segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Frases famosas 52

52. Ilustre-se em episódios, todos breves, o uso, e o abuso, e o desuso, da frase com que Rabelais para sempre cerrou os olhos, para sempre, sim, pois que ainda que a alma sobreviva, a alma não tem olhos, que é esta.
A frase. Devo muito, não possuo nada, o resto deixo aos pobres. Quem tiver conhecido Rabelais lá saberá se é literal a dívida, honesto o despojamento, e sincero o legado. Seja como for. Por vezes encontramos quem diga que deve muito e com isso significa que é grato. A outros tanto pesa dever que, não podendo pagar, destroem o credor para que não permaneçam devendo. Outros ainda recebem de braços abertos a dívida e aumentam-na abrindo cada vez mais os braços. Nas naturezas obscuras, aquelas onde uma complicação de motivos irrompe numa conspiração de sustos, abrem-se gratos os braços aos despojos do que teve que ser destruído, e mais parece o endividar-se um pretexto para o homicídio do que o último recurso da neessidade. Esta, que dizem ser a mãe da invenção, cedo perde para a truculência, que é uma espécie de tia mimando a sobrinha com bolsos cheios de chocolates. Senão, vejamos. Começou por ser necessário a S. recorrer a C. para um empréstimo. Que nisso se jogava o seu dia seguinte, rogou. Se decidia a sua sorte ou a sua desgraça. Concedeu C. condoído o que S. lhe pedia, e descansou. Fez mal. Chegada a hora do acerto, S. não apareceu. Esperou C. mais de três semanas, e nada. Terá sido insuficiente o empréstimo, perguntou a si próprio, que não sabia. Terá o pobre sucumbido à desgraça, ocorreu-lhe, e mais uma vez perguntou a si próprio, que mais uma vez não sabia. Ter-se-á perdido no caminho, encontrado um velho conhecido, furado um pneu, adormecido, esquecido o bilhete do autocarro em casa, torcido um pé, estas e tantas outras causas ruminou C. nunca pensando na que mais se assemelhará à verdade, que S. não apareceu porque não quis. À quarta semana o corpo exangue de C., pendurado de cabeça para baixo e furado no umbigo, foi descoberto e perto dele a faca que S. comprara com o montante do crédito, uma faca de lâmina de aço, afiada durante as semanas em que se mantivera afastado. Uma bela faca, não se pode dizer que foi mal gasto o dinheiro. Outras ilustrações, todas breves consoante o prometido, poderiam ser dadas, mas se calhar a última frase de Rabelais foi outra. Parto em busca do grande talvez.

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