terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Criaturas metafísicas 43

O meu nome do meio é caos.
Cada um dos meus sete pés assenta em cada um dos sete mares. Vejo do topo dos arranha-céus mais altos todas as curvas do planeta com os meus inumeráveis olhos. Vejo elefantes tão fáceis de esmagar como formigas, baleias tão fáceis de sufocar como escaravelhos. As minhas narinas aspiram fumos de centrais nucleares e fumos de padarias, o fedor das lixeiras e o fedor das habitações precárias. Todos os gritos chegam aos meus ouvidos, todas as explosões, todo o estrondo do metal amassado e todos os sons irritantes das derrapagens da borracha no asfalto. Sinto as células que degeneram, os tumores que progridem, as artérias que rebentam. Tenho línguas para provar todos os venenos. Tenho estômagos para digerir todos os alimentos podres. O ar inquinado passa pelos meus pulmões, a água turva pelos meus rins, a gordura suja pelos meus fígados. Na minha barriga cabem todos os homens. As minhas gargalhadas são tufões, os meus bocejos tremores de terra. Dos meus narizes saem ciclones e dos meus excrementos epidemias. Sou feio a ponto de quebrar espelhos e janelas, de desenraizar árvores e aplanar montanhas. Há muito que esperam de mim que abra as minhas asas. Que cubra todos os pontos da terra com os meus terrores, como se não estivesse já em todo o lado. Mas eu não tenho asas. 

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