quarta-feira, 27 de março de 2019

O desaparecimento de Madeleine McCann

“The Disappearance of Madeleine McCann” é um polémico documentário da Netflix. A história é conhecida. A 3 de maio de 2007, Madeleine, uma menina inglesa de três anos, desapareceu. Os pais, Gerry e Kate McCann, estavam a jantar, com um grupo de casais amigos, desde as 20h30, num restaurante de Tapas do resort Ocean Club, na Praia da Luz (Portimão). De acordo com os testemunhos, de 20 em 20 minutos, alguém do grupo dava uma vista de olhos pelos diferentes miúdos deixados sozinhos a dormir. Era uma rotina que seguiam há uma semana.  Às 21h30, foi declarado o desaparecimento. As autoridades policiais chegariam ao local horas depois. Passaram quase 12 anos e o mistério continua. Não acredito na tese, defendida, desde quase o início, pelo inspector Gonçalo Amaral de que foram os pais que, por acidente ao sedá-la (os pais sempre negaram que sedassem os filhos), mataram a filha e depois encenaram um rapto.
Verdade que, aqui e acolá, transparece no documentário um certo desprezo e paternalismo dos ingleses em relação aos portugueses - somos pobres, os polícias andavam mal-vestidos, eram poucos profissionais, gostavam era de grandes almoçaradas, como, aliás, logo à época vários jornais britânicos acusaram. Acho até que têm razão nalgumas críticas aos métodos da Polícia Judiciária, que nós, na altura, gostávamos de acreditar que era a melhor do mundo - sempre achei uma treta sem pés na cabeça a tese de que os portugueses têm falta de auto-estima; nós somos "os melhores do mundo", como não se cansa de dizer o nosso querido e muito amado "Presidente dos afectos".

Dito isto, passado todo este tempo, continuam a chocar-me algumas coisas. Como é que os pais deixaram três crianças com menos de três anos a dormir sozinhas num quarto, enquanto jantavam tranquilamente num restaurante a dezenas de metros de distância? Pelos vistos, é uma prática normal entre os britânicos. Não há volta a dar. Este é um comportamento considerado bárbaro pelos nossos padrões, e ainda bem. Segundo, impressiona-me o impulso dos pais - um casal de médicos de Leicester - de chamar de imediato a comunicação social - ao que parece, antes de chamarem as próprias entidades policiais. Há muito a dizer sobre isto. Parece-me, antes de mais, um sinal de uma sociedade corrompida durante muito tempo por um jornalismo tablóide e por uma classe política rendida ao espectáculo e aos faits-divers – eram os anos áureos de Tony Blair e do seu amigo Rupert Murdoch. Quem se envolve com os media está a enfiar a cabeça na boca de um tigre com dentes bem afiados. Os heróis passam a vilões num piscar de olhos. Apresentados numa primeira fase como vítimas pela comunicação social, os McCann rapidamente foram vilipendiados e achincalhados por meio mundo. Por azar, esta tragédia coincidiu com o advento das redes sociais, onde os trolls puderam aliviar-se de todo o seu ódio em cima do casal. Hoje, os McCann devem estar arrependidos dessa imprudência. Ainda por cima. em vez de ajudar, os media podem antes ter - nalgumas fases, pelo menos - prejudicado a investigação.
Entretanto, os McCann processaram vários órgãos de comunicação social e apelaram a um debate sobre o papel dos media na sociedade. Há 100 anos, o jornalista e analista norte-americano Walter Lippmann explicou que os jornalistas se interessam por aquilo que acham que interessa ao seu público. Neste particular, nada mudou. O público quer boas histórias, e não se pode desiludir o público.


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