segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

My fair lady

Uma amiga russa ofereceu-me, pelos anos, uma edição particularmente elegante do Anna Karenina. Lembro-me de ela retirar o livro das minhas mãos e, abrindo-o na primeira página, me fazer notar a importância do começo. Leu a frase em russo, e mostrou-me a respetiva tradução: As famílias felizes são todas iguais; mas cada família infeliz é infeliz à sua maneira. 

O humano é livre na medida do seu (aparente) fracasso. Somos diferentes e livres naquilo que, pelo menos para alguns, seria qualificado como erro de percurso. Curiosamente, a história de uma família feliz não tem apenas personagens pouco livres; o próprio escritor é pouco livre, na medida em que o fim que escreve não é determinado por ele. Tolstoi, ao contar a história infeliz de Karenina, de certa forma libertou o Romance, e libertou-se a ele mesmo. 

Este sábado fui ver uma peça ao teatro do meu bairro - que se orgulha de ser o teatro mais pequeno da cidade. A sala, com paredes pintadas de preto desbotado, tem duas filas de cadeiras e um pequeno espaço onde os atores contracenam. Há alturas em que o espaço é tão pequeno que, na primeira fila, os espectadores têm de encolher as pernas para os atores poderem passar. A peça é maravilhosa. O Pigmaleão, do George Bernard Shaw, conta a história de um professor de fonética, Higgins, que, para ganhar uma aposta, ensina uma vendedora de flores, Eliza, a falar Inglês correto. Higgins é tão bem sucedido na sua criação que esta se torna mais poderosa que o criador, e rejeita-o quando a sua aprendizagem termina. Esta parte é fundamental na peça: a criação é de tal bem feita, que, maldição do criador, ela se torna demasiado boa para ele. O público, quando a peça foi estreada nos anos 10 e 20 do século passado, tinha uma opinião diferente. De tal modo que o ator principal da primeira encenção se sentiu compelido a alterar o fim da peça, para que a aluna ficasse com o professor. Bernard Shaw ficou tão furioso que disse que o ator merecia ser fuzilado – e desesperante publicou uma nota a explicar porque é que não podia haver um fim diferente. 

É extraordinário, não é? Bernard Shaw quis que, na sua peça, o criador fosse rejeitado pela sua criação para mostrar um ponto. O público discorda. Como resultado, o criador Bernard Shaw é rejeitado pela sua própria criação, a peça que escreveu.

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