terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Frases famosas 4


4. É sempre assim.
Disse isto um guitarrista, daqueles que se sentam nos túneis do metropolitano, com um chapéu à frente. Um chapéu que pode ser de vários tipos, barrete, boina, de cowboy, de aventureiro australiano, capelo, capuz, coifa, touca, gorro, carapuço, quépe, barretina, tricórnio, solidéu, turbante, capacete, cartola, panamá, chapéu-de-palha, chapéu-de-coco, stetson, fedora, borsalino, boné. E já vi mesmo um sombrero em equilíbrio precário a chamar gente. Gente com moedas, claro. Mas as outras pessoas, as que não dão moedas, também se interessam por sombreros em equilíbrio precário. E não é raro ver estas a formar um muro redondo que afasta as que as dariam. Também há quem esteja ali para assistir a um concerto. Fala-se do caso de um indivíduo que, tendo bilhete para outro, ficou por ali, convencido que era mesmo àquele que ia assistir. Claro que também este indivíduo não atirou para o sombrero uma moeda que fosse, porque já tinha pago bilhete, que diabo. E ter um bilhete no bolso confere às pessoas uma extraordinária liberdade. Podem escolher ir ou não ir ao concerto, ao teatro, ao cinema para que compraram um. Podem entrar ou não entrar no comboio. Podem ver arrancar a camioneta ou o autocarro. A única excepção é a ópera. Ter um bilhete para a ópera não liberta, responsabiliza. À ópera vai-se com pompa, e por vezes mesmo com binóculos. Aqui está uma responsabilidade, a pompa. Os binóculos são opcionais, é verdade. Mas sente-se alguma pressão para levá-los, algum desconforto se faltam. A ópera exige uma certa disposição, um não sei quê. Conta-se o caso de um indivíduo que não levou o não sei quê à ópera num dia em que se apresentava uma alemã, uma ópera, entenda-se. Pois apanhou um susto assim que uma Brunhilde de capacete começou a gargantear, ora aqui está mais uma vez o tema dos chapéus. Neste caso, tratava-se de um capacete. Mas faz-se referência ao caso em que a mesma Brunhilde, ou antes, outra Brunhilde representando a mesma, em vez de capacete ostentou, orgulhosa, um coppola, para quem não sabe um boné siciliano de tweed usado por quem guia automóveis. Hoje já não se vêem muito. Mais espantoso foi, por isso, que o ostentasse. Rumorejou-se que era coisa de diva. Uns rumorejaram aprovando, outros censurando. Censuraram os defensores da autenticidade que exige apresentar-se a ópera como sempre se apresentou. Aprovaram aqueles para quem uma cantora de ópera que não seja uma diva não é uma cantora de ópera que justifique comprar-se um bilhete. Repara-se no que está aqui em causa, em choque. Não simplesmente a aprovação e a censura mas, na verdade, um embate acerca de quem deve ter prioridade no que à autenticidade diz respeito. A ópera ou a cantora de ópera.

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