quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Frases famosas 63

Morri.
 A princípio não queria acreditar, mas hoje não há quem me convença do contrário. E são muitos os que têm tentado, fiquem a saber. Vá-se lá perceber esta mania de se querer estar vivo e, pior ainda, esta mania de querer que os outros estejam vivos também. Que eu me lembre, nunca tentei fazer tal coisa, chegar ao pé de um morto e dizer, olha lá, tu estás é vivo. É, desde logo, deselegante. Meter-se uma pessoa na morte da outra é tão desagradável como meter-se na vida dela. Mete-te na tua vida, dizemos a quem quer meter-se na nossa. O mesmo deve passar-se com a morte, que cada um se meta na sua. E pronto. Mais ainda, é uma temeridade. Não por acaso comecei este desabafo dizendo que a princípio não queria acreditar. Isto deve querer dizer que estar morto não se nos apresenta como uma evidência. Logo, que não é assim tão fácil distinguir o estado de morto do estado de vivo. Daqui, a temeridade de afirmar que se está vivo ou morto, não apenas acerca de nós próprios mas mais ainda acerca dos outros. É verdade que também disse no início que hoje não há quem me convença de que estou vivo. É uma afirmação muito forte, e eu assumo não apenas a temeridade como o dogmatismo em que consiste fazê-la. Sou dogmático e pronto. É um dos privilégios de estar morto, depois de tantos anos vivo e céptico. Não quero com isto dizer que todos os mortos sejam dogmáticos. Menos ainda que todos os vivos sejam cépticos. Simplesmente especulo que, sendo estar morto o contrário de estar vivo, pode muito bem acontecer que mortos sejamos o inverso do que éramos quando vivos. É uma das alegrias do dogmático, a especulação. A alegria é, aliás, aquilo que começou a convencer-me de estar morto e não vivo. É que em vivo eu lia poetas. Um deles, o poeta Lucano, escreveu que os deuses escondem dos homens a felicidade da morte para que eles consigam suportar a vida. Se ele tivesse afirmado que os deuses escondem dos homens a felicidade da morte para que eles consigam suportar a infelicidade da vida, ficaria a afirmação mais equilibrada, ou mais simétrica, ou mais o que quer que seja que satisfaça o nosso sentido estético. Mas talvez a Lucano pouco importe o que o sentido estético sugere, ou que ele seja satisfeito. Se não disse que a vida é infeliz foi certamente por boas razões, e pelas melhores delas até. Que não sei quais são. Seja como for, de Lucano obtive o critério para o que me interessa aqui. A distinção entre estar morto e estar vivo é a felicidade. Foi o que me convenceu a mim. E pronto. Morri.


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