sexta-feira, 10 de julho de 2015

Hypocrisy defined...

Back in 2012:
A few months before submarines became the talk of Athens, Yiannis Panagopoulos, who heads the Greek trade union confederation (GSEE), found himself sitting opposite Angela Merkel at a private meeting the German chancellor had called of European trade unionists in Berlin.

When it came to his turn to address the leader, he instinctively popped the question that many in Greece have wanted to ask. "After running through all the reasons why austerity wasn't working in my country I brought up the issue of defence expenditure. Was it right, I asked, that our government makes so many weapons purchases from Germany when it obviously couldn't afford such deals and was slashing wages and pensions?"

Athens has submitted a package of tough austerity measures in an attempt to reach a deal this weekend and avoid Grexit.

Merkel's reaction was instant. "She immediately said: 'But we never asked you to spend so much of your GDP on defence,'" Panagopoulos recalled. "And then she mentioned the issue of outstanding payments on submarines she said Germany had been owed for over a decade."

Greek profligacy may be blamed for triggering the debt crisis that now threatens to tear the eurozone apart, but if there is one area where Berlin is less excoriating of state largesse it is in Athens's extravagant taste for arms.

"Behind the frequent exhortations that Greece rein in spending after living "beyond its means" – admonishments made most loudly by Merkel and her finance minister Wolfgang Schäuble – there is another reality that paints Germany in a less than flattering light, according to MPs, military experts, economists and scholars.

"If there is one country that has benefited from the huge amounts Greece spends on defence it is Germany," said Dimitris Papadimoulis, an MP with the Coalition of the Radical Left party."

"Just under 15% of Germany's total arms exports are made to Greece, its biggest market in Europe," Papadimoulis said, reeling off figures from a scruffy armchair in his party's parliamentary office. "Greece has paid over €2bn (£1.6bn) for submarines that proved to be faulty and which it doesn't even need.

"It owes another €1bn as part of the deal. That's three times the amount Athens was asked to make in additional pension cuts to secure its latest EU aid package."

According to the Stockholm International Peace Research Institute (Sipri), France is not far behind. Some 10% of its total arms sales go to Greece, which is a member of Nato. From 2002 to 2006, Greece was the world's fourth biggest importer of conventional weapons. It is now the 10th.

"As a proportion of GDP, Greece spends twice as much as any other EU member on defence," said Papadimoulis, who is also a former MEP.

Source: The Guardian, 4/19/2012

Um excelente acordo

Vejo no Facebook que os apoiantes do Syriza estão muito contentes com as cedências que, pelos vistos, a Tróica vai fazer ao governo grego.

Já os contestatários do Syriza parecem muito felizes porque o governo grego cedeu em toda a linha, aplicando ainda mais austeridade do que aquela que recusaram em referendo.

Bem, se todas as partes estão satisfeitas com o acordo que fizeram, então é porque é um excelente acordo: o Euro está salvo e a Grécia vai começar a crescer como o caraças

From Angela to Alexis, with love...

Caro Tsipras, a sério, pá?

Ao fim de cinco meses a espernear, tu comprometes-te com a austeridade? Afinal diziam-me que eras irresponsável e suicida, que eras o problema da UE, e vergas-te assim tão facilmente?

Ah, e para quando poderemos contar com uma campanha da Angela Merkel a comer iogurte grego com uns bigodes brancos? O quê? Não incluíste isso na proposta de submissão à Alemanha, perdão, pedido de acordo? Ó pá, estou desiludida contigo...

Tudo o que é sólido dissolve-se no ar

Num post recente, referi-me ao Império Austro-Húngaro, que apresenta algumas semelhanças inquietantes com a União Europeia: múltiplas nacionalidades e línguas, livre circulação de bens e capitais, uma moeda única, um banco central.
Na sequência, lembrei-me de repescar um texto que publiquei há uns anos aqui na destreza sobre “O mundo de ontem”, a autobiografia de Stefan Zweig. Austríaco, judeu, humanista e pacifista, Zweig foi um dos escritores mais populares da Europa nas primeiras décadas do século passado. Hoje, está quase caído no esquecimento. Nasceu em 1881, no grande e poderoso império Austro-húngaro, na monarquia dos Habsburgos. Cresceu em Viena, na altura uma das maiores capitais culturais do mundo e que viria, anos mais tarde, a transformar-se numa cidade de província sob o jugo dos nazis. Bem, aqui vai então o tal texto:
“Viena, cidade milenar, fundada pelos romanos, aqui brilhou sobre o mundo a plêiade eterna da música: Gluck, Haydn, Mozart, Beethoven, Schubert, Brahms, Mahler. Em quase nenhuma outra cidade da Europa era tão ardente a paixão pela cultura, recorda-nos um Zweig traumatizado – traumas de que nunca se libertaria, suicidando-se no Brasil em 1942. E, no entanto, a época que antecedeu a Primeira Guerra Mundial foi o período áureo da segurança. Tudo na democracia austríaca parecia construído para durar sempre, sendo o Estado o garante dessa estabilidade. Na altura, ninguém acreditava em guerras, em revoluções e subversões. Todo o radicalismo, toda a violência pareciam não ser já possíveis numa época de razão.
No seu idealismo liberal, o século XIX estava sinceramente convencido de se encontrar no caminho certo e infalível que levava ao melhor dos mundos. Era com desdém que se olhava para as épocas passadas, com as suas guerras e fomes, como para um tempo em que a humanidade ainda era menor e insuficientemente esclarecida. A crença inabalável no progresso tinha para essa época a força de uma verdadeira religião – e houve de facto, nesta altura, progressos notáveis a todos os níveis.
A história é conhecida. O poderoso e, aparentemente, sólido império Austro-Húngaro desfez-se após a Primeira Grande Guerra. A seguir, veio a Segunda Grande Guerra, e um sem número de bestialidades e perversidades nunca imaginadas nem nas noites mais negras pelos liberalismos e optimismos reinantes da época.
Ninguém previu a catástrofe que se avizinhava. Ninguém viu os sinais, que Zweig, retrospectivamente, reconhece estarem visíveis para alguém mais lúcido e atento, desde a última década do século XIX, . Os primeiros movimentos de massas com o surgimento dos partidos socialista e social-democrata. As sementes do ódio espalhadas por um grupelho de fanáticos revolucionários agrupados no partido nacional alemão. Viena até então a cidade cosmopolita por excelência e, segundo Zweig, a cidade mais amada pelos judeus – que financiavam em grande parte a sua riquíssima vida cultural – vê surgir um nacionalismo feroz e um anti-semitismo crescente. O austríaco Hitler viveu lá nessa altura e levou consigo estas ideias para a Alemanha, com os resultados que se conhecem.
Poucos foram os que, na altura, não se deixaram iludir com a loucura optimista daquela geração cega pelo idealismo e para a qual o progresso da humanidade deveria ter como consequência necessária uma evolução moral igualmente rápida.
Mas Sigmund Freud, um “pessimista” pouco amado pelos seus contemporâneos, nunca se iludiu. Para Freud, a nossa cultura, a nossa civilização, é apenas uma fina camada em risco de poder ser perfurada, a qualquer momento, pelas forças destrutivas do mundo subterrâneo. Convém nunca esquecer isto. Porque, afinal de contas, tudo o que é sólido dissolve-se no ar.”

quinta-feira, 9 de julho de 2015

O elefante na sala

Pelo Facebook e pelos jornais, anda tudo muito indignado com os gregos, a dizer que Portugal se descolou da Grécia, mas a Grécia não se descolou de si própria. Os militantes do PSD, a começar pelo nosso ilustre Primeiro Ministro, querem convencer-nos que os gregos são uns "malandrecos"; nós, portugueses, somos os campeões da virtude, uns estóicos. Espera lá--não podemos ser estóicos, que os estóicos eram gregos... Caramba, que isto é complicado!

Entretanto, nas sondagens das intenções de voto quem tem a liderança é o PS, aquele partido que estava ao volante quando Portugal, o pseudo-estóico, embateu contra a parede do endividamento público, exactamente a mesma parede que tem rendez-vous com a Grécia. Mais grave do que isto é o facto de o actual líder do PS ainda não ter feito nenhuma forma de ruptura nem com os métodos de governação, nem com os boys que (des)governavam Portugal, quando nós pedimos ajuda a uma tal de Troika--a mesma a quem a Grécia pediu ajuda. Não foi a Grécia aquele país de pessoas que elegiam repetidas vezes os partidos que os levaram à bancarrota até chegar os malucos do Syriza? Ah, compreendo! É por isso que nós não somos a Grécia: nós ainda estamos naquela parte da história da Grécia em que eles continuavam a assobiar para o lado enquanto se enterravam.

A nossa Ministra das Finanças tem razão: a Grécia é um problema da UE, não é um problema apenas da Grécia. É pena que o resto do nosso governo não consiga ver o elefante na sala: a Grécia, tal como Portugal, é um país que, ao contrário da Alemanha, não está rodeado de países ricos para lhe comprar bens e serviços. No entanto, é interessante pensar como muitas coisas alemãs conseguem chegar a Portugal e à Grécia, mas não há tanta coisa portuguesa e/ou grega que chegue às lojas alemãs. Será só porque nós não produzimos ou também tem a ver com o facto de os alemães não gostarem de comprar a estes países? Quando eu vou à loja, ninguém me obriga a comprar alemão ou chinês ou americano--eu é que decido.

E eu já decidi: vou boicotar as coisas alemãs. Se os alemães não querem comprar a Portugal e à Grécia, eu também não lhes quero comprar nada. Adeus sauerkraut, olá dolmadakias...

E já agora, o PISA

O relatório  "Government at a Glance 2015"  inclui um último capítulo intitulado "Serving citizens". Retive os gráficos seguintes quanto à performance dos estudantes da OCDE nos testes PISA, em matemática, em 2003 e 2012. Portugal melhorou e aproximou-se da média, estando muito próximo do resultado alcançado pela Noruega. No entanto, Portugal está entre os cinco países onde as diferenças no "background" sócio-económico mais contribuem para explicar a variação dos resultados. 


Emprego público

Para quem se preocupa com o "excesso" de funcionários públicos na Grécia e em Portugal, aqui vão dois gráficos frescos da mais recente publicação da OCDE "Government at a Glance 2015". Convém notar que em ambos os países o denominador caiu significativamente de 2009 para 2013, quer em termos de população ativa, quer em termos de emprego.






quarta-feira, 8 de julho de 2015

De onde vem tamanha sobranceria?

Poderemos estar à beira de um acordo na Grécia. A Grécia está quase de joelhos, porque sem o acordo pode ser o caos. Vejo muitos conterrâneos alegres com isso.

Tanta sobranceria é totalmente deslocada. Se os ventos mudarem em Portugal, também nós estaremos daqui a uns tempos a pedir mais apoios e perdão de dívidas. Aliás, bastava o programa do BCE não ser aplicado a Portugal para as nossas taxas de juro estarem bem, bem lá em cima. E, se assim fosse, não estaríamos a cantar de galo, a nossa dívida estaria numa trajectória bem insustentável. Ou seja, estaríamos também a pedir mais empréstimos e perdões de dívida. 


Algum silêncio solene é devido, nem que mais não seja porque ainda não nos livrámos desse destino.

Comprem grego

A melhor forma de ajudar a Grécia a pagar o dinheiro que deve à UE e ao FMI é comprar produtos gregos. Eles precisam de aumentar as exportações. Não adianta perdoar-lhes parcialmente a dívida, se ao mesmo tempo o exterior lhes compra menos--esta tem sido a razão pela qual as intervenções da UE falharam durante cinco anos. O plano de perdão parcial da dívida alemã depois da Segunda Grande Guerra Mundial incluía incentivos para os países credores importarem produtos alemães. Foi por isso que a Alemanha conseguiu crescer, não foi o perdão da dívida.

Todos nós contribuímos para o sucesso ou o falhanço dos países do sul da UE através das nossas compras. Comprem português e grego. Alex Andreou no The Guardian:

"The people are even more welcoming, more hospitable and more grateful than ever. The reaction to difficulty has been a broader smile, a wider embrace. We understand that you have a choice and we understand why you have chosen Greece right now. Tourism is liquidity. Tourism is solidarity.

[...]

Try to spread the solidarity around: instead of going for very popular destinations, check the smaller islands to which you can fly, or mainland destinations in the Peloponnese, Macedonia and Thessaly. Stunning beaches (and much quieter ones) are never too far away, and some of the sites you can visit are breathtaking. Olympia, the ancient theatre of Epidavros, Delphi, Vergina, Meteora (which you might remember from the climactic scene in For Your Eyes Only), Tempe, Mount Olympus – there are so many. You can find a good guide at greeka.com.

Most importantly, spend your money with small local businesses whenever possible, rather than large multinationals (although even that helps – they still employ Greeks). Your tourism is a form of resistance. You will have the time of your life while helping a nation brought to its knees by international monetary interests."

Será coincidência?

Hoje de manhã, a United Airlines adiou voos por causa de um problema com os computadores. Os voos já foram retomados.

Neste momento, a New York Stock Exchange tem a actividade cancelada por causa de um problema com os computadores.

O mercado accionista chinês está a cair a pique. Muitas das companhias suspenderam a comercialização das suas acções, correspondendo a 40% do valor do mercado chinês.

E depois, no background, há a batalha Grécia vs. UE em Bruxelas.

Antecipação de climax

De acordo com a Bloomberg, a UE já marcou um clímax para Domingo:
Sunday’s Brussels meeting now looms as the climax of a five-year battle to contain Greece’s debts, potentially splintering a currency that was meant to last and throwing more than half a century of European economic and political integration into reverse. German Chancellor Angela Merkel, whose country is Greece’s largest foreign creditor, said she is “not especially optimistic” about finding a solution.
Olha outro, pois é... Mas este também não me convence totalmente. Também não convence os mercados, que andam mais preocupados com a China. O melhor é ir tratar da nossa vida...

Em preparação para o clímax de Domingo, que tal termos um hoje, Quarta-feira, o nosso dia preferido para contribuir para a campanha de natalidade de Portugal? Tenham em mente que, se Portugal não endireita a economia para compensar a queda da população, vai haver muitos clímaxes gregos no nosso futuro. É que as últimas estimativas indicavam que, em média, a população portuguesa vai diminuir 0,4% anualmente de 2012 até 2060. Ou seja, caríssimos, os primeiros 0,4% de crescimento do PIB são para absorver o impacto demográfico negativo. Foda-se, literalmente!


Na escola primária também era assim...

Quando eu andava na escola primária, lembro-me que se comparava muita coisa: quem tinha o lápis mais afiado, a saia que dava mais roda, o cabelo mais comprido, quem saltava mais alto, etc. Os europeus também andam numa de comparar: "Será que a pensão dos gregos é maior do que a minha?", como relata o Público.

A minha mãe morreu em 2006, bons tempos! O estado português pagou o funeral. Quando contei a uma amiga da Macedónia que em Portugal o estado pagava os funerais, ela abriu a boca de espanto. Nem sequer via razão nenhuma lógica para um funeral ser pago pelo estado. Ainda bem que a Macedónia não faz parte da UE--mas já candidatou-se em 2005. Parece que, em Portugal, também já não há funerais pagos pelo estado; mas ainda há pensões. Será que as pensões portuguesas são as mais baixas da Zona Euro?

Lembrem-se disso, quando forem votar nas próximas eleições. É que, se votarem num governo que nos leva pelo mesmo caminho que seguíamos em 2011, já sabem o que nos espera em termos de opinião pública internacional.

terça-feira, 7 de julho de 2015

Somos liderados por loucos...

Sinceramente, não sei o que se passa na cabeça dos líderes da UE. Passam a vida a dizer que os gregos não valem nada, a Grécia é um país horrível--não sei quem ainda tem vontade de ir passar férias num país assim. [OK, eu me confesso, ontem estive a ver os preços para ir passar férias à Grécia--é só assim que os gajos arranjam dinheiro para pagar o que devem. Ah e eu também como iogurte Fage, que é uma marca grega. Sabem uma coisa gira? A Fage é uma empresa grega, mas tem sede no Luxemburgo. E comprei chá grego quando estive em Washington, D.C.]

Depois, não contentes com todo o ódio que cultivaram pelos gregos, ainda oferecem um acordo mais duro aos gregos e exigem um aumento do IVA nos hotéis de 7% para 23%. Desculpem, mas quando eu estudei economia, ensinaram-nos que aumentar os impostos e criar má reputação de um serviço reduz a quantidade consumida de um bem e o efeito na receita de impostos é indeterminado. Parem de nos passar por idiotas: a UE quer ser paga ou não? Se não quer ser paga, cortem o financiamento à Grécia e deixem aquilo ir para as urtigas. Não andem a emprestar dinheiro a quem, obviamente, não tem condições de o pagar e não andem a piorar as condições de eles pagarem ainda mais.

Diz o Ambrose Evans-Pritchard (enfase meu):

Greek premier Alexis Tsipras never expected to win Sunday's referendum on EMU bail-out terms, let alone to preside over a blazing national revolt against foreign control. He called the snap vote with the expectation - and intention - of losing it. The plan was to put up a good fight, accept honourable defeat, and hand over the keys of the Maximos Mansion, leaving it to others to implement the June 25 "ultimatum" and suffer the opprobrium.

This ultimatum came as a shock to the Greek cabinet. They thought they were on the cusp of a deal, bad though it was. Mr Tsipras had already made the decision to acquiesce to austerity demands, recognizing that Syriza had failed to bring about a debtors' cartel of southern EMU states and had seriously misjudged the mood across the eurozone.

Instead they were confronted with a text from the creditors that upped the ante, demanding a rise in VAT on tourist hotels from 7pc (de facto) to 23pc at a single stroke. Creditors insisted on further pension cuts of 1pc of GDP by next year and a phase out of welfare assistance (EKAS) for poorer pensioners, even though pensions have already been cut by 44pc.

They insisted on fiscal tightening equal to 2pc of GDP in an economy reeling from six years of depression and devastating hysteresis. They offered no debt relief. The Europeans intervened behind the scenes to suppress a report by the International Monetary Fund validating Greece's claim that its debt is "unsustainable", concluding that the country not only needs a 30pc haircut to restore viability, but also €52bn of fresh money to claw its way out of crisis.

É o stress...

O Alexis Tsipras sofre de herpes labial. Este fim-de-semana que passou, o vírus atacou em força...