sábado, 11 de novembro de 2017

Competências

A Suzy Menkes, jornalista de moda da Vogue, foi à WebSummit e o Mauro Gonçalves entrevistou-a para o Observador. Para além de falar nos efeitos ambientais da moda, que é a segunda indústria mais poluidora do mundo, a seguir à do petróleo, houve uma parte da conversa que achei bastante interessante e que foi sobre o futuro da indústria. Eventualmente, os consumidores terão de se sensibilizar de que roupa barata não é uma coisa que dure indefinidamente e terá de haver uma mudança nas suas preferências, no sentido de as pessoas valorizarem mais a qualidade e os aspectos intemporais das peças, que permitam que elas durem mais do que uma estação -- falo em estação, mas isso hoje em dia já nem faz sentido, pois há um fluxo constante de produto para as lojas. Este futuro inevitável intersecta bem com o potencial de Portugal, como podem ler neste excerto da entrevista:


Nos últimos meses tem tido oportunidade de conhecer o trabalho de vários designers portugueses. Quais as primeiras impressões?
Esta conferência não vai ser sobre a moda portuguesa nem sobre o rumo que ela está a tomar. É claro que tenho muito interesse em ver o que está a ser feito cá e por isso ainda quero voltar. Fiquei bastante impressionada com o que vi. Achei que a qualidade dos tecidos, especialmente das malhas, é excecional, de um nível que não se encontra, sobretudo na Europa. Parece-me que mantiveram várias técnicas que a maioria das pessoas já deixou de fazer. E há um grande sentido de cor. A minha teoria é de que isso vem dos azulejos, porque eles são tão bonitos. Para mim são simplesmente mágicos. Acho que nenhum designer em Portugal quer realmente falar deles porque os vêem todos os dias, mas há algo daquelas cores e formas que faz parte do espírito de algumas peças.

Fonte: Suzy Menkes em entrevista a Mauro Gonçalves para o Observador

Apesar de a visita ser curta, a qualidade da manufactura têxtil portuguesa sobressaiu e impressionou a Suzy, que acha que o know-how português é superior ao de outros países europeus. As técnicas também fazem parte da riqueza nacional e seria importante que não fossem perdidas para sempre, pois se isso acontecer perdemos uma vantagem competitiva que temos em relação a outros países. Este é um ponto que já aqui tenho feito várias vezes, pois frequentemente encontro nos EUA referências a tecidos portugueses. Espero que haja alguém minimamente competente que tenha noção do que o país tem e que este legado não se perca de vez.

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