domingo, 6 de janeiro de 2019

Dia 6

Não tenho grande vontade de ir ao cinema, mas o meu cinema preferido, o Malco Ridgeway, que tem umas poltronas de cabedal super-confortáveis e onde dá para jantar, inclusive tomar um copo de vinho, deixa-me sempre tentada. Este ano há filmes que me interessam, como o "Vice", sobre o Dick Cheney, cujo realizador foi entrevistado recentemente no Fresh Air, onde um dos clips que passaram foi de Lynne Cheney a dar uma "pep talk" a um Dick bêbado e a tresandar a vómito. Aqui está a parte que me interessa:


BALE: (As Dick Cheney) I'm sorry, Lynney (ph).

ADAMS: (As Lynne Cheney) You're sorry. Don't call me Lynney. You're sorry. One time is, I'm sorry. Two times makes me think that I've picked the wrong man. You already got your ass thrown out of Yale for drinking and fighting. And now you're just going to be a lush that hangs power lines for the state. Are you going to live in a trailer? Are we going to have 10 kids? Is that the plan?

BALE: (As Dick Cheney) Can we discuss this later, please?

ADAMS: (As Lynne Cheney) No, we're going to discuss this right now while you smell like vomit and cheap booze.
FAY MASTERSON: (As Edna Vincent) Does Dick want some coffee?

ADAMS: (As Lynne Cheney) What? Mom, get out. Get out. Does Dick want some coffee? Jesus Christ. OK. Here's my plan, all right? Either you stand up straight and you get your back straight and you have the courage to become someone or I'm gone. I know a dozen guys and a few professors at school who would date me.

BALE: (As Dick Cheney) I love you, Lynne.

ADAMS: (As Lynne Cheney) Then prove it. Prove it. I can't go to a big Ivy League school. And I can't run a company or be mayor. That's just the way the world is for a girl. I need you. And right now, you are a big, fat, piss-soaked zero.

Fonte: Transcrição de um clip do filme "Vice", em Fresh Air

Dizia ela que por ser mulher não tinha as oportunidades que ele tinha e por isso precisava de um homem para chegar ao poder. É mais ou menos o que deve ter pensado a Hillary Clinton quando decidiu não chutar o Bill para a curva porque uma mulher divorciada não ia a lado nenhum. Já um homem que seja gordo, bêbado, mentiroso, que assedia mulheres, etc., pode ir a qualquer lado. Acho muito mais interessante ser mulher do que homem. Um homem nunca saberá se foi por mérito que chegou onde chegou ou se foi porque é homem e por isso é suposto conseguir chegar a qualquer lado.

Ser mulher é mais complexo. Há as mulheres como a Lynne que se contentam em ficar na retaguarda e as outras que têm ambições próprias. Mas também há homens de retaguarda, como o marido da Ruth Bader Ginsburg -- ah, também está em exibição um filme sobre ela: "On the Basis of Sex". O Martin D. Ginsburg tem um mérito especial porque ter a visão de que a esposa, apesar de mulher, podia atingir uma posição que é praticamente reservada a homens demonstra bastante audácia.

Por todos estes contrastes e histórias reais dignas de filmes, vale a pena viver nos EUA. É um país violento, aliás, na passagem de ano, estava eu sentada na minha sala a pensar que era perfeitamente possível ser alvejada a tiro se algum dos meus vizinhos se lembrasse de celebrar com uma arma, como fizeram os vizinhos de um colega meu que vive na parte sul da cidade.

Quando vivia em Bellaire, a casa à frente da minha tinha um buraco no teto. Quando apareceu, há muitos anos, a vizinha chamou a polícia por causa do buraco. O polícia achava que ela tinha andado a disparar uma arma para o ar dentro da sala. Ela dizia que não, até porque a bala estava no chão. Lá concluíram que a bala tinha entrado pelo telhado, passado pelo teto e aterrado no chão.

Pode parecer que não, mas a violência das armas é mais democrática do que a violência doméstica ou a violência de uma sociedade que discrimina a violência contra mulheres. Toda a gente pode morrer por causa de uma arma, mas quem costuma morrer em casos de violência doméstica são normalmente as mulheres e, por vezes, as crianças. Enquanto ruminava estes pensamentos recordei-me da discrição eloquente do Daniel Oliveira dos crimes dos skinheads em Portugal e senti algum conforto que a sociedade lidasse tão bem com este pessoal que até os enviava para a prisão.

Mas depois instalou-se o desconforto: e os homens que têm sexo com mulheres inconscientes ou os que as agridem, qual a dificuldade em lidar com esses? Será a gravidade do crime e das penas independente do sexo da vítima em Portugal? Talvez alguém do Bloco de Esquerda estivesse disponível para mudar a lei, mas andam entretidos com as barrigas de aluguer, depois de antes se interessarem pelo piropo.




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