terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Preparos

Em Washington, D.C., prepara-se o dia da inauguração, esta Sexta-feira, de Donald Trump, que será inaugurado com um nível de aprovação muito baixo: cerca de 40%. Na rádio de manhã, disseram que há mais pedidos de autorização para a entrada de autocarros no Sábado do que na Sexta-feira, logo prevê-se níveis de protestos muito altos.

Especulava-se que o Presidente irá ter um discurso em que pede que o país se una, como fez no seu discurso de aceitação, mas o maior interesse será suscitado pelos tweets que se seguirão, pois, se for como antes, prevê-se que o Presidente acuse os media de incitar e organizar os protestos. Dizia o apresentador do programa de rádio 1A, que os protestos serão uma mostra da Primeira Emenda da Constituição, a que consagra a liberdade de expressão.

Estive ao pé da Casa Branca no dia 3 de Janeiro e parte da Lafayette Square e o relvado da Casa Branca estavam vedados com os preparativos do palco. Havia bastante seguranças e polícias em redor e divertiu-me ver, no passeio da Pennsylvania Ave, ao pé do Eisenhower Executive Office Building, um rapaz fardado em que ao peito dizia "Secret Service". Pareceu-me estranho que algo secreto anunciasse ao mundo que estava presente e visível, mas ultimamente tudo tem sido estranho, até mesmo a estranheza de estar ali a ver os preparativos para um evento que não auguro trazer nada de bom. Quis tirar uma foto ao rapaz, mas contive-me. Tirei então uma foto ao palco lá ao fundo e reparei que tinha, em redor, um vidro protector, algo que eu não esperava. Tudo isto foi incidental, pois não tinha grande interesse em ir ver a Casa Branca; o meu objectivo para estar ali é que a Renwick Gallery era mesmo ao pé. Dei a volta e caminhei para a galeria, sempre a pensar no quão surreal tudo me parecia.

Ao entrar no edifício, mostrei a minha mala ao segurança, e dirigi-me à sala onde decorria a exposição do Renwick Invitational. A primeira artista era Jennifer Trask: na parede e pela sala, estavam espalhadas construções belíssimas, algumas eram arranjos florais, outras artigos de joalharia, esculturas, até mesmo uma instalação com mobília. À medida que nos aproximávamos, e especialmente quando líamos a descrição, a verdade era revelada: os materiais usados eram dentes, ossos -- como vértebras de cobras, costelas de pássaro, fémures de animais de grande porte --, penas, asas de borboleta, pedaços de conchas, pedras semi-preciosas, metais -- alguns preciosos --, molduras partidas, sangue seco, pétalas de flores, especiarias (uma peça tinha açafrão), solo de várias cores (amarelo de Verona, em Itália, e Espanha, vermelho do Arizona), resina, gesso, chifres, etc: uma mistura do macabro e do precioso, numa variância de materiais que raramente encontramos.

Em retrospectiva, esta exposição é tão apropriada para a forma como eu antecipo ser uma Administração Trump: das piores coisas que nos oferece Donald Trump, teremos de nos preparar para construir algo que não mostre a sua verdadeira fealdade.




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