sexta-feira, 18 de março de 2016

Coisas elevadas

Hoje fui à rua a pé. Enquanto andava - pensando em coisas elevadas, claro - cruzei-me com um indivíduo que não conhecia de lado nenhum. O indivíduo aproximou a cara dele a um centímetro da minha e disse: que boa, ou qualquer coisa deste tipo. Alguns defensores do piropo dizem que são contra os piropos as mulheres que não costumam recebê-los, as feias, as das uvas amargas, que querem castigar as outras privando-as do privilégio de serem apreciadas pelos homens que passam, uns cavalheiros. Ora eu tenho o cabelo mais despenteado do que uma guerreira celta, não uso maquiagem nem tacões altos nem saias, sou uma caixa de óculos, as minhas unhas são uma vergonha, já tenho uns bons anos em cima e hoje vesti um casaco impermeável que comprei na secção de rapaz da Zara há anos e que me faz ainda mais quadrada do que os doze quilos que tenho a mais. Por falar na Zara, e para completar a descrição, as meninas que lá trabalham tendem a olhar-me de lado como um monstro infeminizável - hoje mereço inventar uma palavra - que não se percebe o que vai fazer à loja. Penso que isto é suficiente para tornar problemático o argumento das feias com dor de cotovelo. Lembro-me que desde pequena tendo a olhar para o chão quando me cruzo com os homens que andam sozinhos na rua. Tenho ouvido o suficiente para sentir algum medo antecipando o que o piropeiro me faria se a rua estivesse deserta. Que as pessoas digam às outras coisas simpáticas, é, concordo, simpático. Mas não quando vem de um estranho que se sente no direito de me dizer o que lhe vai na cabeça. Não tenho nada a ver com isso, e não estou interessada em ter. Dos amigos e amigas recebo com prazer observações simpáticas. Também as faço, e não apenas às amigas. Não é assim tão difícil perceber quando se trata de pessoas com quem temos uma relação próxima se elas gostam de ouvir essas coisas ou não. Mas de estranhos não quero saber o que pensam sobre o meu aspecto ou disponibilidade. Menos ainda quando me ameaçam com as suas prometidas proezas sexuais. Quero andar na rua despreocupada a pensar em coisas, claro, elevadas.

27 comentários:

  1. Eu era assim, também me escondia das pessoas quando andava na rua. Agora já não sou e tenho uma atitude diferente. É mais provável andar a leste e não ligar nenhuma a quem passa, mas ter uma atitude que resguarda o meu espaço pessoal. Acho que o problema também é a nossa linguagem corporal. Os homens mais agressivos topam uma mulher que se sente menos à vontade e sabem que a ela podem dizer algo e ela não os ataca. Enquanto pensas em coisas elevadas, tens de ter uma postura mais "In your face, motherfucker!" para te deixarem em paz. A sério, os meus amigos em Portugal até gozam comigo agora por causa do meu à vontade. Não há fome que não dê em fartura, como diz o povo.

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  2. Tens toda a razão, Rita: "in your face, motherfucker!" é a atitude a ter. Vou treinar. O meu problema é ficar sempre ainda espantada com coisas destas. É como cuspir na rua, e nesta aldeia pascal cheia de panos roxos acontece muito e ainda me espanta.

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  3. Estou com a Rita, e não abro. :)
    Nunca me lembraria de me classificar como feia (era o que mais faltava!) (mesmo quando ando por aí despenteada e vestida de "princesa alemã") e também odeio piropos. Entretanto, decidi que não preciso de ter medo, e que tenho de erguer a voz em nome de todas as mulheres que não gostam de piropos. Da próxima vez que ouvirem alguém na rua a armar banzé, aos gritos "olhe lá, só porque a sua mãe gosta que lhe façam isso na rua, não é caso para pensar que todas as senhoras gostam!", sou eu.

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    1. :-D Também estou com a Rita, ainda que na prática, por feitio, fique mais espantada do que outra coisa, e perco a oportunidade do in your face, motherfucker imediato. Vou treinar o de Niro " are you talking to me?", parece-me bom. Traduzido para minhoto, claro: "tás a falar pra mim, seu filho da p***?" Ou "f*** c**** qué que foi?" Aqui o português é especialmente colorido.

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    2. És minhota?
      Ena, ena!
      Uma conhecida minha, em nova, gritava-lhes: vai levar no cu, cabrão!
      Mas às vezes corre mal.
      Há tempos tive uma cena parecida aqui em Berlim. Três adolescentes de uma cultura mais machista olharam para mim com ar de quem vai atacar. Podia ter mudado de passeio, mas achei melhor defender o meu território sem titubear. Um deles fez de conta que me apalpava. Não me tocou, mas eu parei a olhar para eles com cara de muitos poucos amigos, ar de "quéssamerda?!!!". Eles não esperavam isso. Por uns momentos ficaram indecisos, a pensar se me batiam ou quê, e a seguir baixaram a bolinha e continuaram caminho.

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    3. Não sou minhota, mas passo a semana no Minho. "Quéssamerda!?!?!" é muito bom.

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  4. Confesso que tenho fantasias de chegar ao pé dos senhores do piropo ou dos avanços verbais e dizer-lhes "Mostre lá o seu material para ver se também é bom.". Mas, ultimamente, ninguém me interpela na rua em Portugal e ainda não consegui concretizar a minha fantasia. A ver se uso umas camisolas mais decotadas da próxima vez que aí for...

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    1. Não me digas que te queres pôr a jeito?! ;)

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    2. Mas eu estive no Minho das últimas duas vezes que aí estive e não me aconteceu nada. Devem topar que eu vivo no Texas e afastam-se. Então agora com as maluqueiras do Donald, toda a gente tem medo dos americanos. Lá se vai desperdiçar a minha fantasia...

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    3. Helena, eu estou sempre a jeito para ser seduzida inteligentemente. E estou a jeito para mandar umas bocas parvas, se for preciso. No outro dia perguntaram-me pelo Facebook se eu era jovem e estava em idade de parir; subsequentemente, perguntei ao cavalheiro se me achava com cara de vaca para ser emprenhada. Ele ficou ofendido e as nossas conversas tiveram uma morte rápida.

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    4. hahaha
      Rita, confessa lá: numa encarnação anterior eras minhota! :)

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    5. Se calhar, era mesmo minhota. Tenho de fazer uma análise de ADN para ver de onde é que eu vim (para além de África, claro). Mas sei que, para além de antecedentes portugueses, também tenho um bocadinho de italiano (da época do Napoleão), e judeu espanhol (da época da Inquisição espanhola, mas não sei ao certo a data).

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  5. eu penso que criminalizar tudo o que nos incomoda ou faz medo não é propriamente uma boa solução. interfere demasiado com a liberdade do indivíduo.

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    1. Pois é! Este Estado totalitarista!
      Proíbem tudo e mais um par de botas: excesso de velocidade, furtos, difamações, violações, fuga aos impostos, deitar fogo às casas dos outros, exibir os genitais no espaço público, cartas anónimas, o casamento entre irmãos ou entre pais e filhos, ...
      É horrível viver numa sociedade assim, uma pessoa sente-se permanentemente limitada na sua liberdade.
      ;)
      Por mim, era acabar com o código civil e o código penal. Viva a liberdade!

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    2. Ah, bem me parecia que eu estava a ver mal, a minha liberdade é que não interessa nada. Coitadinho do indivíduo que já nem pode piropar à vontade.

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    3. em que é que ouvir um piropo interfere com a sua liberdade?

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    4. Porque é que alguém tem o direito de piropar outra pessoa? Porque é que a pessoa não tem o direito de ir na rua descansada e não ser incomodada por ninguém?

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  6. Helena, não te esqueças do cuspir na rua, que é um direito natural fundado na fisiologia.

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    1. Quais cuspir? Escarrar!
      Puxá-lo bem puxadinho, enrolá-lo com a língua, atirá-lo (verde e gordo) para o mais longe possível - de preferência sem me preocupar se alguém está a passar e se vai levar com ele na cara.
      Olhai os passarinhos dos campos: se eles nos podem cagar em cima, eu, que não sou menos que eles, também posso escarrar para onde me apetecer.

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    2. Este comentário foi removido pelo autor.

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    3. Não são só o cuspir e o escarrar, as caracteristicas fisiologicas do macho.
      Tuga que é tuga, arrota alto e coça exuberantemente os genitais. Aliás particularidades comuns àos símios que habitam o zoológico em Sete Rios.
      Mas e ainda, comentando o post: Passou-lhe pela cabeça - dado que se avalia a sua imagem de forma tão fora dos padrões sociais de beleza e uma vez que o piropeiro apróximou o rosto a um centímetro do seu - que o dito piropeiro fosse cego... ou quase?

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    4. O piropeiro não era cego; a Alexandra é que caricaturou a sua aparência física. Olha, olha, uma mulher de cabelo claro e selvagem, bela estrutura óssea facial, a pensar em coisas elevadas... Não há piropeiro que resista. Até é uma competição desleal!

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    5. Seja qual for a circunstância, é sempre uma "competição especial". Basta que atentemos nas evidências... do piropo, por mais elaborado e requintado, resulta sempre um esforço inglório e um resultado nulo.

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  7. Este comentário foi removido pelo autor.

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  8. O que diferencia, para melhor, este trecho dos que foram divulgados por algumas outras figuras públicas está na frase que descreve o roubo de espaço, seja ele o de um cm de medida física ou um centímetro de medida mental: "O indivíduo aproximou a cara dele a um centímetro da minha".

    "Quero andar na rua despreocupada"
    - Obviamente. Quem percebeu, percebeu, quem não percebeu, tivesse percebido.

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