quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Reportagem 10

Como não tenho nenhuma história sobre o pai natal, vai um polícia sinaleiro com votos de boas festas:




O engarrafamento que hoje fez centenas de condutores desesperar por mais de seis horas, e cujas causas são, até ao momento, desconhecidas, resolveu-se finalmente graças aos esforços heróicos de f s, morador em c, l, que declarou mais tarde aos órgãos de comunicação social a sua frustrada aspiração a ser polícia sinaleiro. "Desde pequeno que sonho com as luvas brancas e o capacete" , confidenciou, com visível emoção. "Mas quis o destino que, chegando eu à idade adulta, fossem substituídos aqueles artistas de apito pronto e indignação honesta por semáforos e automatismos sem efeito moral sobre peões e automobilistas", lamentou. "Faziam a alegria dos domingos e o consolo das segundas-feiras", contou. "Usavam o seu poder com humanidade e paciência, exprobravam os apressados e suas intolerantes buzinas berrando contra o noviço que deixava o carro ir abaixo, animavam os tímidos assustados com cruzamentos e rotundas, introduziam ordem com persuasão em vez de força", recordou. "Quem os associe ao autoritarismo da ditadura comete uma injustiça histórica, foram resistentes discretos mas sólidos, usaram o seu palanque redondo para encorajar as massas a assumir com plenitude a soberania sobre os seus volantes e pedais e instilar nos indivíduos aquele espírito cívico indispensável a uma cidadania republicana activa e kantiana", ajuizou. "Franziam o sobrolho aos escapes ruidosos e aos pneus carecas, contribuindo também deste modo para a tranquilidade urbana e para a segurança rodoviária", prosseguiu. "Suportavam estoicamente chuvadas e ventos fortes, granizo e sol escaldante, os dejectos dos pombos e o desprezo dos gatos às janelas", afirmou. "Indiferentes aos piropos das sopeiras, aos insultos dos marçanos, aos assobios dos magalas e às zombarias dos miúdos, eram profissionais impolutos e exemplares", disse. "Envergavam o uniforme com brio e endireitavam a espinha com orgulho", suspirou. "Eu cá nunca saio de casa sem o meu apito", terminou, feliz.

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