sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Novela 24h

A Geringonça é uma telenovela portuguesa em exibição, 24 horas por dia, nos vários meios de comunicação nacionais e estrangeiros. Iniciada em finais de 2015, após as eleições legislativas de 4 de Outubro, tem como principal autor António Costa, que acumula funções de protagonista como líder do Partido Socialista português. Nesta saga político-económica, acompanhamos as diferentes manobras necessárias para que o protagonista suba a e se mantenha no poder em Portugal. Nos papeis secundários encontramos vários líderes políticos de outros partidos, que já tiveram melhores dias. Como esperado, e para criar situações de suspense e de maior interesse da trama, há líderes que estão contra e outros a favor do protagonista.

Nesta novela, exploram-se relações de ódio e de amor. Há o amor encontrado entre António Costa, Catarina Martins, e Jerónimo de Sousa (de Esquerda), que muita vezes parece frágil, ou talvez haja um pouco de apatia emocional entre estas três pessoas que supostamente têm tanto em comum, e pelo qual muitos portugueses torcem. Já entre António Costa e as personagens da Direita, Cavaco Silva, e Pedro Passos Coelho, exploram-se situações de ódio. Os espectadores portugueses estão completamente divididos por esta dicotomia Esquerda-Direita, que nos recorda o conflito e ódio de estimação entre os Capuletos e os Montecchios do enredo Shakespeareano, Romeu e Julieta. Nessa obra prima da literatura inglesa, o final é trágico e os protagonistas, que não se odeiam, acabam mortos. Em Portugal, tal não acontecerá: haverá tragédia, mas nenhum dos protagonistas acabará morto literalmente; no entanto, a morte política de Pedro Passos Coelho é altamente provável dado o seu desempenho actual.

Um enredo semelhante a este já foi explorado recentemente, há duas novelas: o ódio foi uma das armas usadas por José Sócrates para dividir o país e o empurrar para a bancarrota. E até houve uma altura, nessa novela, em que Pedro Passos Coelho e José Sócrates se amavam. José Sócrates ainda está vivo, mas nem todos os portugueses sobreviveram. Durante a novela seguinte, protagonizada por Passos Coelho, Sócrates já era uma figura odiada pelo protagonista. Perdeu-se nessa novela uma grande oportunidade de eliminar o ódio em Portugal; mas num país que foi fundado em 1139, o que não faltam são oportunidades para amar, odiar, falhar, e voltar a repetir a dose. Note-se que o amor e o ódio são coisas muito próximas e como "O amor é fogo que arde sem se ver", isso pode dar aso a muitos incêndios.

Mesmo em países mais jovens, o ódio é instrumentalizado para escudar más governações: veja-se o caso da Argentina de Cristina Kirchner ou dos EUA de George W. Bush, em que cada um teve dois mandatos, ambos os países perderam e bastante; os ex-governantes sobreviveram e têm boa qualidade de vida. Kirchner ficou com a conta de Twitter da Casa Cor-de-Rosa; Bush finalmente conseguiu que uma universidade aceitasse a sua Biblioteca Presidencial.

Como é característico das novelas, para além do arco principal da história, que é o percurso do protagonista, há outros sub-arcos, que são introduzidos semanalmente para entreter e embrutecer as massas. Se os tópicos mudarem frequentemente, nenhum é aprofundado, e a má governação é, por isso, camuflada mais facilmente. Por exemplo, já assistimos aos seguintes sub-arcos (não aconteceram necessariamente na ordem mencionada; perdoem-me se a memória me falha, mas estou completamente destreinada na arte de ver novelas):

  1. Negociações para a formação de governo
  2. (Des)acordo que supostamente dá legitimidade ao governo da Geringonça
  3. Ataques ao Presidente da República
  4. Elenco de Ministros e outros personagens
  5. Legalização da adopção de crianças por pessoas em relações homossexuais
  6. Infelicidade infantil causada por exames escolares
  7. Indiferença felicífica causada por exames escolares se propostos por um governo PS
  8. Aumento do salário mínimo nacional
  9. Redução dos horários de trabalho da função pública
  10. Rumores do Banif iniciados pela TVI
  11. Queda do Banif
  12. Venda do Banif
  13. Orçamento rectificativo por causa do Banif
  14. Início da Comissão de Inquérito por causa da venda do Banif
  15. Eleições presidenciais
  16. Provocação dos credores internacionais e detentores de instrumentos de dívida do Novo Banco
  17. Regresso da TAP ao estado
  18. Orçamento de estado, versão I, chumbada por Bruxelas e Excel de Centeno
  19. Orçamento de estado, versão II, chumbada por Bruxelas
  20. Orçamento de estado, versão III, condicionalmente aceite por Bruxelas

Neste momento, já se vislumbram mais histórias que irão ser exploradas na novela actual, como a eutanásia, a pseudo-tentativa para demitir Carlos Costa do cargo de Governador do Banco de Portugal, a necessidade de injectar mais dinheiro (mais €567 milhões, é só 0,3% do PIB, não sejam mesquinhos) no BPN/CGD, etc.

Quanto mais ódio for cultivado, no decorrer destas histórias, melhor a probabilidade de António Costa ser eleito caso haja eleições antecipadas. Projecta-se que estas eleições serão o clímax político desta temporada. A derrocada final está agendada para uma temporada futura porque esta novela não é à brasileira; é uma soap opera à americana: nunca mais acaba...

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