sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Para mim, é sensual, pronto!

Quando se fala nos quadros de Georgia O'Keefe, há sempre alguém que diz que as flores que ela pintava eram uma representação do sexo feminino -- do órgão sexual mesmo. Ela não achava, pois na ideia dela as flores eram grandes e muito detalhadas nos quadros porque era um convite para as pessoas olharem com mais atenção para as flores. Olhar com atenção envolve, então, uma grande proximidade de quem as vê, pois só assim se consegue ter a perspectiva representada nos quadros de O'Keefe.


Conta a pintora, num dos livros que editou em 1976, que muita gente lhe "explicava" aquilo que ela pintava, como se ela própria não soubesse o que tinha feito -- e como se olhar para um quadro não fosse uma coisa pessoal, que desperta em cada um de nós uma coisa diferente porque todos nós somos diferentes e ninguém vê o que o outro vê. Ela não achava que tivesse pintado o sexo de alguém de carne e osso, tinha apenas pintado flores em ponto grande. Só que o que são as flores? São a parte da planta onde estão os órgãos sexuais das mesmas.

Ocorreu-me que, quando se oferece flores a alguém, está-se a aproximar alguém de uma flor, para que a pessoa a aprecie com mais atenção, o mesmo objectivo que O'Keefe revelou ter. Assim como alguns dão um significado sexual aos quadros de O'Keefe, também o podemos fazer ao acto de dar flores. Os mais atentos notarão que se inventou um código do significado das cores das flores, para não haver confusões; mas a verdade é que não deixamos de estar a oferecer o sexo das flores: o sítio onde frequentemente se produziriam os frutos e as sementes de novas plantas. Talvez oferecer flores seja uma espécie de oferta de esperança -- uma semente de amizade ou amor.

Ou talvez oferecer flores não seja sempre tão positivo: há uma componente de desolação, pois, tendo-se colhido as flores para se oferecer, não haverá vida a nascer das mesmas -- a maior parte das vezes. Mas há excepções: penso nos cravos, em que podemos criar nova vida dos caules, basta plantá-los, mas pode ser ilegal. (A reprodução das plantas e o seu enquadramento legal são coisas complicadas, que deixo ao vosso critério investigar, até porque a criação de flores já não depende dos métodos naturais.) Há até pessoas que preferem que lhes dêem plantas com raiz, em vez de ramos de flores.

Sei de cor e salteado, que os quadros de O'Keefe não são representações do sexo humano; mas, ontem, ao olhar para um dos quadros dela, que não tinha nada a ver com sexo, nem flores, o certo é que achei que parecia mesmo o corpo de uma mulher da cintura para baixo. Imaginem-se ajoelhados ao pé da cabeça de uma mulher nua, estando ela deitada, com as pernas dobradas. Olhem para a metade inferior da mulher e é isso o que me parece aquele quadro. (Pronto, agora com a moda da mulher toda rapadinha, já pode não parecer isso, mas que culpa tenho eu que vocês pensem em mulheres todas depiladas quando vos peço para imaginarem uma mulher nua?)

Penso então que, para mim, há algo nas composições de O'Keefe, na forma como utiliza a cor e traça as linhas, que é muito sensual.




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