domingo, 13 de maio de 2018

Chá no Cemitério

Apesar de ainda não ter partilhado convosco as fotos, uma das coisas mais giras que fiz em Houston foi visitar o Cemitério Glenwood. Quando ouvi na WKNO, o serviço de rádio público local de Memphis, de que iria haver uma actividade no Cemitério Elmwood fiquei curiosa porque não conhecia os cemitérios de Memphis, nem sequer sabia da existência de Elmwood.

Há dois dias, fui à página de Internet do cemitério ver o que era e, depois de consultar a lista de eventos, decidi ir a um. Ontem realizava-se o Mother's Tea, um chá anual por ocasião do Dia da Mãe, que se celebra hoje nos EUA, e que inclui para além do chá uma mini-visita guiada, cujo tópico é visitar algumas das campas de mulheres. O evento, que custou $30 por pessoa, serve também para angariar fundos para manter o cemitério. À venda no evento também havia t-shirts e livros sobre o mesmo, para além de terem convidado uma rapariga local que cultiva e faz misturas de chás e que os tinha à venda. No todo, gastei mais de $90, mas foi uma manhã muito bem passada e educativa.

A anfitriã do Chá e docente da visita guiada foi Kimberly McCollum, a Diretora Executiva do Cemitério. Apesar da sua aparência jovial e energia entusiástica, a Kimberly já trabalha em Elmwood há quase 20 anos, que irão ser completados em Novembro. Nota-se que é uma pessoa extremamente dedicada à missão do cemitério, que foi fundado em 1872, funciona também como arboreto, e que irá estar em funções por mais 30 a 40 anos, altura em que não terá mais espaço para novas campas e reverterá a ser apenas um museu.

Para além de se aprender imenso nestas visitas, há um aspecto que me fascina porque aprende-se história local através da vida das pessoas que estão enterradas e, algumas delas, têm histórias de vida muito interessantes e cheias de intriga, coisas que muitas vezes estão ausentes dos livros formais de história. Intrigas é mesmo inerente a Memphis porque a cidade foi fundada no pecado: jogos de azar e prostituição. Como é que se designavam os bordéis naquela altura? Estabelecimentos de comercialização de afectos -- não é delicioso?

Para aceder ao cemitério, passamos por uma ponte que está no National Register of Historic Places dos EUA. Como quando foi construído, o cemitério ficava numa zona campestre, cerca de três quilómetros fora da cidade, foi construído um edifício, também considerado histórico, que servia para os cidadãos descansarem quando chegavam para a sua visita -- o edifício tem quartos de banho públicos. Naquela altura, muitos iam a pé ou em carroças. Mais tarde houve um trolei que fazia a ligação da cidade ao cemitério.

Entretanto, a cidade cresceu e o cemitério está agora na zona urbana, se bem que é uma zona que o rodeia parece bastante degradada. Há também uma pequena capela, que foi onde se realizou o chá. No interior da capela, há uma pequena cozinha e, ao lado, um quarto de banho (já sei, as tias dizem casa de banho; mas, meu caros, é mesmo um quarto dentro do edifício, não é preciso ir à rua, como antigamente).

Depois do chá e no início da visita guiada, ouvimos as sirenes de um carro a anunciar a chegada de um funeral. A docente pediu-nos para prestarmos os nossos respeitos à pessoa falecida e todos nos virámos em direção ao caminho por onde ia passar e observámos alguns momentos de silêncio enquanto o sino tocava 13 badaladas: um por cada apóstolo, mais um pela vítima.

Uma das campas que visitámos foi a de Ma Rainey, cujo nome de baptismo era Lillie Mae Glover, uma senhora bastante conhecida em Memphis, que cantava na Beale Street. No obelisco da campa dela pode ler-se:
"I'm Ma Rainey #2
Mother of
Beale Street
I'm 78 years old
Ain't never had
enough of nothing
And it's too
Damn late now"

Por falar em obelisco, aprendi que os obeliscos e as urnas que se vêem nos cemitérios são uma influência dos egípicios, que era muito caros aos victorianos. Um dos tópicos que poderá vir a ser alvo de uma visita guiada é mesmo a influência da estética egípcia em Elmwood.

Elmwood é o cemitério de Memphis com maior concentração de vítimas de febre amarela, dado que a cidade teve seis surtos -- o pior em 1878 -- e, a certa altura, perdeu metade da população porque muitos dos que não morriam foram-se embora para outras áreas. Para além das condições da geografia local, Memphis era a cidade mais suja dos EUA e isso contribuiu para a severidade dos surtos.

No cemitério também há um monumento à Associação Howard, uma precursora da Cruz Vermelha e que ajudou a tratar das vítimas de febre amarela. Como na altura, Memphis não tinha hospitais, algumas das Madames converteram os seus bordéis, perdão, estabelecimentos de comercialização de afectos, em estabelecimentos hospitalares, ambos têm mais ou menos o mesmo espírito nos EUA -- afinal o sistema de saúde é pago a preço de ouro.

As Madames não eram imunes à doença. Uma delas foi enterrada num sítio escondido, mas um dos seus clientes pagou para que fosse mudada para uma zona mais rica do cemitério com uma campa a condizer. A campa tem o seu nome de baptismo, Emily Sutton, mas a brigada dos costumes da altura levou a mal e rodeou a campa com identificadores do nome profissional da senhora: Fanny Walker, para que ninguém fosse ao engano e pensasse que se tratava de uma mulher decente. Conta-se que, para além de ter transformado o bordel em hospital, a Madame Walker também doou $50 para os pobres pouco tempo antes de morrer de febre amarela em 1873. Ser indecente é muito caro...

Uma outra vítima de febre amarela foi Mattie Stephenson, uma jovem rapariga que vivia noutra parte dos EUA e que, após ser abandonada no altar pelo noivo, decidiu sacrificar-se e vir para Memphis para ajudar a cuidar dos doentes. Quando chegou, contraiu a doença e morreu uma semana depois. Os habitantes da cidade, depois de saberem do seu acto altruísta e destino trágico, angariaram fundos para erigir um monumento em sua homenagem numa parte proeminente do cemitério.

Há uma outra campa de uma noiva com destino trágico no cemitério: Etta Grigsby Partee morreu no dia do seu casamento da doença de Bright, uma condição que afecta os rins. A campa tem uma estátua em mármore Carrara, que, com as condições atmosféricas de Memphis, está bastante degradada, mas está demasiado frágil para se limpar. Pensa-se que, eventualmente, a estátua irá desmoronar.

Este ano está a decorrer um projecto piloto no cemitério em que estão a estudar quais as melhores plantas para tentar reabilitar as campas vitorianas que funcionam como canteiros. Espera-se que para o ano possam abrir o projecto a voluntários que apreciem jardinagem e que cuidarão das campas como se de "canteiros" se tratasse. Por um lado, presta-se homenagem aos costumes da época de quando as pessoas faleceram, por ouro lado também serve para ter mais flores no espaço o que alimenta insectos benéficos como abelhas. Um dos grandes problemas no cemitério neste momento é que há algumas árvores, as murtas de crepe, que estão doentes, mas para as tratar é preciso aplicar um produto que é nocivo para as abelhas. A Directora Executiva não está contente com as opções que tem...











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