segunda-feira, 22 de março de 2021

Version 3.321

Assisti na Quinta-feira a um webinário patrocinado pelo meu local de trabalho, que tinha como tópico as mulheres e a reforma. Desde já, saiba-se que sou uma pessoa muito obcecada com a minha reforma. Já ando a planear a coisa há uns 35 anos ou mais. Aliás, quando era miúda, uma das minhas actividades preferidas era contar dinheiro no mealheiro, o que não era muito sábio de manter, dado o nível de inflação que havia em Portugal.

Não aprendi grande coisa no seminário e até faço tudo o que a palestrante recomenda: maximizo as contribuições para o 401k, o que inclui dinheiro suficiente para assegurar a contribuição da empresa, tenho também um Roth IRA para diversificar a incidência de impostos; quando recebo bónus, opto por adiar a recepção de metade (máximo possível), maximizo a contribuição para a conta de poupança-saúde, e as minhas poupanças anuais andam à volta de 25% do meu rendimento. Até acedo à minha conta da Segurança Social americana, logo sei quais os benefícios que vou ter e os descontos que fiz. Claro que daqui até eu me reformar, aquilo entra em falência.

Dizia a senhora que nos deu o webinário, que a Segurança Social nos EUA foi criada de forma a apenas substituir 30% do nosso salário. Eu tenho a sorte, ou melhor, esforcei-me bastante para maximizar o meu salário, logo devo receber a reforma máxima dada. Se me reformar aos 70 anos será o equivalente a $3957/mês. Mas se for aos 67, já só recebo $3106. Mas posso sempre reformar-me antes, viver das minhas poupanças e só pedir a Segurança Social aos 70. Como não sei quantos anos vou viver, não tenho como decidir agora. Talvez quando chegar à idade de reforma dê para ter uma ideia melhor, dado o meu estado de saúde na altura. É um bocado doentio andar a pensar nestas coisas durante décadas, mas como é que vocês acham que eu vou manter a minha vida de rica? A minha expectativa é que não vai haver muito dinheiro na Segurança Social para a minha geração, logo não estou a contar com isso.

Passei parte do dia de hoje a ouvir o 45 Graus, em que foi entrevistada a minha colega de blogue, a Mafalda Pratas. Foi uma conversa muito interessante e deu para se perceber a complexidade dos EUA. Penso que não ficou muito clara uma coisa, que tem a ver com o papel do estado. Na Europa, há a presunção de que o estado é uma figura de bem; nos EUA, a sociedade é uma figura de bem, mas o estado pode muito bem acabar por ser uma figura de mal, pois os peregrinos fugiram a um estado que os perseguia e a fundação dos EUA é uma revolta contra um estado que explora a colónia. 

Está enraizada na cultura americana a ideia de que nem sempre o estado defende os nossos interesses. Todo esse medo foi explorado por Donald Trump ao distanciar-se do pântano que é o estado americano e ao apresentar-se como alguém de fora, alguém do povo que defenderia os interesses do povo. A exploração do medo para chegar ao poder é uma das formas mais antigas de se chegar ao poder e funciona tão bem nos EUA como funciona em outros países. Os americanos acham-se excepcionais, mas nem sempre o são.

Mas é engraçada a ideia que os americanos têm de si próprios, de que são uns coitados e de que há sempre alguém que se pode aproveitar deles. Toda a difusão de poder nos EUA serve para guardar contra esse risco. Alguém mal-intencionado pode sempre chegar ao poder, mas dificilmente terá poder por muito tempo ou conseguirá fazer tudo o que quer. Os EUA podem ter começado como uma colónia e um país pobre e agrário, mas precaveram-se contra déspotas. 

O primeiro processo de impugnação de Donald Trump foi mesmo sobre isso: o Presidente não tem poder absoluto, não está acima da lei, e tem de prestar contas. Pode ser absolvido politicamente, mas nada o protege para sempre das leis que governam a sociedade, do tal governo do povo e para o povo.


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