segunda-feira, 28 de março de 2016

História gótica


19. Este boticário era um personagem curioso.
Jovem ainda, de bigode alourado, com uma barbicha cuidadosamente aparada, mãos e unhas cuidadas, dir-se-ia saído das páginas de uma revista de moda masculina. Esta impressão fortalecia-se com a observação dos seus trajes sempre impecavelmente limpos e sem rugas, as calças com um vinco perfeito, a camisa branquíssima, o casaco, as luvas, os sapatos sem um grão de pó, coisa que se aproximava do milagre num sítio como aquele. O relógio que guardava no bolso do colete marcava sempre a hora certa. A caneta com que escrevia as recomendações para a dieta dos fregueses tinha sempre a quantidade justa de tinta, nem mais, nem menos. Os botões de punho estavam sempre adequadamente apertados. Nunca fora visto com uma nódoa ou um rasgão. Levava sempre consigo um pequeno pente com que domesticava qualquer cabelo que presumisse sair da ordem estabelecida. Um pequeno lenço de linho branco estava sempre às ordens para enxugar qualquer perspiração, qualquer marca de batom, quase poderia pensar-se, não fora a aldeia o cenário onde exibia o boticário os seus adereços. Este cuidado com a aparência marcava também o estabelecimento onde o jovem asclépio, em mangas de camisa mas sempre elegante, misturava soluções de cores inesperadas e enchia frasquinhos com óleos e pomadas. As paredes estavam cobertas de estantes envidraçadas de cor creme, e dentro delas garrafinhas de vidro e metal com as mais diferentes formas e conteúdos davam ao espaço um colorido quase infantil. Um balcão comprido, com tampo de mármore rosado assente sobre colunas jónicas, ocupava o centro da loja. Era a primeira coisa que as pessoas viam quando entravam naquele espaço e causava sempre espanto. O chão, em grandes azulejos pretos e brancos, reflectia todas as cores dos móveis e objectos, dos estofos de veludo vermelho escuro ou azul dos banquinhos e canapés, e o brilho forte do candelabro de múltiplos cristais que pendia do tecto. Uma porta creme numa das paredes conduzia a um laboratório a que só o farmacêutico tinha acesso, mas que poderia imaginar-se como um lugar arejado, colorido, limpo, à imagem da loja imaculada e frívola, um lugar cheio de bolas de algodão e fitas de seda, pastilhas de açúcar e loções perfumadas. Era tal o contraste entre o interior da farmácia e o resto da aldeia, entre os aldeões apagados e o farmacêutico dandy, que passar do lado de fora para o lado de dentro era como passar de um mundo a outro, e se soubessem falar desta transfiguração, os aldeões talvez a comparassem à sensação religiosa de um trânsito entre a realidade mortal dos homens, escura e fria, agreste e desconfortável, e a realidade imortal dos deuses que sabem o que é a vida boa. Beleza, ordem, luxo e volúpia. Mas como ninguém a não ser o farmacêutico penetrara ainda no laboratório das traseiras, ninguém a não ser o farmacêutico poderia dizer se a passagem da loja ao laboratório iria ser uma continuação da experiência doce a que os aldeões não conseguiam habituar-se, ou se uma passagem para um outro mundo ainda, diferente da aldeia triste e da loja feérica. Um mundo capaz talvez de resolver o mistério de uma tal dualidade e de um farmacêutico tão incongruente.

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