sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Ainda o Thanksgiving

O meu primeiro Thanksgiving, em 1995, foi passado em Dallas, aqui mesmo no Texas. Uma amiga minha da faculdade convidou-me para ir a casa dos pais. Viviam numa vizinhança, uma subdivision, em que as casas eram todas muito giras, pareciam casinhas de brincar, todas com arquitectura semelhante, as relvas bem aparadas, as sebes cortadas milimetricamente. Fizemos a viagem de carro, que demorou cinco horas, e quando entrámos no Texas, algures viu-se gado a pastar num campo e ela, num momento de extrema ingenuidade, perguntou-me, com o seu Texas drawl, o sotaque aqui da terra: "Do y'all have cows in Portugal?" Eu fiquei em silêncio porque juro que não percebi bem a pergunta. De repente, começámos as duas a rir às gargalhadas quando ela se apercebeu da estupidez do que tinha dito "Of course! That's a dumb question!" Pois era, mas daí para diante, sempre que nos queríamos rir, perguntávamos "Do y'all have cows in Portugal?"

Há quatro anos, mudei-me para o Texas e cheguei a Houston no final do dia anterior ao Thanksgiving, que é uma altura complicada porque, no Thanksgiving, estava quase tudo fechado e não dava para fazer compras ou ir a restaurantes. Quer dizer, dar, dava porque os asiáticos não costumam observar o Thanksgiving e é sempre possível ir a um restaurante asiático em qualquer parte dos EUA -- essa parte eu sabia. Depois, Houston é uma cidade tão grande, a quarta maior dos EUA, que há sempre mais escolha -- essa parte é agora óbvia.

Mas não pensem que era tão deprimente quanto isso porque a minha chefe tinha-me pedido para ir jantar a casa dela, mas eu não estava com cabeça para fazer sala depois de ter conduzido quase 13 horas, que reparti durante dois dias porque tive de contornar uma tempestade e fazer um percurso mais longo. Viajei com três cães, sendo que um deles, a Stella, tinha muitos problemas de saúde e precisava de constante atenção especialmente num sítio novo. Convém acompanhar um cão com epilepsia cuidadosamente quando estão em situações estranhas porque o stress causa ataques.

Em conversa com a minha senhoria, ela mencionou que o Luby's, que é um restaurante estilo bufete, estava aberto durante o Thanksgiving e pareceu-me uma boa opção. Havia muitas famílias lá porque é prático poder ter a ceia de Thanksgiving e não ter de cozinhar ou limpar. O pior é que não há sobras e é tradição fazer sandes de peru com os restos do peru assado. Faz-se assim: barra-se duas fatias de pão com maionese e coloca-se pedaços de perú assado entre as fatias de pão. Há quem ache que isso é a melhor parte do Thanksgiving.

Dizia-vos que fui ao Luby's sozinha, meti-me na fila, pedi a comida que queria no prato e fui sentar-me a uma mesa. Veio a empregada perguntar-me o que queria para beber e ficou com muita pena de mim por eu estar a comer sozinha e foi super-atenciosa. Pela minha parte, tive pena dela por sentir pena de mim porque, como dizia a minha mãe, por vezes sou bicho do mato e preciso mesmo de estar sozinha. No final da refeição, pedi um café para beber com a tarte. A pena era tanta que a empregada nem me cobrou pelo café. Deixei-lhe uma gorjeta generosa para atenuar a minha pena.

Nos últimos três anos tenho passado o Thanksgiving com a minha vizinha. Comprometi-me a fazer a compota de arandos e perguntei-lhe se era preciso mais alguma coisa. Ela pensou durante uns segundos e sugeriu um "relish plate", que eu não sabia o que era. Um "relish plate" ou "relish tray" é um prato com coisas como talos de aipo, palitos de cenoura, couve-flor, pepino, azeitonas, etc. Para mim, aquilo era um "vegetable plate", mas as azeitonas não são "vegetables", logo lá se vai a minha teoria. Costuma-se servir com um molho no centro, normalmente "ranch dressing", mas ela pediu-me para não levar molho e apenas queria cenoura, aipo, e azeitonas. Lá percebi o conceito e disse-lhe que tinha um prato ideal para isso. Efectivamente, cá em casa, há um "relish tray" de cerâmica feito em Portugal, do qual eu gosto muito, e que eu comprei há muitos anos, quando vivia no Arkansas.

Ontem, decorei o meu "relish tray" e, quando cheguei a casa da minha vizinha, toda a gente achou que estava muito bonito e o prato era lindo. Ela até me perguntou se eu o tinha comprado de propósito porque já se tinha esquecido de eu ter dito que já tinha o prato. Adoro cerâmica portuguesa. Deviam inventar um posto de embaixatriz da cerâmica portuguesa porque eu adoraria esse emprego. Aqui está o meu prato todo catita:







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