Estou duplamente chocada, não só pela perda do Nuno Loureiro, mas também que um antigo estudante internacional português tivesse feito tal coisa. E receio a eventual reacção de Trump.
Um blogue de tip@s que percebem montes de Economia, Estatística, História, Filosofia, Cinema, Roupa Interior Feminina, Literatura, Laser Alexandrite, Religião, Pontes, Educação, Direito e Constituições. Numa palavra, holísticos.
sexta-feira, 19 de dezembro de 2025
Nem de propósito
quinta-feira, 18 de dezembro de 2025
Até o lava-loiças
No meio de todo o sentimento anti-imigrante acontecem coisinhas surreais. Nnas redes sociais, num dos grupos de portugueses nos EUA, alternam-se posts anti-imigração em Portugal, posts pró-Trump, e até um post a dizer que Newark já não é tão portuguesa como antes. Em Portugal, uma amiga minha (portuguesa), envia-me mensagens para eu não me preocupar, que já acendeu um velinha à santa dela para me proteger, mas que não há problema, pois sou da "Europa", não sou "da imigração sem interesse, a dos que sabemos." É um conceito subjectivo.
Uma vez, estava numa reunião de trabalho e um (antigo) colega meu francês falou dos portugueses que tinham emigrado para França e que eram porteiros de prédios, pessoas mesmo de baixa condição, sugeria ele. Eu fiquei calada. Na equipa, eu sou a que tenho mais formação académica, falo melhor inglês do que o resto da malta, mesmo os americanos (eles estão sempre a dizer-me isso); não quer isto dizer que eu seja melhor do que os portugueses de outrora, aliás, eles são eu porque tenho familiares que foram para França nas condições que ele descreveu, mas parece que o ser português não é exactamente um imigrante com interesse para toda a gente.
Convenhamos que isto de haver pessoas de primeira e o resto é um tipo de pensamento que é transversal a muita gente em muitos países neste momento. Talvez tal tenha sempre acontecido desde que o Napoleão inventou o conceito de nacionalismo ou, se calhar, vem mais de trás, da altura do Império Romano, mas o que distingue a actualidade do que havia há uns 15 ou 20 anos é o à-vontade com que se exprimem estas ideias. Por um lado, é saudável que haja liberdade de expressão; por outro lado, estas ideias são tão sujas e nojentas que até o lava-loiças foge disto.
quinta-feira, 6 de novembro de 2025
A Resistência ergue-se
Sempre que há alguma situação que deixa a Administração ficar mal-vista, a Administração manufactura uma crise. No seguimento da Marcha "No Kings", a ala leste da Casa Branca foi demolida, logo o preço das eleições de ontem vai ser o caos no transito aéreo, pelo menos, porque as coisas estão a intensificar. As redes sociais estão cheias de vídeos e de casos de pessoas que foram detidas por ICE, que descrevem situações aberrantes de violação de direitos humanos, para já não falar dos constitucionais. Um cidadão irlandês residente nos EUA foi detido porque se parecia com alguém latino. Durante a sua estadia, viu um homem que também estava detido queixar-se de dores no peito, não lhe foi dada a devida atenção médica e alguns dias depois a pessoa teve um ataque cardíaco e caiu no chão. O irlandês acabou por ser deportado, apesar de nunca ter estado ilegal.
Na Califórnia, Gavin Newsom, o governador, enviou um vídeo a um jornalista de uma intervenção da ICE que deteu um homen num parque de estacionamento e deixaram o seu filho bebé no banco de trás do carro. Depois os agentes da ICE levaram o carro com o bebé; horas mais tarde o homem foi libertado porque era americano e o bebé foi reunido com a família. O Newsom estava a tremer a falar do caso com o jornalista. Em Chicago, grupos de mulheres americanas andam com apitos a alertar as vizinhanças sempre que encontram agentes da ICE, algumas perseguem os carros da ICE nos seus próprios carros, outras oferecem as suas lojas como sítio seguro para quem precise de abrigo dos agentes. Há advogados a relatar o que se passa nos tribunais e dar o seu testemunho das violações da administração. Há padres de diversas denominações a dar sermões a criticar a Administração, etc.
Apesar de tudo, não está a correr mal. Nota-se que o Trump é a figura pública, mas o esforço de "purificação da sociedade" é do Stephen Miller, enquanto que o Russell Vought está encarregado de destruir o funcionamento do governo federal. Estes são metódicos e competentes, mas a maior parte do resto da Administração é trapalhona, mas quer apresentar resultados rápidos e depressa e bem há poucos quem. Se fossem mais pacientes e metódicos, estaríamos em pior situação.
Há várias ideias que são bastante queridas aos americanos: o final feliz, o preferir o "underdog" a quem tem poder, a ideia de que qualquer pessoa pode ser chamada a ser um herói, o triunfo do bem sobre o mal, etc. Se tinha de acontecer, não é mau de todo que este ressurgimento das ideias fascistas esteja a ter maior expressão primeiro nos EUA porque os americanos são um povo que está disposto a resistir. A angariação de fundos para apoiar causas, o insistir que a sociedade civil se empenhe em financiar a educação, a cultura, e a saúde, e dedique parte do seu tempo livre a voluntariado, uma sociedade civil afluente e que não dependa totalmente do estado, e mais recentemente a invenção das redes sociais, a ideia do cidadão jornalista, etc.--tudo isso são armas de resistência, caso o governo se vire contra o povo e é o que nos vale agora. É mesmo "We the people".
domingo, 26 de outubro de 2025
Há sempre os jacarés
A Administração indica que 400 mil imigrantes ilegais já foram deportados este ano. O que é ser imigrante ilegal? Há pessoas que estão legais nos EUA, que nunca estiveram ilegais, mas a quem a Administração retira o visto, logo passam a ilegais e são deportados. É normal, "agentes" da ICE irem a centros comerciais e prédios de apartamentos e apanharem pessoas, colocarem-nas num camião, por vezes um camião de mudanças alugado, sem atender à segurança durante o transporte de quem apreendem, e levarem-nas para prisões privadas, onde são mal alimentadas e não têm acesso a cuidados de saúde (um dos meus amigos em Houston foi deportado recentemente, e soube pela família que era acordado às 5h30 da manhã para tomar o pequeno almoço e depois tinha outra refeição às 15h, a comida era de má qualidade, e não davam água suficiente para o manter hidratado; apesar de ele ser diabético, não tinha acesso a insulina). Também ouvi relatos de que nem sempre são agentes da ICE, porque supostamente há um programa em que a administração paga $1.500 por pessoa apreendida que for entregue. O meu amigo, apesar de ilegal, pagava impostos, tinha comprado uma casa recentemente, e tinha iniciado o processo para se legalizar há anos.
O objectivo é deportar um milhão de pessoas até ao final do ano, logo o Presidente está prestes a substituir os reponsáveis pela ICE para acelerar o processo. Uma das pessoas próximas do Presidente (infelizmente chama-se Laura) até já sugeriu que há 6,6 milhões de jacarés com fome. (Ironicamente, sempre achei que o crime perfeito era ir à Louisiana ou à Florida e dar a vítima de comer ao jacarés--é no que dá ver documentários sobre gangs violentos).
Em algumas cidades, a Guarda Nacional foi acionada (já chegou a Memphis), supostamente para combater crime. A Guarda Nacional é uma força de reserva, muitos jovens inscrevem-se porque lhes pagam as propinas e taxas de frequentar a universidade; em troca esses jovem oferecem um fim-de semana por mês para se treinarem e, em caso de emergência, são activados. Normalmente, as emergências que os activam são prosaicas--um pós-furacão, tornado, ou inundação, mas também podem ser despoletadas para "manter a ordem". Depois há as forças militares propriamente ditas. O Secretário à frente do Departamento da Guerra, é o Pete do WhatsApp, aconselhou o topo das forças militares a tratarem o território nacional como treino para intervenções militares, ou seja, usarem força bruta.
Obviamente, parte da população está horrorizada e outra parte encantada com tal exibição de força. A marcha "Não há Reis" foi um sucesso, com 7 a 8 milhões de pessoas a participarem por todo o país. Foi este o tópico da conversa durante alguns dias até que o Presidente decidiu destruir a ala leste da Casa Branca e deixou-se de falar da marcha.
É imperativo que a Europa emita um alerta aos seus cidadãos: os EUA neste momento não são um país seguro onde viajar. As coisas estão a deteriorar-se muito rapidamente e os países europeus vão ter de decidir qual a melhor maneira de confrontar os EUA quando os seus cidadãos começarem a ser apreendidos. Notem que ser deportado pelos EUA não é trivial, o Supremo Tribunal autorizou que os EUA deportem pessoas para terceiros países e há acordos entre os americanos e alguns dos países mais inseguros do mundo (por exemplo, o Sudão do Sul) que permitem deportar pessoas para lá, independentemente de os países de origem destas pessoas se disponibilizares para os receber de volta--os americanos nem contactam os países de origem dos deportados. E há sempre os jacarés.
domingo, 12 de outubro de 2025
É a economia agrária, estúpido!
Com o apagão governamental, os americanos deixaram de ter acesso a muitos dos serviços que o governo oferece, especialmente em gestão de risco. A maior parte das entidades governamentais deixou de publicar dados da economia americana e também não estão a recolher todos os dados do costume, logo vai ser difícil ter ideia de como as coisas estão na realidade, mas mesmo que os dados estivessem a ser recolhidos, toda a análise está calibrada para um funcionamento da economia que já não existe porque Trump destruiu parte dos estabilizadores automáticos da economia. O exemplo mais flagrante é o da agricultura.
Os EUA são um dos principais produtores de commodities do mundo (em agricultura, que é a área que conheço melhor, produzem carne de frango, porco, e vaca, trigo, milho, soja, óleo de soja, farelo de soja, arroz, algodão, etc.), mas recentemente foram ultrapassados pelo Brasil em bastantes áreas. A China é o maior importador de commodities do mundo e o maior comprador de commodities americanas, menos este ano porque o Trump impôs-lhes tarifas outra vez e a China deixou de comprar. A primeira vez foi em 2018, o que fez com que os preços das commodities afundasse, mas esse episódio foi interrompido pela pandemia e Trump conseguiu negociar um acordo com a China que requeria que a China comprasse um certo montante de commodities agrícolas, o que fez com que os preços recuperassem. Nessa altura, a China não tinha grande opção por causa da pandemia, mas também porque quando o resto do mundo estava em lockdown, a China estava aberta, logo necessitava de matéria prima para abastecer o resto do mundo (caso do algodão).
Apesar de Biden continuar a mesma política comercial com a China, o acordo comercial de Trump tinha um prazo limitado e expirou sem que outro fosse negociado. Então a ideia de Trump neste segundo mandato era que ao "implicar" com a China, iria acontecer o mesmo que no primeiro e a China iria capitular e acabar por comprar as commodities americanas. Só que nos últimos cinco anos, a China aproximou-se a América do Sul, especialmente do Brasil, e também reactivou relações comerciais com a Austrália, que também produz algumas commodities, e com isto os EUA perderam algum poder de negociação, logo desde Abril deste ano, os preços das commodities têm estado em queda. Por sua vez o Brasil continuou a aumentar a sua produção de commodities e o custo de produção do Brasil é inferior ao dos EUA, logo o Brasil tem margem para fazer face a descidas de preço.
Quando os preços ficam muito baixos, os agricultores americanos têm a opção de emprestar o produto ao governo federal em troca de financiamento e quando os preços recuperam, os agricultores saldam o empréstimo e vendem o produto a preços de mercado que já estão mais favoráveis. A existência destes empréstimos faz com que os preços das commodities dificilmente desçam abaixo do pagamentos do empréstimo. Acontece que o governo federal está fechado (por coincidêcia, até estamos na altura em que os produtores começam a colher o produto), logo não dá para emprestar ao governo, o que faz pressão nos preços e limita o acesso dos agricultores a capital para fazer face às suas despesas.
A China pode esperar porque as colheitas australiana, brasileira e argentina surgem no mercado antes da americana, já os agricultores americanos não e as falências já começaram. Também já começaram os telefonemas ao membros do Congresso a reclamar e Trump já disse que vai haver um pacote de apoio aos agricultores, mas não tão generoso como o do primeiro mandato. Claro que, no primeiro mandato, Trump não despediu os empregados do governo federal como está a fazer agora. Mesmo que ele queira dar dinheiro aos agricultores, é provável que quando chegar altura de fazer os pagamentos não tenha ninguém para os processar.
quinta-feira, 2 de outubro de 2025
Nove meses
Depois em Abril tivemos o exame que foi outra fonte de stress, mas correu bem. Faltava depois terminar as horas de voluntariado: 20 horas de serviço comunitário, mais 20 de voluntariado para o serviço de Extensão da Universidade do Tennessee, e depois mais 8 horas de educação continuada (palestras, seminários, aulas online), que tinham de ser terminadas antes do início de Agosto para podermos participar na cerimónia de graduação a 21 de Agosto. Ainda dei mais um pulo a Portugal em Junho/Julho para ver o meu pai e ir a um casamento.
Consegui completar todos os requisitos e terminar a certificação de jardinagem, mesmo a tempo de ir ao Texas em visita de trabalho para avaliar a colheita de algodão. Cheguei ao hotel, fiz o check-in, e fui dar uma volta a pé para andar 10,000 passos. Estava quase a regressar ao hotel quando vejo que a minha irmã tinha enviado várias mensagens. O meu pai tinha acabado de falecer. "Quando vens?" perguntou ela, "Não vou" respondi.
Não queria ir ao funeral, não valia a pena, tudo o que podia fazer pelo meu pai estava feito, e tanto eu como ele não gostamos de funerais. Depois a logística do regresso ia ser um pesadelo: tinha de regressar a Memphis para pegar o passaporte e poder sair do país, depois arranjar um voo de emergência para ir a Portugal, fazer as malas, e passar uns três dias a andar às voltas com viagens não era o que eu queria fazer naquela altura. Para além disso, quando o vi em Junho sabia que era a última vez que estava com ele. E quando falei com ele alguns dias antes de ele morrer, pedi-lhe para ele morrer. Já não podíamos fazer nada por ele, o corpo estava demasiado gasto e ele não estava numa situação confortável. Disse-lhe que estavamos bem, que ele não precisava de se preocupar connosco, mas que estávamos preocupados com ele porque sabíamos que estava a sofrer.
Apesar do alívio que senti ao receber a notícia, era-me difícil pensar nele e não chorar, e não disse a quase ninguém. Passei três dias a medir o algodão com um colega que não sabia do que se passava comigo; no carro, de vez em quando começava a chorar, mas não o suficiente que ele se apercebesse. No último dia, perguntou-me se eu queria ir jantar. Não queria, tinha de terminar de preparar o relatório da visita para a reunião do dia seguinte. Apresentei os resultados e desculpei-me porque tinha de sair para ir para o aeroporto. Depois à noite, peguei o meu sobrinho no aeroporto que vinha passar quase três semanas comigo e finalmente disse no trabalho o que tinha acontecido. Deram-me três dias de folga e fomos a Nova Orleães, que é um sítio em que a fronteira entre a vida e a morte é bem esbatida--e tem boa comida.
Concumitantemente, o reino de terror do Trump adensa-se. Para além da incerteza que ele criou em termos de funcionamento da economia com as tarifas que são, mas não são, o governo federal deixou de cumprir leis e faz o que lhe dá na telha. Daqui a uns dias, irá haver um intervenção militar em Memphis, supostamente para reduzir o crime, mas é óbvio que é uma desculpa para caçar pessoas que eles não gostam e as meter na prisão. Mesmo cidadões americanos têm sido presos por engano, mas nem sei, e tirando as aventuras com o meu sobrinho e as viagens de trabalho, tenho passado bastante tempo em casa. Quando saio à rua levo o meu passaporte americano.
No trabalho esta semana, dizia aos meus colegas que receava ser presa, e eles acham que estou a exagerar. Só pessoas más estão a ser presas, asseguravam. Por enquanto, a maioria das pessoas presas são imigrantes ilegais ou pessoas que eles não querem que fiquem nos EUA, mas ainda a procissão vai no adro. Conheço algumas pessoas que estão ilegalmente nos EUA, e um deles foi preso. Tive alguma esperança que com o tempo fosse libertado, mas depois de ouvir um dos episódios mais recentes do This American Life, acho que o mais provável é a pessoa morrer na prisão porque é diabético e não lhe estão a dar comida adequada, nem medicamentos, ou deportarem-no. Se tivermos sorte, vai para o país de origem, senão, ainda acaba num país africano dos mais pobres.
É difícil acreditar que isto é a realidade porque há uma certa aura de normalidade nos dias: o sol brilha, os vizinhos cumprimentam-se, o pássaros cantam. Por coincidência, em 1995 ou 1996, li um livro de Arthur Miller chamado Focus, que é sobre um homem que não é judeu, mas acha que se parece judeu e então tem imenso medo de ser identificado como judeu. É adequado para os tempos que correm na América. A Heather Cox Richardson, uma historiadora americana, diz que as circunstâncias actuais não são únicas na história e que os EUA já ultrapassaram crises semelhantes antes e penso que sim, esta loucura irá ser ultrapassada.
Num discurso recente, o primeiro ministro do Canadá, Mark Carney, citou Leonard Cohen na canção Anthem: "There is a crack, a crack in everything | That's how the light gets in". E há alguns raios de luz, como o episódio do Kimmel; os americanos têm poder de compra e houve um número suficiente que cancelou a subscrição dos canais da Disney para a companhia voltar a trás. Estou convenciada que o desmoronamento desta loucura vai ser despoletado por motivos económicos. Quando começa a doer no bolso, os americanos entram nos eixos.
quarta-feira, 13 de agosto de 2025
Nem tudo está perdido, especialmente na rua
Claro que estou a ser injusta porque há coisas bastante importantes que tem tratado, como a preocupação do executivo em limitar o tempo que as mães têm acesso a um horário laboral reduzido para que possam amamentar os filhos. Não basta Portugal ter pouquíssimas grávidas, ainda tem a infelicidade de haver umas que têm o hábito de abusar dos seus direitos pós-parto. A Ministra do Trabalho, Solidariedade, e Segurança Social, Maria do Rosário Palma Ramalho, acha que se deve mudar a lei para que não haja abusos porque "acha" difícil de conceber que uma criança seja amamentada depois dos dois anos porque deve comer sopa e outras coisas e não viver só de leite materno. Normalmente, há um processo de fiscalização para encontrar abusos, em vez de se mudar leis para os evitar, mas agora sabemos que não há fiscalização, logo abusem à vontade dos vossos direitos em todas as leis e não se acanhem.
Agora, vocês que me lêem se calhar pensam, espera lá, o governo não tem acesso aos dados de desenvolvimento das crianças e não podia fazer um estudo a ver se realmente vale a pena amamentar depois dos dois anos? Ou podiam arranjar um investigador que fizesse uma revisão de literatura médica ou um estudo de práticas noutros países e depois, mediante os resultados, propunha uma modificação da lei, se necessária? E até podia fazer um estudo a ver se o ter um horário reduzido de trabalho tem efeitos na carreira das mulheres, na sua satisfação laboral, etc.?
Não, a Ministra "acha" que há abuso, não tem provas de que haja abuso, nem tem uma contagem dos casos de abuso--apenas acha. Ora, eu também acho que pelo seu discurso há provas suficientes que esta senhora não tem capacidade intelectual para ser ministra de coisa alguma. Ela nem do meu cão tomava conta. Por mim, na rua é que estava bem, como as grávidas.
quarta-feira, 6 de agosto de 2025
Quase a encerrar
segunda-feira, 28 de julho de 2025
Ideologias e cidadanias
Se a Eneida era violenta (recordo-me em particular da descrição da morte de Priam), a Ilíada é brutal, verdadeiramente animalesca, em que se aceita com normalidade matar pessoas, violar mulheres, matar crianças, maltratar corpos, etc. Grande parte dos acontecimentos da Ilíada são relatados na Eneida, mas com menos violência gráfica. Os dois relatos referem acontecimentos que ocorreram por volta do séculos XIII a XII A.C.: a Ilíada talvez tenha sido composta por volta de 750 a 700 A.C., ou seja quase meio milénio depois, e a Eneida foi publicada no ano de 19 A.C. Supõe-se que Homero, que compôs a Ilíada, tenha sido uma amalgama de pessoas em vez de apenas um poeta, enquanto que a Eneida foi composta por Virgílio, o poeta romano, que a escreveu para elogiar e talvez criticar ou influenciar o Imperador Augusto.
Sendo a Ilíada supostamente o produto de vários homens, é impressionante a consistência de violência gráfica, mas isso está mais na mimha cabeça do que na cabeça deles, se calhar. Nessa altura, a vida era assim e a Europa era um sítio violento e não é preciso recuar muito para encontrar níveis absurdos de violência durante a nossa vida. Talvez o que distinga um período de paz de um período de guerra seja para além do número de vítimas, o facto de homens em idade activa serem alvo de violência porque as mulheres, as crianças, os idosos, enfim as minorias são sempre alvo de violência, haja paz ou guerra. Mas já Virgílio foi mais contido talvez porque não tivesse experiência de combater numa guerra, ou talvez nestes quase sete séculos entre os dois relatos tivesse havido progresso em termos do que era aceitável, uma mudança de ideologia, portanto.
O facto de tanta da história da humanidade ser dominada por conflitos e guerras devia pôr-nos de pé atrás: não devíamos achar que a paz é o estado natural da nossa existência; pelo contrário, a paz deve ser encarada como um alvo em constante movimento e o ideal é formar cidadãos que tenham apreço e um sentido de responsabilidade pelo esforço necessário para trabalhar para a paz.
Posto isto, quando penso em cidadania, não me vem à cabeça educação sexual, prevenção de doenças sexualmente transmissíveis, gestão de ansiedade, etc., mas faz sentido falar de coisas como o movimento gay e LGBTQ, o feminismo, o racismo, etc. porque são casos concretos em que podemos observar como se molda a sociedade no sentido de haver mais dignidade humana, tanto a nível da participação individual, como da função e funcionamento das instituições. A dignidade da pessoa humana é um valor fundamental na sociedade portuguesa, dado que é a base da República Portuguesa.
Agora, isto não implica que não seja importante discutir temas de cariz sexual nas escolas. Aliás, é um tema extremamente crítico hoje em dia por causa da forma como os jovens têm acesso à informação e também de como são alvo de predadores sexuais ou de como iniciam a sua actividade sexual: pornografia online, apps como o Tinder, redes de tráfico humano, etc. Depois, como a política de saúde pública mundial dos EUA mudou, devemos também preparar-nos para poder haver um aumento das doenças sexualmente transmissíveis a nível mundial e como Portugal está com maior abertura a pessoas internacionais, decerto que há potencial para a situação piorar.
Por isso surpreendem-me duas coisas: uma que o governo, meta estes assuntos na gaveta da ideologia; outra que a oposição insista que a única forma é exigir que estes assuntos sejam inseridos na aula de "cidadania". Países como a Suécia, Países Baixos, Reino Unido, e Canadá oferecem aulas de educação sexual nas escolas, porque é que Portugal não oferece também?
quinta-feira, 24 de julho de 2025
Algum progresso, mas nem por isso resultados
Em Portugal, está tudo porreiro. Dá para agendar online, tirar o passaporte rápido e até renovar pela Internet e receber o documento pelo correio. Para quem está no estrangeiro, é mais complicado porque é preciso ir aos serviços consulares ou a Portugal presencialmente. No meu caso, a página de Internet do serviço consular em Washington, D.C., nem diz o que se pode tratar no consulado, mas dá para contactar o consulado para agendar uma marcação.
Surpreendentemente, no site do serviço consular de Boston está tudo bem esmiuçado (até falam da carta de condução), o que indica que cada serviço consular mete a informação que entende na sua página de Internet, o que me parece má prática. Porque é que o governo português não contrata uns designers digitais em Trás-os-Montes para consolidar a informação de toda a gente? É que decerto que o processo é uniforme para todos, logo faz sentido uniformizar as páginas. E digo em Trás os Montes, mas o Alentejo também serve e assim ajudava a descentralizar os serviços e a contribuir para a economia local de zonas fora de Lisboa.
Também gostaria de sugerir que facilitem o acesso aos serviços consulares no estrangeiro e estejam preparados para situações extremas. Quem está em Portugal está bem por enquanto (desde que o Ventura fique desaventurado), mas quem está no estrangeiro pode estar em risco dada a instabilidade política em tantos sítios. Por exemplo, o Trump quando deporta pessoas nem sequer os envia para o país de origem, logo não se surpreendam se um dia destes houver portugueses a acabar em prisões em El Salvador, Guatemala, Sudão do Sul, etc. e, nessa altura, Portugal tem de decidir rapidamente como agir com essas pessoas, se é que querem agir. Depois há também a situação no Médio Oriente que não se sabe se pode piorar e há bastantes portugueses que trabalham lá.
E já agora importam-se de arranjar esta página no Portal das Comunidades? É que há um link para a página aqui, mas o link devia ir para uma página onde se explica onde obter o passaporte electrónico.
quarta-feira, 23 de julho de 2025
Aceleração
A parte que me parece mais interessante é a da doença de Trump porque é muito raro a Casa Branca ser transparente no que diz respeito a doenças presidenciais, mas talvez a aparente transparência tenha sido uma necessidade depois do fiasco Biden. Também há a questão de o discurso de Trump estar cada vez mais incoerente, por exemplo, não se recorda que Powell foi nomeado por ele mesmo e não por Biden.
O facto de Trump ter adiado as tarifas comprou algum tempo para a economia, mas os dados mais recentes indicam que a actividade ecoómica está a esfriar, apesar do mercado accionista estar em máximos históricos, e a inflação pode ter acelerado. O dólar também enfraqueceu bastante o que retira poder de compra aos americanos. Foi anunciado que os EUA vão começar a pedir $250 de caução para quem precisa de visto para entrar no país, o que irá enfraquecer o turismo e as viagens de negócios ainda mais se for mesmo implementado--este valor acresce ao custo de obtenção de visto.
E ainda não tivemos um furação a atingir o continente americano, mas é uma questão de tempo até ele chegar -- entre Trump e as catástrofes naturais, vivemos com uma faca ao pescoço.
quarta-feira, 16 de julho de 2025
Montanha ou roleta
Há duas semanas estive em Portugal para visitar o meu pai e ir a um casamento; hoje a moça que faz as minhas unhas perguntou-me que tal tinha sido ao atravessar a fronteira para entrar nos EUA. Entrei pelo aeroporto de Houston que não recomendo e foi um erro meu ter marcado a viagem por lá, mas Newark está com capacidade reduzida por causa de ter poucos controladores aéreos. As filas em Houston costumam ser maiores e o pessoal da fronteira não é tão simpático, mas nem me fizeram nenhumas perguntas desta vez, apenas mostraram uma cara de frete. Em Janeiro, quando entrei também por lá ainda Biden presidia, também houve filas enormes e o agente da TSA (Transportation Security Administratio) perguntou-me o que eu tinha comprado: são livros, meu senhor, porque rosas não deixam entrar, devia ter-lhe respondido, mas não é aconselhável usar de sarcasmo na fronteira, então só disse que tinha comprado livros.
Respondi à rapariga que não me tinha acontecido nada, e que não, nem sequer viram o conteúdo do meu telefone, que ela queria saber. Antes da viagem comentei com um colega meu que tinha receio de atravessar a fronteira, e ele disse-me: "não tens nada que recear, pagas impostos." Ah pois pago e não me incomoda pagar porque os impostos são o que se paga por se viver numa sociedade civilizada, como dizia o Oliver Wendell Holmes, Jr., apesar de que chamar às nossas circunstâncias actuais uma sociedade civilizada implica uma enorme ginástica mental.
De vez em quando penso se devia andar com o passaporte dentro do país -- isto recorda-me um episódio que se passou com o meu primo em Lisboa quando ele estava com o meu pai nos longínquos anos 80. Apareceu um polícia e pediu a identificação do meu primo que devia ter menos de 18 anos na altura. Como ele não trazia bilhete de identidade, foi levado para a esquadra e o meu pai teve de ir levar-lhe a identificação. Há uns três anos apanhei uma multa de excesso de velocidade aqui perto de casa--ia a 63 Km/h numa área de velocidade máxima de 48 km/h (sou mesmo perigosa) e aconteceu que, nesse dia tinha deixado a carteira em casa e não levava a carta de condução. Na minha ingenuidade, perguntei ao polícia se podia ir buscar, que morava mesmo perto e ele disse que não havia problema, ele ia ver no computador. Lá viu e lá apenas multou, sem que me levasse para a esquadra ou me penalizasse por não ter a carta de condução comigo. Mas isto era no tempo em que os lacaios do Musk ainda não tinham andado a brincar com as bases de dados.
Os dois temas "fracturantes", como se gosta de dizer em Portugal, da actualidade americana são as inundações do Texas e agora os documentos do caso Epstein. Normalmente, os americanos são extremamente generosos, especialmente na face de tragédias, mas instalou-se um clima de "tiveram a realidade em que votaram" e muita gente recusa-se a contribuir para os peditórios de apoio às vítimas. No caso do Epstein, parece-me que há uma ilusão de que é desta que o movimento MAGA se desentende e quiçá se desintegra, mas acho que não tem qualqer efeito. Uma das minhas melhores amigas votou Trump não porque o quisesse, mas porque não queria Kamala, pois não queria que os transsexuais que estão presos tivessem acesso a cirurgias para mudar de sexo. O marido não quis votar Trump e votou no RFK Jr., apesar de este já ter desistido da corrida. Ela agora diz que Trump é completamente louco. Ah pois, agora não há nada a fazer senão aguentar a montanha russa, ou será roleta russa?
segunda-feira, 16 de junho de 2025
O ChatGPT comenta Gabriel Mithá Ribeiro acerca de Ventura, Freud e Marx
No Observador, Gabriel Mithá Ribeiro argumenta que "André Ventura está a curar uma sociedade mentalmente doente". Aqui vai, na íntegra, o comentário do ChatGPT a esse texto:
Assumirei agora o papel de professor universitário na área da Filosofia Política, com especial atenção à teoria política contemporânea e ao discurso ideológico.
O texto que me propõe comentar está redigido num estilo panfletário, de índole fortemente opinativa e ideologicamente alinhada, com recurso a linguagem emocionalmente carregada e retórica combativa. O seu objetivo é claro: oferecer uma legitimação simbólica, quase messiânica, da figura política de André Ventura, apoiando-se numa interpretação bastante discutível de conceitos psicanalíticos (nomeadamente de Freud) e numa rejeição absoluta da tradição intelectual marxista.
Dividirei a análise em três eixos fundamentais: (1) argumentação e coerência lógica; (2) tratamento das figuras históricas e teóricas; (3) implicações ideológicas e éticas.
1. Argumentação e Coerência Lógica
O texto padece de uma séria falta de rigor argumentativo. Começa por estabelecer um diagnóstico vago e infundado – a "doença mental coletiva da sociedade portuguesa" – sem apresentar qualquer critério empírico ou metodológico para tal afirmação. O uso de categorias clínicas (como "sanidade" ou "doença mental") no discurso político é, no mínimo, perigoso e geralmente considerado abusivo em contextos académicos, dada a sua conotação patologizante do adversário ideológico.
A associação direta entre a psicanálise de Freud e a figura política de André Ventura é forçada e não fundamentada nos textos originais de Freud, que jamais sustentaria um tipo de liderança autoritária como resolução do "caos psíquico" coletivo. Aliás, Freud era profundamente céptico quanto ao apelo às massas e aos instintos de obediência à autoridade carismática – como se pode verificar no seu "Psicologia das Massas e Análise do Eu" (1921).
A estrutura lógica do texto é circular: parte do pressuposto de que André Ventura é o "pai fundador" de uma nova ordem moral e, com base nesse pressuposto, tenta provar que é ele quem salvará a sociedade doente – exatamente porque é o tal "pai fundador". Este tipo de raciocínio é tautológico e não satisfaz critérios elementares de validade lógica.
2. Tratamento das Figuras Históricas e Teóricas
A forma como Freud é tratado revela um conhecimento superficial da sua obra. Freud não é um pensador moralista, muito menos um profeta da "responsabilidade individual" nos termos apresentados. A sua abordagem ao inconsciente, ao desejo e à repressão situa-se num registo clínico e antropológico, não político-normativo. Invocá-lo para defender uma ordem moral conservadora é uma distorção da sua filosofia.
O ataque a Karl Marx como "o maior charlatão intelectual de todos os tempos" carece de qualquer fundamentação académica. Mesmo os críticos mais acérrimos de Marx reconhecem-lhe a profundidade teórica e a influência seminal no pensamento social moderno. Reduzir o seu legado a uma apologia da irresponsabilidade é uma caricatura grosseira.
Também o uso do conceito de “pai fundador” como chave de interpretação da política portuguesa é redutor. Transforma líderes políticos históricos – Cunhal, Soares, Sá Carneiro – em meras figuras simbólicas, ignorando a complexidade dos movimentos sociais e das dinâmicas democráticas que os sustentaram. Além disso, omite deliberadamente o carácter coletivo, plural e constitucional da democracia portuguesa pós-1974.
3. Implicações Ideológicas e Éticas
O texto revela um posicionamento ideológico autoritário, fortemente antiesquerdista, e com tendências nativistas. A ideia de que certos grupos sociais (pobres, negros, imigrantes, colonizados) usam a sua condição como "desculpa" para evitar responsabilidades é uma generalização abusiva e eticamente reprovável. Esta visão alimenta uma lógica de exclusão e de divisão social, incompatível com princípios democráticos de igualdade e solidariedade.
A apologia de Ventura como único redentor possível da sociedade portuguesa revela uma inclinação para o culto da personalidade. Tal abordagem, historicamente, tem sido associada a formas de autoritarismo que põem em causa o pluralismo democrático e o Estado de direito.
Por fim, o uso instrumental da psicanálise e da filosofia para legitimar um projeto político unipessoal compromete a integridade do discurso filosófico. Um discurso político sério deve assentar em argumentos transparentes, verificáveis e abertos à crítica – não em analogias simbólicas forçadas e acusações ideológicas sem sustentação.
Conclusão
O texto é uma peça retórica de propaganda política, com contornos fortemente ideológicos e com claras distorções de referências teóricas (como Freud e Marx). Carece de rigor conceptual, abusa de categorias clínicas e morais para desqualificar o adversário político, e promove uma visão altamente simplificada e personalista da política portuguesa contemporânea. Embora possa ter apelo junto de determinados públicos, não sobrevive a uma análise crítica séria nos termos da ciência política ou da filosofia política académica.
Se desejar, posso aprofundar a análise ponto por ponto, ou fornecer-lhe um contraponto argumentativo com base na teoria democrática contemporânea.
terça-feira, 10 de junho de 2025
Escalação
A última vez que o país esteve assim foi há 60 anos, quando LBJ nationalizou a National Guard do Alabama para proteger os manifestantes pró-direitos civis em Selma, Alabama. Mas a causa actual do Presidente não é virtuosa como a de LBJ. Vivemos um capítulo negro da história dos EUA, mas isso já sabíamos.
sexta-feira, 30 de maio de 2025
Uma clareza ambígua
O texto de Manuel Carvalho no Público que referi no post anterior procurou responder a um texto de João Miguel Tavares sobre o "cordão sanitário" a aplicar ao Chega. Francisco Mendes da Silva, co-signatário do abaixo-assinado "A clareza que defendemos" criticado por João Miguel Tavares, respondeu hoje.
Quando foi publicado, em 2020, o manifesto "A clareza que defendemos" pareceu-me, contrariando o título, muito pouco claro. Mesmo concordando com o princípio (a não "amálgama" entre o centro-direita e o populismo/iliberalismo) e com o que pensei que implicasse ("não é não"), pareceu-me um texto demasiado genérico. Se estava a falar (também) do Chega, por que razão não o explicitava? (Era um manifesto de âmbito mundial?) A que tipo de não "amálgama" se referia? Rejeição de coligações? Rejeição de acordos parlamentares? Rejeição de iniciativas legislativas conjuntas? Outras?
No texto de hoje, Francisco Mendes da Silva escreve: "O abaixo-assinado não defendia qualquer princípio estratégico de relacionamento entre os partidos do centro-direita português e o Chega. Nem sequer falava especificamente de Portugal." Parece-me que estas frases confirmam a minha suspeita: apesar do título, "A clareza que defendemos" era, pelo menos nos seus efeitos práticos, um texto ambíguo.
quinta-feira, 29 de maio de 2025
A propósito do Chega e da superioridade moral
Comentário do ChatGPT (na pele de professor de ciência política, o que talvez influencie o resultado) ao texto de Manuel Carvalho no Público de hoje:
A posição do autor insere-se numa linha clássica da teoria democrática que considera que há limites inegociáveis na convivência política: os partidos que colocam em causa os próprios fundamentos do regime democrático liberal não devem beneficiar da mesma legitimidade substancial que os demais. Esta é uma tese com eco em autores como Giovanni Sartori, que distinguiu entre “partidos do sistema” e “partidos contra o sistema”.
A crítica à proposta de normalização do Chega — implícita ou explícita — é apresentada com coerência. O autor parte do princípio de que a democracia liberal não é neutra em relação aos valores: tem compromissos normativos claros, nomeadamente com a dignidade humana, o pluralismo e o respeito pelas minorias. Assim, recusar a paridade moral com partidos que promovem discursos xenófobos, racistas ou autoritários não é um gesto de sectarismo, mas sim um ato de defesa da própria democracia.
É particularmente relevante a distinção entre o respeito institucional devido aos mandatos democraticamente obtidos (isto é, o reconhecimento formal do direito de representação parlamentar) e a recusa de legitimação política mais ampla, por exemplo através de alianças ou negociações estruturantes. Esta distinção ajuda a evitar tanto o perigo da exclusão antidemocrática quanto o da normalização acrítica.
No entanto, pode apontar-se uma fragilidade na forma como o autor lida com o eleitorado do Chega. Ainda que admita que nem todos os votantes aderem convictamente ao programa do partido, a proposta de aplicar-lhes igualmente a “receita da superioridade moral” pode ser interpretada como moralismo desmobilizador. A ciência política ensina-nos que os comportamentos eleitorais são multifatoriais, e muitos eleitores recorrem a votos de protesto por frustração com o sistema, sem adesão ideológica profunda. Uma resposta democrática eficaz requer não apenas confronto argumentativo, mas também escuta ativa e políticas que respondam aos problemas reais que geram descontentamento.
Em suma, o texto apresenta uma defesa articulada e rigorosa da exclusão moral do Chega da esfera da normalidade política, ancorada numa conceção normativa da democracia. Contudo, para além da rejeição moral, o desafio democrático passa também por oferecer alternativas políticas credíveis e eficazes que evitem o crescimento do voto protesto e da apatia cívica.
Na mesma sequência, pedi um comentário ao facto de o líder do PS defender a não viabilização do governo da AD. Aqui está a parte final:
A legitimidade da posição do PS depende, em última instância, da coerência do seu discurso: se defende que o Chega representa um risco para a democracia, então tem de assumir as consequências dessa avaliação — o que inclui o dever de impedir o seu acesso ao poder, mesmo à custa de viabilizar um governo de centro-direita que considere imperfeito.
Recusar ambas as soluções — nem Chega, nem PSD — pode ser lido como uma postura de purismo político que ignora a lógica de compromisso característica das democracias parlamentares. Como argumentou Norberto Bobbio, a democracia não é o reino da pureza moral, mas do equilíbrio entre legitimidade, legalidade e compromisso.
A defesa da não negociação com o Chega mantém-se legítima enquanto defesa dos princípios democráticos. No entanto, para ser politicamente consequente, implica um certo grau de compromisso entre os partidos que partilham esses mesmos princípios. A recusa simultânea de negociar com o Chega e de viabilizar um governo do PSD sem Chega pode enfraquecer essa defesa, abrindo espaço precisamente ao que se pretende evitar: a entrada do Chega em zonas de influência e poder institucional.
Em última análise, a responsabilidade democrática não é apenas denunciar os perigos, mas agir para os impedir — mesmo que isso implique compromissos difíceis.
quarta-feira, 28 de maio de 2025
PEEC
O processo entrópico em curso (PEEC) continua e recomenda-se e até tem alguns episódio cómicos. Há semanas, o Walmart informou Trump que não podia adiar aumentar os preços para sempre por causa da guerra das tarifas e Trump "aconselhou-os" a engolir o aumento de custos. A luta contra Harvard também continua, com a suspensão, na semana passada, de admissão de alunos internacionais. Em poucas horas, apareceram várias notícias a especular que talvez o filho de Trump se tenha candidatado a Harvard e tenha sido desconsiderado e o presidente se estivesse a vingar. Hoje, a administração Trump cancelou o agendamento de entrevistas para vistos escolásticos, o que afecta todas as universidades que tenham alunos ou docentes internacionais a quem precisem de dar visto.
domingo, 25 de maio de 2025
Dois artigos do Público sobre o voto no Chega resumidos pelo ChatGPT
Com base nos artigos "Zanga, racismo ou medo fazem o Chega crescer em Sintra" e "Voto no Chega foi expressão de 'decepção total'", publicados no jornal Público hoje e no passado dia 20, respectivamente, pedi ao ChatGPT que resumisse as razões apresentadas por eleitores do Chega para votarem neste partido. O resultado, ordenado da razão mais importante para a menos importante, foi o seguinte:
1. Concordância com propostas (ou perceções) políticas concretas (com destaque para a imigração)
2. Desilusão com os partidos tradicionais (PS e PSD)
3. Apreço por André Ventura (comunicacional e pessoal)
4. Desejo de mudança radical e “abalo ao sistema”
Segundo o resumo do ChatGPT, as pessoas que não votaram no Chega apontaram as seguintes razões para o apoio dos eleitores a esse partido:
1. Desinformação e influência mediática
2. Voto de protesto, ressentimento e abandono
3. Racismo e preconceito
4. Ausência dos partidos no terreno
5. Reconfiguração socioeconómica e exclusão
quinta-feira, 15 de maio de 2025
O futuro (ou já o presente) da academia, powered by ChatGPT
recebi hoje este email:
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quarta-feira, 23 de abril de 2025
Quase carapaus
Na sexta-feira passada, a Administração Trump decidiu lançar o isco de como correriam as coisa se Trump despedisse Jerome Powell. Perante a possibilidade, os mercados reagiram negativamente e o dólar continuou a cair. É cada vez mais consensual que o estatuto dos EUA e do dólar como refúgio dos investidores está muito abalado e talvez destruído por uns bons anos, se é que alguma vez o volte a recuperar. Na terça-feira, a Casa Branca veio meter água na fervura indicando que os EUA já têm alguns acordos comerciais quase firmados com o Japão, e a Índia, mas sem grandes detalhes--ou seja, uns acordos algo por alto. Scott Bessent também ajudou a acalmar os mercados dizendo que era óbvio que os EUA e a China se acabariam por entender porque eram as maiores economias do mundo, etc. E finalmente, de tarde, lá veio o anúncio de que Jerome Powell não ia ser despedido, o que apaziguou ainda mais os deuses do mercado.
Na economia real, os portos de Los Angeles e Long Beach, na Califórnia, estão a perder bastante volume vindo da China em reacção ao anúncio da guerra das tarifas. As pequenas empresas estão completamente em pânico porque dependem da manufactura chinesa para as suas vendas. Trump cancelou a isenção de taxas alfandegárias dee pacotes que entram nos EUA com valor inferior a $800 (isenção de minimis) e a DHL deixou de aceitar pacotes de valor superior a $800 destinados aos americanos porque agora estão sujeitos a uma maior burocracia. (Isto não vos lembra a saga de enviar pacotes do estrangeiro para Portugal?)
A cereja no topo do bolo são as últimas estimativas de crescimento do PIB para a economia americana e mundial: a americana é esperada crescer 1.8%, em vez dos 2.7% estimados em Janeiro. Imaginem a matemática disto! O primeiro trimestre, que teve um Janeiro bastante optimista, é esperado ter um crescimento do PIB negativo, o segundo trimestre parece que também vai ser negativo por causa da guerra comercial, dificuldades na fronteira que mandam os turistas para trás, medo de voar dentro dos EUA, despedimentos na função pública, e agora também no sector privado, etc. As únicas notícias positivas são aumento de vendas de carros e outros itens para evitar as tarifas., que tem um efeito bastante temporário. Resumindo, para a estimativa se concretizar, o segundo semestre tem de bombar para colmatar o crescimento perdido e ainda adicionar o que falta, o que é bastante improvável.
A única coisa que faz parar esta administração são as más notícias da economia, do dólar, e da bolsa e, por sorte, houve a falta de visão de começar pela parte mais destrutiva e depressiva, em vez de alimentar a bolha da bolsa com cortes de impostos e aumento da dívida. Quanto às questões sociais, o que Trump faz apenas serve para alimentar a base e não dá para fazer oposição porque são questões que fragmentam a opinião pública. O Clinton tinha razão: a única forma de ganhar apoio é pela economia.
Há no entanto alguma luz ao fim do túnel: os tribunais e o SCOTUS não parece que estão dispostos a dar uma carta branca permanente à Administração. E a sociedade civil também não: Trump tentou tirar financiamento a Harvard, se a universidade não largasse certas práticas consideradas "woke" ou anti-semíticas. Harvard recusou, Trump cancelou o financiamento de 2.3 mil milhões de dólares e ameaçou retirar o estatuto de entidade com fins não-lucrativos. Harvard acabou por processar a Administração Trump, mesmo depois de esta ter dito que a carta que tinha sido enviada a Harvard não era final e tinha sido enviada em erro.
É um pouco misteriosa a razão pela qual a Administração decidiu recuar nas exigências a Harvard, mas a universidade tem um "endownment" de 53.2 mil milhões de dólares, e decerto que parte deve estar investida em dívida pública americana. Na semana passada, os jornalistas começaram a especular estratégias de como a universidade poderia resistir a Trump. No final, a estratégia adoptada foi a tradicional: os tribunais. Tem algum risco, mas se funcionar também cria precedente que pode ajudar outras instituições.
Imaginem se nos EUA tudo dependesse de financiamento público, mas não houvesse independência das instituições como acontece em muitos países. Estaríamos mais fritos que carapaus.
segunda-feira, 7 de abril de 2025
Ainda a Segurança Social Americana
Jacarandágate
Andava eu pelo Instagram a tentar relaxar antes de ir para a cama quando aparece o Carlos Moedas a tentar explicar o Jacarandágate. Dizia ele que as árvores em questão estavam demasiado danificadas para serem transplantadas. Ora antes do parque de estacionamento abortar, a justificação para o projecto era que as árvores não estavam em risco porque iam ser transplantadas -- em Março e Abril.
- Ninguém transplanta árvores caducifólias em Março e Abril. Se é para haver transplante, este teria de ser feito no outono ou inverno, quando as árvores estão em dormência. Quero ver estas árvores que transplantaram agora a sobreviver o calor sufocante de verão, quando não tiveram tempo nenhum para desenvolver raízes no novo local de plantio. Espero bem que haja um plano de irrigação para as coitadas. Ou seja, este projecto não envolveu ninguém com competências técnicas em agronomia ou paisagismo.
- Os jacarandás são uma das imagens mais populares de Lisboa e é comum encontrarem-se fotos nas redes sociais. Eu não me admiraria que um dia Lisboa desenvolvesse um turismo sazonal de reconhecimento mundial só para visitar a cidade quando as árvores estão em flor. Turismo desse tipo é comum noutros países: as tulipas na Holanda, as cerejeiras em flor no Japão e em Washington D.C., a folhagem de outono na Nova Inglaterra, etc. Ou seja, quem é a alma que achou que isto ia ser uma boa ideia?
- O país vai a eleições em breve. Quem é que decide ir para a frente com um projecto que é óbvio que não vai ser popular meses antes de eleições? Ainda por cima cortar árvores vistosas para enfiar mais outro parque de estacionamento, como se esse parque fosse fazer uma enorme diferença.
sábado, 5 de abril de 2025
A vermos grego
Agora entrámos mesmo na dinâmica de uma Administração Trump, com ele a todo o gás em direção ao abismo ao mesmo tempo que metade do país lida com a situação através de comédia ou da ridicularização dos acontecimentos.
No caso das tarifas a comédia tem sido fenomenal, não só porque Trump impôs tarifas a ilhas sem habitantes humanos, mas também atingiu uma ilha com apenas uma base militar com pessoal americano e britânico. O James Surowiecki, que eu acho um dos melhores escritores de peças de opinião sobre a economia, descortinou a metodologia de Trump que, aparentemente, é algo que é sugerido pelos algoritmos de inteligência artificial (isto da inteligência artificial merecia um post, mas tenho andado preguiçosa).
Em resposta ao Gotcha, a administração divulgou uma fórmula matemática manhosa cheia de letras gregas, em que dois dos parâmetros se cancelam e no fim ficamos apenas com o rácio do défice comercial dos EUA com um país dividido pelo volume de exportações de bens desse país para os EUA--esse rácio é o que Trump denota de tarifas e outras barreiras comerciais actuais cobradas aos EUA, mas obviamente que não é tarifa nenhuma.
Quanto ao valor lúdico do caos actual, acho que estamos conversados. Resta apenas dar uns passos atrás e ver o contexto mundial de forma objectiva. Em 2024, a economia americana representava 26% do PIB mundial--é enorme, apesar de a proporção já ter sido mais alta. Ao contrário do que os europeus pensam, o nível de vida americano é bastante alto e consome muitos recursos.
Por exemplo, no outro dia, tive um jantar da minha vizinhança e uma das organizadoras dizia que, para facilitar a vida à senhora onde o jantar se iria realizar, ela ia comprar pratos, copos, e talheres de plástico, daqueles a imitar vidro e cerâmica que depois se deitam fora, para assim não se ter de lavar loiça. Super-comum nos EUA. Há famílias que só comem de pratos descartáveis, apesar de toda a gente ter máquina de lavar louça. E isto é apenas um exemplo de muitos. Para além de ser péssimo para o ambiente é mau para a alocação mundial de recursos--grande parte da economia mundial serve as preferências americanas, mas as políticas de Trump irão ajudar a modificar algum deste comportamento.
Estas políticas apesar de péssimas para os americanos não têm necessariamente de ser más para o resto do mundo porque os americanos ao perderem poder de compra irão colocar menos pressão nos recursos mundiais, o que deflaciona os preços para o resto do mundo, dado que a economia americana era tão grande e irá encolher imenso. Se Trump avançar com tudo o que ele já começou, não me admiraria se encolhesse mais de 10% e, se calhar, 20% é ser conservador.
O capital já está a fugir para a Europa depois de anos em que saía da Europa para alimentar a bolsa americana. Desde que a Europa aja de forma fria e contida, irá atrair capital, investimento e turismo. E com as modificações da política de imigração americana, a Europa também tem a oportunidade de atrair cérebros e mão-de-obra (bem sei, os portugueses têm horror a imigrantes porque são xenófobos: a população portuguesa mal tem aumentado, ou seja, os que entram compensam os que saem; o que há é mais pessoas em algumas cidades porque a infraestrutura é má em sítios mais pequenos, mas é natural que tal seja temporário). Não nos podemos esquecer que os americanos beneficiaram imenso, no século passado, da fuga de cientistas e outros quadros superiores da Europa para os EUA. Agora o oposto pode acontecer. Há bastante potencial para a Europa crescer mais depressa e o euro ficar mais forte como moeda de reserva.
Há uma enorme nuvem na economia mundial que é a questão das criptomoedas. Acho provável que à medida de as pessoas entram em pânico, haverá mais fuga de capitais desses "activos" que apenas têm valor especulativo, o que pode causar uma séria crise financeira mundial para além dos problemas que o Trump já está a criar.
Como se dizia durante a crise subprime: as crises são oportunidades. Pena que Portugal nem governo tenha. Se continuar assim, fica ainda mais atrasado.
domingo, 30 de março de 2025
Suspense
domingo, 9 de março de 2025
Fase do bisturi
Passámos da fase do serrote à fase do bisturi porque o pessoal não "gostou" do que ele estava a fazer porque acharam o exercício demasiado aleatório. Claro que se ele não tivesse feito nada, estas pessoas diriam que o governo federal não criava valor nenhum e tudo o que fazia era desperdício, logo corte-se à vontade, que foi a campanha de Trump.
A fase do bisturi é mais perigosa do que a do serrote porque não é tão visível. É como aquelas pessoas que um dia acordam e notam que têm uma dorzita e, vão a ver, e roubaram-lhes vários orgãos ou enfiaram-lhes um quilo de drogas no abdómen com ajuda de um bisturi. Se lhes tivessem serrado um braço com um serrote era mais visível e ainda dava para ir ao hospital tentar salvar a coisa. Mas a ignorância dá conforto a muita gente, por isso é assim que vamos para a frente, às cegas.
A última estimativa do PIB do primeiro trimestre, datada de 6 de Março, continua negativa, mas em vez de se estimar diminuir 2.8% versus 2024T4, melhorou para -2.4%, que é o que eu chamaria de "dead cat bounce". No dia 17 actualiza outra vez e já começam a aparecer dados de Fevereiro, pois sai o Advance Retail Sales (vendas a retalho preliminares) de Fevereiro; sai também a actualização das vendas e os níveis de inventário de Janeiro. E depois actualiza outra vez no dia 18.
terça-feira, 4 de março de 2025
Nem o zero nos salva!
Saiu mais uma actualização da estimativa do PIB americano na Segunda-feira e a taxa de crescimento baixou de -1,5% to -2,8%. Parte do efeito tem a ver com muitas empresas estarem na expectativa de nova guerra comercial e começaram logo a preparar-se para essa eventualidade, mas também é verdade que Trump e Musk não perderam muito tempo para iniciar hostilidades para com a economia americana.
"The GDPNow model estimate for real GDP growth (seasonally adjusted annual rate) in the first quarter of 2025 is -2.8 percent on March 3, down from -1.5 percent on February 28. After this morning’s releases from the US Census Bureau and the Institute for Supply Management, the nowcast of first-quarter real personal consumption expenditures growth and real private fixed investment growth fell from 1.3 percent and 3.5 percent, respectively, to 0.0 percent and 0.1 percent."
Fonte: Atlanta Fed
Tenho de confessar outra vez a enorme admiração que tenho pela forma como os EUA estão organizados: é mesmo "a government of the people for the people." Em poucos dias é informação pública os resultados do que eles estão a fazer, os media estão a funcionar, os dados estão a sair, e os mercados estão a começar a reagir, apesar do enorme ataque que está a ser feito ao governo federal. E daqui a uns dias, quando as pessoas começarem a ver as contas de investimento e poupança-reforma a diminuir, os telefones em Washington não vão parar. Duvido que os membros do Congresso consigam regressar aos seus estados sem serem assaltados por um milhão de perguntas, isto se não forem corridos a tiro. Afinal, as armas servem para alguma coisa. Eu sou contra o uso de armas, mas quem com o ferro fere com o ferro será ferido. É como o Einstein dizia: "God does not play dice with the universe" e nós também somos parte do universo.
E por falar em jogos, o Gary Kasparov publicou uma peça de opinião super-interessante na revista The Atlantic, na qual diz que a pressa de Musk e Trump revela um calculismo perigoso. Eu acho que a preferência pela rapidez é mais circunstancial do que calculada e é inata a estes dois personagens: o Trump porque está interessado em criar atenção 24/7, pois era isso que lhe dava dinheiro nos reality shows; o Musk também já agia assim de antemão como ficou bem ilustrado pelo seu desempenho no Twitter. Se eles tivessem agido de forma mais lenta e calculada, os efeitos do que estavam a fazer seriam menos claros e penso que seria bem mais perigoso.
O NYT publicou um artigo acerca de como surgiu o DOGE que também recomendo e onde sugere que Musk quer substituir o governo por Inteligência Artificial. Só que ele está a despedir e a eliminar muitas funções que recolhem dados que depois se tornam públicos. O governo americano presta ajuda a cidadãos e empresas, mas em troca exige que estes lhe forneçam dados--muitas pessoas desconhecem este pequeno, mas bastante importante detalhe. Sem dados públicos não há IA e é por isso que é mais fácil para a IA ser treinada em letras do que em economia. Os livros estão muito melhor organizados e disponíveis do que os dados de economia.
Mas Musk já cometeu este erro antes: Musk tinha acesso a bastante informação que era publicada no Twitter e que podia ser minada, mas como alienou os utilizadores, estes sairam ou deixaram de publicar, logo o valor do Twitter como prestador de informação diminuiu. Agora está prestes a fazer uma coisa semelhante com os dados do governo federal.
É bom que eles partam tudo. Por um lado, porque assim é mais provável que não aguentem o barco durante quatro anos a fazer coisas destas, logo livramo-nos de boa. Depois, o mundo está mais bem preparado para uma crise, pois durante a crise sub-prime muitos bancos centrais em todo o mundo contrataram pessoas com enfoque em macroeconomia e modelos que simulam a economia, logo ao menos a nível da política monetária há talento com década e meia de experiência que nos pode guiar nestes tempos tão incertos. Depois, isto vai doer tanto que é natural que os Democratas sejam eleitos durante 8 anos e construam um sistema novo, como aconteceu quando Hoover perdeu a reeleições e Roosevelt foi eleito por dois termos consecutivos. Vale a pena ler sobre a governação de Hoover. E sim, estou a contar com este episódio levar a uma depressão da economia.
segunda-feira, 3 de março de 2025
Gente fina, finalmente!
No Sábado, fui fazer mais 3,5 horas de voluntariado no Victory Garden de Collierville; no total éramos 22 voluntários. (Preciso de completar 40 horas antes de Agosto para ter a certificação de Master Gardener.) Plantámos cebolas, alface, couve, nabos, rabanetes, e acelga suíça. Enquanto trabalhávamos, estávamos em amena cavaqueira: era o tempo que anda estranho com tempestades frígidas anuais que destroem árvores, arbustos, e outras plantas perenes; o sítio em que tínhamos nascido; os estados em que já tínhamos vivido, há quanto tempo estávamos em Memphis; se era melhor água da chuva armazenada ou fresca para regar (não chegámos a acordo), etc.
Uma das voluntárias teve um neto recentemente: um bebé que nasceu quatro semanas prematuro e que passou cinco dias em cuidados intensivos, mas já está em casa. A avó mencionou várias vezes (eu ouvi-a pelo menos duas) que estava com receio de apanhar sarampo e transmitir ao neto, pois estava prestes a apanhar o avião para o ir visitar em Boston. Para quem não sabe, os EUA estão com um surto de sarampo que começou em Lubbock, West Texas, numa comunidade menonita que não vacina as crianças. Entretanto, mais pessoas apanharam um pouco por todo o país, e uma das crianças até já morreu, mas é difícil saber a verdadeira dimensão do problema por causa de Trump et al.
Acho extremamente provável que se desencadeie um número bastante maior de casos, o que seria bastante sério para os americanos porque há muitas pessoas que nunca tiveram ou não estão vacinadas. É o preço de se ser mais desenvolvido do que Portugal: eu fui vacinada e, mesmo assim, tive porque quase todos os miúdos tinham naquela altura e as mães até queriam que tivessem. A minha mãe não fez esforço nenhum para eu ter e a minha avó, que cuidava de mim, nem gostava que eu brincasse com outras crianças, logo é um bocado misterioso como apanhei. O certo é que o médico disse que ainda bem que eu estava vacinada porque foi bastante forte. A boa notícia é que agora estou imune.
Com o pessoal ainda saturado da pandemia COVID, poucas pessoas andam a ligar aos casos de sarampo. A notícia actual de maior importância é o falhanço de um acordo entre os EUA e a Ucrânia. Apesar de eu ser americana, não apoio a posição dos EUA e fiquei feliz que a Europa tivesse finalmente mostrado alguma capacidade de liderança. Num ápice, os europeus reuniram-se, comprometeram-se a gastar mais dinheiro para ajudar a Ucrânia, e até disseram que o objectivo era terminar com a guerra para poderem entrar em acordo com os EUA. Faz lembrar aquela definição de diplomacia: 'Diplomacy is the art of telling people to fuck off in such a way they look forward to the journey.' Gente fina é outra coisa!
sábado, 1 de março de 2025
GDPNow
Os dados dos relatórios que estão a sair correspondem à actividade de Janeiro e só saltou a tampa ao Trump a 31 de Janeiro, ou seja, Fevereiro tem dados bem piores, mas só saberemos a partir do final de Março e, nessa altura, o PIB do primeiro trimestre já estará feito.
“We think the bull market is intact. But we have also cautioned that volatility would likely be higher this year,” said David Lefkowitz at UBS Global Wealth Management. “Therefore, we have been highlighting that short-term hedges may be worth considering.”Fonte: Bloomberg
segunda-feira, 24 de fevereiro de 2025
A desordem
Toda essa infraestrutura de suporte da economia está a ser desmantelada pela administração Trump e, para além disso, todo o aparatus federal que facilita negócios, como as garantias do governo federal para obtenção de seguros em zonas de risco de catátrofe, ou até de financiamento na obtenção de casa está sob ameaça. Até o pessoal dos parques naturais responsável por encontrar pessoas perdidas ou que tenham sofrido acidentes, está a ser despedido, porque não é considerado essencial.
O pessoal do Internal Revenue Service vai ser reduzido durante a época alta de processamento de impostos de rendimento. A FEMA (Federal Emergency Management Agency), que foi o calcanhar de Aquiles de George W. Bush por causa das falhas de resopsta ao furacão Katrina, também vai sofrer cortes com a época de tornados praticamente aí, e a 1 de Junho a começar a época de furacões. Na agricultura, a USAID não vai comprar as commodities americanas que servem para apoiar os países mais pobres, mas mais cortes são previstos. Depois há também o detalhe de o governo federal americano recolher e produzir dados e relatórios que medem a actividade económica e as condições reais não só nos EUA, como em outros países, sendo provável que muitos desses relatórios e dados tenham os dias contados devido aos cortes no pessoal de tantas agências.
Os meus contactos em universidades americanas, indicaram-me que as universidades e pequenas empresas ligadas a pessoal das universidades que dependem de financiamento para investigação e disseminação de informação científica já começaram a cortar pessoal e em gastos de viagens e contratação de pessoal. Na semana passada, foi anunciado que Trump vai despedir os directores do serviço postal nacional (USPS) e vai colocar o serviço sob o Departament of Commerce.
Os americanos não conseguem funcionar assim, pois é um povo que gasta imenso dinheiro em recolha e analise de dados e gestão de risco. Quando estas medidas de Trump e Musk começarem a ser sentidas em termos de incerteza, a actividade econonómica irá desacelerar e talvez até parar. Na Sexta-feira, o processo pode já ter começado: os primeiros relatórios de entidades privadas que tentam antecipar os relatórios oficiais do governo americano já indicam que a actividade econonómica está a desacelerar.
O último inquérito de actividade da S&P indica que a actividade económica expandiu mais lentamente, a um nível equiparável ao de Setembro de 2023. O inquérito das expectativas de inflação dos consumidores aceleraram para 3.5%, o nível mais alto dos últimos 30 anos. O mercado accionista fechou em queda e os bonds, que oferecem mais estabilidade, em alta (yields das treasuries baixaram, logo o seu preço aumentou). Esta semana é provável que a correcção continue, dado que Musk irá continuar a despedir funcionários públicos federais (na Sexta-feira enviou outro email a pedir que os empregados indiquem o que fazem para que seja avaliado se devem ficar no emprego), para além da retórica de entrave ao comércio internacional de Trump.
A administração também está a tentar fazer mudanças em entidades que são consideradas independentes do poder executivo, o que levanta a possibilidade de haver mudanças a nível da Reserva Federal e afectando a política monetária americana. Com os despedimentos da função pública, qualquer implementação da política fiscal está comprometida. Mesmo que daqui a semanas ou meses haja vontade de passar políticas fiscais de apoio à economia, não há como as concretizar. Aguarda-nos caos e desordem, mas pode ser que algumas pessoas consigam *finalmente* entender o papel do governo federal na economia americana.
quarta-feira, 19 de fevereiro de 2025
Um oitavo de polegada
É verdade que há desperdício, mas o governo federal também gasta imenso dinheiro em controle de desperdício; aliás o custo de encontrar e controlar desperdício no governo federal é mais alto do que o desperdício que ocorre e que se evita. Nesta administração, acha-se que o remédio para se eliminar desperdício é parar tudo: já se começou a despedir a função pública e a suspender gastos em investigação, daqui a umas semanas é quase certo que nem toda a gente irá receber pensões, nem apoio financeiro para gastos médicos ou educação ou apoio a aquisição de casa, nem que se possa contar com o governo para assistência em caso de catástrofes naturais, etc. Ou seja, está a demantelar-se todo o sistema de controle de risco e de estabilização da economia americana que foi criado no último século.
Soltei os cães na minha amiga. Como é possível ainda no outro dia ela me ter perguntado porque é que não há investigação médica para certas doenças de mulheres e ela votar num traste como o Trump, é a terceira vez que vota nele, não me pode dizer que não gosta do homem. Só que não gostava do Biden e será que eu achava melhor que ela não votasse. O Biden não era o candidato, respondi-lhe, eu também não gosto dele e não votei nele nas primárias. Mas ela também não gostava da Kamala e não gosta do Trump, mas o Trump era um oitavo de polegada (3,18 mm) melhor do que os outros e vai tudo correr bem.
terça-feira, 4 de fevereiro de 2025
O elefante e a porcelana
Não se pode dizer que o governo deferal seja um governo perfeito, mas não é a incompetência que dizem que é e nem sequer serve apenas os americanos. Os funcionários públicos dos EUA, no geral, são das pessoas mais prestáveis e com sentido de missão. Muito deles foram voluntários em programas como o Peace Corps, em que foram para outros países para trabalhar com pessoas desfavorecidas, aprenderam outras línguas, fizeram amigos de outras culturas, etc. Nos EUA, quase ninguém sai da escola e consegue um bom emprego se não demonstrar ter uma consciência social. Isto apesar de o resto do mundo ver os americanos como uns capitalistas selvagens, sem ponta de dever cívico.
Talvez a melhor forma de ver como o resto do mundo beneficia do que os EUA fazem e estão a deixar de fazer seja mesmo suspender tudo e atirar o país e o resto do mundo para o caos. Na primeira vez que Trump governou, houve oposição que apenas impediu que as pessoas vissem as verdadeiras consequências do que Trump propunha e niguém aprendeu a lição, logo talvez assim consigamos sair deste tipo de "groundhog day". Não vai ser um processo agradável, mas dá para ver que há pessoas que vão acabar bastante mal e não acho que sejam os coitados do costume.
E quem vai salvar o país? Obviamente que vai ser o sistem financeiro, tal como aconteceu quando a Administração Bush passou anos a abusar do poder. Talvez as pessoas já se tenham esquecido do caso de Valerie Plame, por exemplo, uma agente secreta da CIA cuja identidade foi revelada por motivos políticos pelo gabinete do VP Dick Cheney. E claro, a invasão do Iraque, e outros episódios mais. Na altura, o mundo ergueu-se contra os EUA, mas se não tivesse havido o crash de 2008, duvido que o mundo tivesse ficado melhor. Aguardemos o crash.