quarta-feira, 16 de maio de 2018

Floricultura 42

O meu nome não é Alice, mas não é só ela que corre atrás de um coelho branco, eu também tenho corrido.
Em boa verdade, o meu coelho, ou melhor, o coelho de quem corro atrás, não é totalmente branco. Tem um pêlo ruivo nas costas. Um pêlo, sim, só um. Para os mais rigorosos, isto é inaceitável e torna falsa a minha afirmação inicial. Eu não acho, tenho tolerância para com um pêlo ruivo. Afinal, é só um. Ao longe nem se vê. E mesmo se estivermos ao pé do coelho, é preciso saber onde está para conseguirmos vê-lo e para começarmos a desconfiar que este coelho de quem se diz ser branco não é, de todo, branco. Ou que não é branco por um pêlo. Enfim, não interessa. Como eu dizia, corro atrás de um coelho branco, e não me chamo Alice. Este coelho não parece muito preocupado em chegar a tempo a lado nenhum, visto que não tem relógio e que não corre em linha recta. Parece, antes, mais interessado em que eu não chegue a tempo de o apanhar pelo pescoço, e para evitar isto não é preciso um relógio. E é, com certeza, um coelho sagaz, por não correr em linha recta. Ele não precisa de saber em que direcção vai quando corre de forma aparentemente tão caótica, e isso torna tudo mais rápido para ele. Mas eu, que tenho de mudar de trajectória ao sabor daquilo que dá na gana do coelho, desacelero. Não digo real gana porque não lhe conheço a família. Em suma, ele corre depressa, eu corro devagar, conclusão, a distância entre nós aumenta. Mas nem por me dar conta disto eu deixo de correr. O coelho também não me conhece a família, e posso dizer que somos gente teimosa. Nem pense o coelho que me vai fazer desistir na próxima curva ou no próximo ângulo recto. Mesmo que corra triangularmente, eu continuo. E quando ele recorreu a uma corrida hexagonal, pensando que me deixaria perplexo e sem fôlego, enganou-se e bem. É que como ele já tinha corrido em círculos e quadrados, eu comecei a suspeitar que a este coelho não era estranha a geometria, e já estava preparado para correr atrás dele fossem quantos fossem os ângulos e os lados que lhe desse na gana ir fazendo. Só que a fase geométrica da corrida do coelho não durou, e lá tive eu de correr atrás dele sem conseguir antecipar mudanças de direcção. Uma canseira. Principalmente tendo em conta que corro atrás deste coelho todos os dias. É que não consigo evitar, o manhoso foge-me sempre. Tem sempre uma corrida nova, ontem, por exemplo, correu em forma de astromélia. Uma vez tentei gritar-lhe que corria atrás dele para lhe arrancar o pêlo ruivo e mais nada, mas ele não deve ter acreditado porque nem assim parou. Foi muito sensato da parte dele não ter acreditado. Os meus planos para este coelho são outros. 

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