sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Leituras de 2016 sobre progresso e inovação

A Amiga Genial (quatro volumes) de Elena Ferrante


A tetralogia A Amiga Genial de Elena Ferrante, pseudónimo da escritora italiana da cidade de Nápoles que se mantém no anonimato, é um dos maiores sucessos literários e de vendas dos últimos anos. 
A obra de Ferrante acompanha a relação de duas amigas, Lila e Lenú, que vivem num bairro pobre de Nápoles, ao longo da segunda metade do século XX. Numa entrevista à revista Paris Review, a autora refere que não pretendeu escrever sobre o processo de transformação económica e social, ou sobre a ascensão social e o peso persistente das origens de classe. Mas reconhece que um tão longo período histórico, com tantas mudanças económicas e sociais, influenciou as escolhas e as vidas das personagens. 
De facto, embora as grandes questões que acompanham as personagens de A Amiga Genial - como viver a vida? como nos relacionamos com os outros? – sejam comuns a muitas personagens de outros grandes romances, a forma como estas vivem a vida e se relacionam com os outros é determinada pelo tempo histórico em que a acção se desenrola. Na história da vida e amizade das personagens a autora dá-nos um grande fresco da Itália do pós-Segunda Guerra, onde as semelhanças com a experiência portuguesa abundam.    
Não é possível ler A Amiga Genial – pelo menos para um economista – sem contextualizar a história no período que ficou conhecido como Os trinta gloriosos (as décadas de 50, 60 e 70), a que muitos historiadores se referem como milagre: a taxa de crescimento duplicou face ao período anterior e a prosperidade que daí resultou permitiu atenuar os conflitos sociais que caracterizaram o período anterior à Segunda Guerra Mundial, estabilizar e legitimar os regimes democráticos e sustentar as transformações sociais associadas à urbanização e à massificação da educação.
Ao longo da obra vamos acompanhando o crescimento das personagens e as transformações da economia e da sociedade: as estradas são alcatroadas; o comércio moderniza-se; um sapateiro da periferia passa a produzir calçado de luxo numa loja do centro da cidade; as pessoas começam a ir à praia, a comprar carro e a ter telefone; as mulheres e os trabalhadores lutam pelos seus direitos, uma luta que resulta muitas vezes em actos violentos. Todas estas transformações e conflitos estão presentes no microcosmos do bairro de Nápoles onde se centra a narrativa. 
Mas a maior transformação naquele período, que atravessa toda a obra, é a da educação. A educação surge como um instrumento para a realização pessoal e como elevador social. Quando eram crianças, Lila e Lenú ambicionavam ser ricas. Serem ricas era a forma de se libertarem da opressão e da exclusão em que viviam os habitantes do bairro. As duas são excelentes alunas, mas as suas famílias não percebiam a utilidade de prosseguir os estudos. Apesar disso, e por pressão da professora, Lenú permanece na escola, com grande sucesso, até concluir a universidade e se tornar escritora. Por outro lado, Lila, que era a melhor aluna e que é excepcionalmente inteligente, não tem qualquer apoio da família, e abandona os estudos com 10 anos. 
Lenú percebe que ser a melhor aluna é a via “para vir a ser qualquer coisa...”, no fundo, para poder quebrar a imobilidade a que todos pareciam condenados no bairro, sobretudo as mulheres. No entanto, vai percebendo que a educação não desvanece todas as barreiras sociais. Por outro lado, o crescimento económico naquelas décadas mudou profundamente a vida do bairro – Lila e o marido, que não estudaram, tornam-se empresários bem-sucedidos de uma empresa informática. Mas os melhoramentos materiais não impedem as misérias morais, que persistem no bairro. 
O percurso muito diferente das duas amigas não as afasta. Lenú continua a voltar ao bairro onde cresceu e percebe que, apesar de toda a mudança, a “ligação entre o passado e o presente na realidade nunca se desfizera...”.   

Os Buddenbrook – Declínio de uma família de Thomas Mann

Durante a leitura da tetralogia de Elena Ferrante fui estabelecendo relações com um outro livro muito importante que li este ano: Os Buddenbrook – Declínio de uma família de Thomas Mann. Este é um dos poucos clássicos da literatura que me lembro de ver citado num manual de economia, o Economics de Paul Samuelson. O primeiro romance de Thomas Mann descreve o declínio da casa comercial de uma família burguesa do Norte da Alemanha, no século XIX. Thomas Buddenbrook herda o negócio do pai, fundado pelo avô, mantendo-se fiel aos velhos códigos. Num mundo em acelerada mudança económica e política, não tem a capacidade de se adaptar aos novos tempos e é ultrapasado pelos novos empresários. 
A questão da sucessão nas empresas familiares, que continuam a ser muito importantes na Alemanha (como em Portugal), é ainda hoje de grande relevância. Em Os Buddenbrook a sucessão na direcção da empresa, como a escolha do cônjuge, era determinada pela tradição. Num mundo em mudança, as escolhas ditadas pela tradição condenaram a empresa à falência e toda a família a um final infeliz. Um tema subliminar em Os Buddenbrook é a impossibilidade de realização de Antonie, a irmã de Thomas, que talvez fosse o elemento da família com o perfil mais adequado para assumir a direcção da empresa. No entanto, dada sua condição de mulher essa possibilidade não se colocava (embora seja verdade que na única intervenção que teve na empresa, propondo a realização de um contrato de futuros, o resultado foi ruinoso). 

Os Inovadores de Walter Isaacson e The Second Machine Age de Erik Brynjolfsson e Andrew McAfee

Os Inovadores de Walter Isaacson e The Second Machine Age de Erik Brynjolfsson e Andrew McAfee são dois livros fundamentais, e cuja leitura se complementa, para compreendermos as origens da revolução digital e as suas consequências para o funcionamento das economias e para a organização das sociedades.
Os Inovadores é candidato a melhor história de sempre dos computadores e da internet ou da revolução digital. Nesta história Isaacson destaca a importância do trabalho em equipa, das equipas interdisciplinares (contando com a presença de alguns génios), das lideranças, de um ambiente favorável à criatividade e à inovação, da colaboração entre o Estado, as universidades e as empresas. Esse ambiente colaborativo levanta muitas questões fundamentais e conflitos relacionados com a autoria e os direitos de propriedade intelectual e industrial ou o uso de recursos públicos para benefício privado. 
Os Inovadores lê-se compulsivamente, porque junta uma visão das grandes mudanças com episódios deliciosos da vida dos inovadores e dos gestores.     
The Second Machine Age de Erik Brynjolfsson e Andrew McAfee complementa a descrição da história da revolução digital de Isaacson, na medida em que dicute o impacto da tecnologia na economia e na sociedade. Brynjolfsson e McAfee estão entre os mais destacados optimistas tecnológicos. Do lado dos pessimistas, destacam-se autores como Robert Gordon e Tyler Cowen, que consideram que a revolução digital não tem a mesma capacidade de gerar crescimento económico que tiveram as revoluções tecnológicas anteriores.  
Apesar de identificarem riscos e efeitos negativos, os autores de The Second Machine Age defendem que a revolução digital aumenta a variedade e quantidade de bens disponíveis para consumo, dando à sociedade mais escolha e mais liberdade. A principal força por detrás desses benefícios é a digitalização de tudo, com custo marginal de reprodução igual a zero, permitindo a difusão de conhecimento de forma instantânea entre mais pessoas.
Os autores reconhecem os efeitos negativos da revolução digital no emprego e na distribuição do rendimento e da riqueza, em particular para os trabalhadores com baixas qualificações. O rendimento e a riqueza concentram-se num pequeno grupo de criadores e inovadores, cuja remuneração do talento beneficia da digitalização e globalização.
Brynjolfsson e McAfee concluem com uma discussão sobre as competências em que os trabalhadores têm vantagem sobre os computadores e as alterações necessárias nos sistemas de ensino. A boa notícia é que a própria revolução digital pode facilitar o acesso à educação necessária para ganhar a corrida com a tecnologia. E defendem também medidas como impostos mais elevados para os rendimentos mais elevados como forma de corrigir as desigualdades geradas pela revolução digital. E não se esquecem de reforçar a importância de preservar um sistema capitalista, isto é, um sistema económico descentralizado com a propriedade privada dos meios de produção.  

Referências:
A Amiga Genial (quatro volumes). Elena Ferrante. Relógio D´Água
Thomas Mann. Os Buddenbrook – O declínio de uma família. D. Quixote. Tradução de Gilda Lopes Encarnação. 
Walter Isaacson. Os Inovadores. Porto Editora.
Erik Brynjolfsson e Andrew McAffe. The Second Machine Age. Norton 

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