta." A voz dura da mulher ressoa pelo salão. Os que se mexiam, param, e os que murmuravam, calam-se. Olham todos na direcção dela. Estão suspensos da próxima palavra. A mulher diz o que já dissera na cela. "É preciso fazer alguma coisa." Todos assentem com um movimento da cabeça. A mulher continua. "Já passaram três dias." Outra vez o movimento de cabeça dos que ouvem. "Nunca antes aconteceu coisa semelhante. Não conhecemos as consequências. Para ele e para nós. Temos que agir. Imediatamente." Uma voz cava, vinda do tecto, responde. "Sim. E temos pouco tempo, talvez. Não sabemos. Sugiro irmos ao mausoléu. Ainda é noite e não há perigo. Vamos todos. Forçamos a porta." "Alguém terá que transportar-me." Esta voz sai de um quadro emoldurado em talha dourada. "Vão precisar de mim, com certeza." "Eu levo Vossa Excelência." Desta vez quem fala é um gigante medonho, que se dirige ao quadro e o retira da parede. Para isso, tem que baixar-se e mostrar as mãos que escondia nas mangas largas de um capote. Umas mãos inesperadamente delicadas e brancas. "Estamos prontos." Quem fala é a mulher, novamente. "Vamos."

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