sábado, 19 de março de 2016

História gótica


4. A primeira coisa que todos ouviram assim que o criado abriu a porta lateral do castelo, foi o pio longo e agudo de uma coruja.
"Estígio!" Apoiada num cajado nodoso, as mãos igualmente nodosas e as unhas como garras amarelas, uma velha separou-se do grupo e avançou pela espécie de pátio circular em direcção a uma arcada de pedra quase derrubada. O cajado batia nas pedras a cada passo da anciã, com pancadas cavas e regulares. Por trás dela, a procissão dos estranhos habitantes do castelo prosseguia, lenta e inspirando os miasmas insalubres do pântano próximo. Cada um dos fantásticos personagens respirando fundo como se inspirasse o ar puro do alto de uma montanha. A arcada de pedra dava para um caminho de gravilha rodeado de estátuas. Ao fundo desse caminho, um portão, apenas encostado, convidava mais a fugir do que a entrar, mas, adiantando-se à megera, um adolescente pálido abriu-o e todos passaram, sempre sem pressa. O portão era a entrada de um cemitério desordenado, as lajes cobertas de musgo e os mausoléus de trepadeiras de troncos escuros e retorcidos. Sem cruzes, nem anjos, nem votos piedosos, nem palavras saudosas, nem retratos, nem flores, as campas estavam marcadas com símbolos ilegíveis. Uma cifra poderia quebrar o enigma, mas alguma coisa nos golpes com que tinham sido gravados, uma coisa feroz e brutal, repelia quem pensasse descobrir-lhes o sentido. Como se compreender estes sinais fosse libertar das lápides monstros esfomeados, fantasmas enraivecidos, espíritos torcionários. Como se fosse o mal quebrar as cadeias que lhe vedavam o domínio do mundo. Como se a batalha entre os assassinos e os assassinados fosse irromper do chão que a abafava para encher a superfície das chagas abertas e dos esgares de dor dos moribundos. Como se fossem pesar sobre os homens os pesadelos dos criminosos, dos celerados. Pesadelos lascivos e perversos como lascivo e perverso é o prazer do horror, o prazer da escuridão e das feridas ulceradas. Combates incansáveis, corpos esquartejados, vísceras pendendo de caninos afiados, pescoços degolados. E sangue. A avidez do sangue. Do sangue que jorra em golfadas espessas das feridas abertas por instrumentos de ferro. O cheiro a queimado das carnes desfeitas por metais em brasa. A ardência dos fumos na garganta, os fumos do pez e do óleo fervente. A velha apontou com o cajado na direcção de uma massa indistinta de pedra. "Ali".

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