quarta-feira, 23 de março de 2016

História gótica

10. "Mas para perceberem bem o que se passou, tenho que começar por explicar quem eu era há alguns anos.
Sempre vivi na cidade de s. O meu pai foi um daqueles homens que subiu na vida a pulso, que começou a trabalhar ainda as crianças da sua idade aprendem os nomes dos rios e das montanhas, atiram papelinhos às costas curvadas do professor de latim, e enchem de lama a pasta do colega novo. Sei isso porque eu próprio fui um destes rapazes, com tempo para subir às árvores e perseguir primas pelos corredores da casa de campo. Esta vida de criança despreocupada que sabe a que horas lhe vão dar a torrada cheia de manteiga e doce e em que dias irá desembrulhar a bicicleta nova ou a miniatura de comboio mais moderna, comprou-a o meu pai à custa de muitas máquinas oleadas e de muitos caixotes carregados. Pagou-a com dinheiro e com um carácter duro. Quando nasci já os meus pais viviam no melhor bairro da cidade, numa casa ainda pequena mas com criada e cozinheira. Um rapaz tratava do cavalo que puxava o tilbury da minha mãe, indispensável para ir passear nos amplos jardins onde os elegantes cumprimentavam com os seus chapéus as meninas casadoiras. Ao contrário do meu pai, a minha mãe não trabalhara um único dia da sua vida. Do acordo a que chegara com o meu pai antes do casamento faziam parte estes pequenos luxos sem os quais não seria capaz sequer de se levantar da cama todos os dias. Sim, porque se fosse pelo meu pai, não se teria gasto um tostão nestas futilidades de menina mimada. Perguntarão como é que um homem que desde a infância tinha as mãos sujas e calejadas se casou com uma jovem delicada, habituada aos cremes e às sedas com que as mulheres de uma certa classe preservam a beleza da sua melhor juventude. A resposta é inesperada, porque de um homem severo e disciplinado como o meu pai, que contava cada moeda ganha sabendo bem como era não ter nenhuma, um homem que conhecia os motivos sórdidos daqueles com quem tinha de lidar constantemente, as suas pequenas vaidades e ressentimentos, a forma como passavam por cima de todos os obstáculos sem piedade, de um homem assim seria de esperar tudo menos o golpe fulminante com que fora instalado no seu peito o mais doce e violento dos sentimentos. Assim que viu a minha mãe, ficou subjugado por aquela força a que os poetas chamam amor. Já ele, não sabia como chamar a esse estado, exasperante para quem sempre controlara as suas decisões. Durante vários meses cortejou-a, e ao pai dela ao mesmo tempo. Quisera o destino, ou o acaso, que este fosse um burguês próspero, e a junção das duas pequenas fortunas, a do homem que viria a ser meu avô e a do que viria a ser meu pai, tornaria esta nova família na proprietária de uma grande fortuna. O dinheiro é um bom ajudante quando se trata de cortejar certos pais e certas filhas, e o casamento fez-se, e celebrou-se com um impressionante banquete e uma lua-de-mel em Itália. Nunca o meu pai pensara vir a experimentar o lazer dos que são bafejados pela sorte do nascimento. E nunca pensara vir a sentir a mistura de culpa e felicidade que cobriu com algumas nuvens os seus dias solarengos. Meus senhores, se tiverdes paciência continuarei o meu relato, mas só depois de alguns copos desta aguardente que me sabe agora à ambrosia dos deuses."

Sem comentários:

Publicar um comentário

Não são permitidos comentários anónimos.