quarta-feira, 15 de abril de 2015

A máquina do poder

“A máquina do poder” é um livro dos jornalistas Miguel Pinheiro e Gonçalo Bordalo Pinheiro. Durante semanas, andaram pelos bastidores da campanha do PS e da Aliança Portugal (PSD + CDS) para as últimas europeias. Nos EUA, desde 1984, a Newsweek leva a cabo, de quatro em quatro anos, uma operação a que chama “Projecto”, na qual os jornalistas acompanham de forma exaustiva os dois principais candidatos presidenciais. Depois das eleições, é publicada uma reportagem, seguida de um livro. Em Portugal, isto é inédito – antes da publicação do livro, foram publicadas no Observador reportagens da campanha de cada partido.

A primeira conclusão a tirar do livro é: coitados dos candidatos, ou melhor, dos cabeças de lista. Não lhes invejo a sorte. Francisco Assis, Paulo Rangel e Nuno Melo acabaram a campanha de rastos. O problema não é só o cansaço - as viagens de dezenas de milhares de quilómetros de carro pelo país fora. É a monotonia. Os mesmos discursos repetidos vezes sem conta, o constante desespero em, literalmente, conseguir apanhar pessoas a quem cumprimentar. Em Portugal, ninguém quer ser visto ao lado de um político. Não espanta que os locais de visita sejam sempre os mesmos: fábricas, escolas, quartéis de bombeiros, lares de idosos, e edifícios da Santa Casa da Misericórdia, tudo lugares onde as pessoas estão encurraladas, sem nenhuma hipótese de fuga.

E tudo isto é feito com a inestimável colaboração dos “aparelhos”. São eles que propõem às direcções de campanha os locais a visitar em cada distrito – no CDS é diferente, decide-se tudo em Lisboa. E não é possível escapar aos notáveis da terra, sempre doidos por aparecerem ao lado dos candidatos, sobretudo se a coisa passar na televisão, para assim mostrarem ao mundo a sua grande influência e importância.

Chega a ser confrangedor. Assis tinha dito expressamente que já não queria continuar a “explorar” e a expor os velhinhos. De nada lhe serviu. No dia 21 de maio, numa pequena aldeia de mil habitantes do concelho da Póvoa do Lanhoso, as notabilidades do sítio enganaram o pobre do Assis, arrastando-o para um centro de dia, onde supostamente não haveria pessoas àquela hora. Quando deu conta, e para seu notório embaraço, Assis estava numa sala cheia de velhinhos com bengalas, chapéus e lenços. Os pobres dos velhinhos estavam sentados em cadeiras junto à parede, pacientemente à espera, nem eles sabiam bem de quê. Do outro lado, uma mesa com um lanche e uma garrafa de champanhe Moet & Chandon esperava a comitiva. De costas para os idosos, e ignorando-os por completo (as fotos já tinham sido tiradas), os notáveis comeram e brindaram com champanhe. Com um Assis cada vez mais incomodado e mortinho por se pôr a andar, os responsáveis da iniciativa ainda aproveitaram a oportunidade para apresentar os seus maravilhosos projectos para o futuro e solicitar os bons ofícios do candidato, a fim de arranjar financiamentos comunitários.

Os jornalistas também não ficam bem na fotografia. Rangel e Assis não disfarçam o seu desprezo pela seita. Acham que são “genericamente fracos” e “pouco preparados”. Exemplos? Martin Schulz e Jean-Claude Juncker vieram a Portugal nessa altura, porque eram candidatos à presidência da Comissão Europeia. O socialista Schulz afastava-se claramente da proposta do PS em relação à mutualização da dívida. Embora isso o prejudicasse, Assis nem queria acreditar que nem um jornalista o tivesse confrontado com a pergunta óbvia. A Juncker, nem uma pergunta fizeram. Às tantas, Assis desabafa: “Sabes qual é a sorte dos jornalistas? É que ninguém lê jornais”.

A luta para apanhar um lugar, nem que seja como assessor de qualquer coisa em Bruxelas, é também terrível, são sete cães a um osso.

Rangel e Assis claramente não se sentem à vontade com a política espectáculo, deploram-na mesmo, mas lá vão, meio contrariados, seguindo as instruções dos assessores.

Seguro não fica bem na fotografia, apesar de ser essa a sua principal preocupação, sempre obcecado com a imagem e em agradar aos jornalistas - sendo claramente diferente de Assis. Durante a campanha, começou a ser apresentado como o “próximo primeiro-ministro de Portugal” e as sondagens davam-lhe uma vitória folgada. Foi uma ilusão. No dia 25 de maio, contra todas as expectativas, o PS teve apenas 31,49%, a Aliança Portugal 27,73%. Seguro, até ao último minuto, sempre mais preocupado com a imagem do que com a realidade, ainda declarou que “O PS teve uma grande vitória”. Na plateia, um assessor chorava, enquanto Seguro cantava vitória, com o barco a ir ao fundo. Eis um epitáfio.

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