segunda-feira, 21 de março de 2016

Era bom que trocássemos umas ideias sobre o assunto

Doris Lessing escreveu algures que não terá sido uma coincidência o politicamente correcto ter surgido após a derrocada do comunismo. Muitos progressistas, activistas e pacifistas (zarolhos, porque só viam o perigo do “imperialismo americano”) viveram décadas a pregar “os amanhãs que cantam". Só caíram na real quando o muro de Berlim lhes caiu literalmente em cima da cabeça e o admirável mundo comunista ficou à vista de todos. Deixou então de ser possível continuar a atribuir à propaganda reccionária do ocidente as histórias que ouvíamos sobre o gulag, as filas intermináveis nos supermercados dos países comunistas, as fugas para o lado de cá. Lembro-me de no liceu uma professora de geografia me ter dito com ar muito sério que, infelizmente, ninguém falava dos milhares que tentavam fugir do ocidente para os países comunistas. A cegueira ideológica tem destas coisas.
Muitos dos “progressistas” eram idiotas úteis, como lhes chamaria Lenine, um dos santinhos adorados durante décadas por parte da esquerda. Outros eram uns aldrabões, que só viam o que lhes interessava. Na verdade, desde a década de 30 que era difícil ignorar e desconhecer as atrocidades cometidas por Estaline.
No início dos anos 90, esta gente viu-se de repente órfã. Caído em descrédito o “socialismo científico”, era necessário arranjar outra maneira de continuar a instruir e a iluminar as massas ignaras e reacionárias – curiosamente, essas massas ignaras e reacionárias perceberam primeiro que a maioria dos intelectuais de esquerda o resultado do comunismo. É este o ponto de Doris Lessing, evocada acima. É neste contexto que surge o chamado “politicamente correcto”. Uma moda que nasceu nos EUA e foi alastrando pelo resto do ocidente, sempre sob a capa das boas intenções – e não duvido de que em muitos casos houve de facto boas intenções.
Desde então, as brigadas do politicamente correcto, espalhadas pelo espaço público, vergastam o menor desvio em relação ao que elas entendem ser o correto. Quem questionar essas “verdades” sujeita-se a ser enxovalhado ou crucificado nos tribunais públicos. E ninguém quer ser rotulado de reacionário ou troglodita. Estes novos sacerdotes dos tempos modernos pedem a criminalização de tudo o que os incomoda e, quando tal não é possível, recorrem ao velho truque de substituir as palavras, criando uma novilíngua como lhe chamou George Orwell. Já não há cegos, há invisuais, etc., etc. É uma ilusão pensar que se pode mudar a realidade mudando as palavras. No último “governo sombra”, o Ricardo Araújo Pereira dizia que recusar apertar a mão a um negro é racismo; mas dizer que não se deve fazer uma piada sobre alguém porque é negro é apenas racismo disfarçado de anti-racismo - quem diz negro diz muçulmano, por exemplo.
Há anos vi um documentário muito interessante sobre Norman Mailer, um liberal (no sentido americano) que, com o tempo, percebeu que o politicamente correcto é uma tirania travestida de modernidade. Dizia o autor americano que, muitas vezes, o máximo que podemos fazer é convidar os outros a considerarem a possibilidade de ver a realidade a partir de outro ângulo. “Era bom que trocássemos umas ideias sobre o assunto”, como diria o Mário de Carvalho. Querer mudar as pessoas sob coacção pode ser altamente insensato e contraproducente.
Verdade que muitos “reaccionários”, à cautela, podem calar as suas indignações e fúrias por longos períodos de tempo. Todavia, isso não significa que se deixem convencer pelos ditames do politicamente correcto. Esta massa silenciosa de indivíduos não aparece nos media. E o que não se conta nos media é como se não existisse, ou melhor, as suas possibilidades de fazer parte da “realidade percebida” são reduzidas. Quem confundir o mundo com o retrato do mundo pintado pelos media corre assim o risco de um dia, para seu espanto, se ver rodeado pelas hordas de recalcitrantes ou “reaccionários” que por aí pululam.
Sigmund Freud, um pessimista pouco amado pelos seus contemporâneos, avisou que a nossa cultura, a nossa civilização, é apenas uma fina camada em risco de ser perfurada, a qualquer momento, pelas forças destrutivas do mundo subterrâneo. Tarde ou cedo, essas forças subterrâneas explodem e a explosão será tanto maior quanto maior tiver sido a pressão a que foram sujeitas. Quanto maior é a submissão ou pressão, maior e mais violenta será depois a revolta ou explosão. 

25 comentários:

  1. Eis um artigo que não posso deixar de aplaudir de pé e de forma muito enfática. Para salientar essa ênfase, além dum sonoro BRAVÔ!!!, uso a famosa, bizarra e caricata expressão atribuida ao Almirante Américo Thomaz: Só tenho um adjectivo. GOSTEI!

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    1. Quem agradece sou eu. Deu-me realmente muito prazer ler este artigo e identifiquei-me bastante com o que escreveu. Como já terá percebido faço parte daqueles a que no seu escrito chama "reaccionários". Em tempos fui dos calados. Só que já ia tendo que calar tanta coisa que pouco faltava para mais me valer fazer voto de silêncio. A dada altura cansei-me e como já não tenho propriamente idade para ter que preocupar-me com o que os demais pensam digo o que me apetece. Há por aí uns quantos censores que ficam muito horrorizados e resmungam. Por mim que resmunguem quanto quiserem. Problema deles.

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  2. Pelo menos a palavra "politicamente correto" começou a entrar no mainstream no final dos anos 80, creio que ainda antes da queda do comunismo (em 1985 foi publicado um anúncio a uma cadeira politicamente correta fabricada por uma cooperativa de trabalhadores na América Central, mas admito que isso é uma referencia demasiado obscura); o artigo que a Newsweek publicou sobre o politicamente correcto é de dezembro de 1990 e o da New Yorker de janeiro de 91 - é verdade que isso é logo a seguir à queda dos regimes comunistas da Europa de Leste, mas é tão logo a seguir que me parece dificil estabelecer uma relação causa-efeito (o tempo que demora entre um acontecimento produzir um movimento social, e mais o tempo que depois demora até esse movimento social dar origem a artigos na grande imprensa não costuma ser 13 meses).

    Claro que se formos falar, não do nome, mas do conteúdo, a coisa é diferente, mas aí o problema é que "politicamente correto" tem dois sentidos, que até são historicamente contraditórios:

    a) por um lado, se definirmos "politicamente correto" como conjunto de ideias, atitudes, valores, etc. que são dominantes numa dada sociedade, sujeitando ao ostracismo social quem saia da linha, o politicamente correto existe há milénios, e provavelmente vivemos numa das épocas menos politicamente corretas que já existiram - e se calhar os anos 90 (a tal década logo a seguir ao colapso do comunismo) até foi a altura menos politicamente correta da História, já que foi uma altura em que o peso dos "conservadores" já era suficientemente fraco mas o dos "progessistas" ainda não era suficientemente forte, logo tanto opiniões "conservadores" como "progressistas" podiam ser expressas sem provocar uma indignação generalizada, com toda a gente a acusar o "dissidente" de "troglodita intolerante" ou de "depravado moral" (veja-se que nessa altura tanto um filme sobre um homossexual infetado com HIV - "Filadélfia" - como um sobre um transexual assassino em série - "O Silêncio dos Inocentes" - puderam ser feitos sem causar escândalo; uns anos antes - no caso de "Filadélia" - ou depois - no caso de "O Silencio dos Inocentes - não me parece seguro que os filmes fossem tão pacificos)

    b) por outro lado, "politicamente correto" também costuma ser usado para designar a "esquerda cultural" - a ideologia do feminismo/anti-racismo/anti-"heteronormatividade"/anti-etc.; ou seja, exatamente aqui que era politicamente incorreto durante para aí 99% da História (por isso é que digo que os dois significados, em termos históricos, são contraditórios). Realmente este segundo sentido, depois de uma popularidade inicial nos anos 60/70 e de um aparente refluxo (mais retórico do que real) nos anos 80, começou a ganhar força nos anos 90. No entanto, o problema que vejo em atribuir isso à queda do comunismo é que o maior entusiasmo por essas causas vinha sobretudo das franjas mais anti-URSS da esquerda radical (em Portugal sobretudo dos trotskistas; noutros países também muito de um ecologismo romantico anti-sociedade industrial, fosse ela ocidental ou "de Leste"), que seriam exatamente os que menos necessidade teriam de se reciclar com a queda do comunismo - pelo contrário os comunistas ortodoxos nem se viraram muito para esses temas (se o mecanismo fosse terem tido necessidade da arranjar novas causas, o processo teria sido exatamente o oposto, suponho: os comunistas ortodoxos teriam adotado a ideologia da "esquerda cultural", enquanto trotskistas teriam permanecido a distribuir à porta das fábricas panfletos "pela revolução internacional dos trabalhadores contra os capitalistas do ocidente e os burocratas de leste")

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    1. Obrigado, Miguel, pelo comentário e pelo excelente enquadramento histórico. Sim, tens razão, num certo sentido, todas as épocas têm o seu politicamente correcto, uma vez que existe sempre um conjunto de valores, crenças e normas dominantes e quem não as segue geralmente paga um preço - Sócrates foi condenado à morte sob a acusação de lançar dúvidas sobre as crenças fundamentais de Atenas. Mas há épocas e sociedades mais tolerantes do que outras, em que o indivíduo tem mais liberdade nas suas escolhas, em que o Estado não se mete a legislar sobre tudo e mais alguma coisa, entrando inclusive dentro das casas e da vida privada das pessoas. O politicamente correcto de que falo tem mais a ver com o segundo sentido. Sim, defender uma relação de causa-efeito entre o colapso do comunismo e a ascensão do politicamente correcto é capaz de ser excessivo. Diria apenas que há uma correlação. Também é verdade que todas as épocas tiveram os seus zelotas, muitas vezes convencidos que estavam investidos de uma missão importante que visava salvar o mundo e os outros. Era com certeza esse o espírito de muitos dos inquisidores da igreja católica, apostólica, romana e, já agora, de muitos protestantes, que, em termos de zelo, nunca foram mais brandos do que os católicos - por vezes, foram até bastante mais duros e severos.

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    2. Já agora, se calhar convinha também distinguir entre "sociedades mais tolerantes" e "Estado [que] não se mete a legislar sobre tudo e mais alguma coisa, entrando inclusive dentro das casas e da vida privada das pessoas" - por vezes a intolerância social pode estar associada a posições bastante "liberais" do ponto de vista estritamente legal (e nesse ponto talvez conservadores nos costumes defensores do estado mínimo, por um lado, e defensores da imigração ilimitada e do casamento homossexual que se envolvem em campanhas de assédio público contra que tenha o azar de expor alguma opinião "racista", "xenófoba" ou "homofóbica", por outro, talvez tenham mais em comum do que possa parecer).

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  3. Este tema não é novo. Em 2005 o Pacheco Pereira foi arauto maior no combate ao "políticamente correcto". Na altura escrevi: "Politicamente correcto" é, desde que Pacheco Pereira assim o definiu também em Portugal, o palavrão que denomina a reprodução acéfala da ideologia dominante, a observação - e exigência de observação - do seu código de conduta, por nenhuma razão melhor do que o conformismo.
    Mas a acusação de "politicamente correcto" passou entretanto a ser a arma predilecta e de uso mais fácil para quem defende uma posição minoritária - ou até maioritária mas divergente da ideologia dominante - e que quer contra-atacar sem se dar ao trabalho de desenvolver uma argumentação no conteúdo.
    Ignora-se deliberadamente - ou pior: inconscientemente -, que o depreciativo no termo só pode advir da estupidez, da origem preguiçosa, cobarde e conformista da posição atacada, e não do facto de ela ser dominante, o que confere à acusação do "politicamente correcto" as características principais daquilo que ela pretende flagelar.

    O "politicamente correcto" que surgiu nos anos '80 é uma campanha - bem sucedida - de modificar a linguagem e assim a nossa forma de pensar. Agora, considerar, a partida, uma perversão da linguagem e do pensamento, ignora que não existe uma linguagem ideologicamente neutra. Denunciar a intenção de substituir certas palavras e expressões como tentativa de estabelecer um "newspear" orwelliano é, na melhor das hipóteses ingénuo, na pior, pura má-fé. Palavras não são apenas denominativas, mas também valorativas. Não há mal nenhum em que o PC varreu termos como "preto" ou "paneleiro" do discurso cvilizado.

    Lutz Brückelmann

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    1. Não me lembro de "paneleiro" alguma vez ter feito parte do discurso civilizado, Herr Brückelman, a não ser com o significado de fabricante de utensílios de cozinha.

      Já "preto", depende do contexto geográfico: nos EUA, o termo "black" é perfeitamente aceitável, pese embora a prevalência recente do neologismo PC "African-American".

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    2. Alexandre, tenho a mesma ideia. Paneleiro nunca foi um termo usado entre pessoas com educação nem sendo preciso polimento. Mas sempre se disse cego, deficiente, sopeira, criada, motorista, hospedeira e outras coisas do género que hoje em dia se alguém diz, Ai Jesus!, que é um boçal cavernícola, rude e mal-educado. E isto é ficar muito pela rama. Aprofundando um bocadinho, a ciência, nos tempos modernos, sempre viveu livremente e permitiu-nos aprofundar o conhecimento que temos melhorando a nossa qualidade de vida. Hoje em dia há coisas que simplesmente não podem investigar-se e algum cientista que se lembre de o fazer a expensas próprias tem a vida muito difícil para publicar resultados ou, directamente, não consegue faze-lo. Não se podem investigar questões relacionadas com os diferentes sexos ou opções sexuais, entre raças, entre origens geográficas, por exemplo, nem ao nivel biológico mas, principalmente, psicológico. Isso é uma heresia, segundo os do politicamente correcto que dizem que somos todos iguais. E, já que falamos em termos de sermos todos iguais, é virtualmente impossivel hoje em dia investigar com pés e cabeça a sociedade e a sua estratificação. Mesmo a história sofre horrores às mãos do politicamente correcto e os poucos que saem dos canones académicos do que é a boa história, por muito que justifiquem e expliquem o que escrevem, são fulminados. Em Espanha já se chegaram até a fazer coloquios anti certos historiadores pelo menos em duas universidades, imagine-se! As universidades que eram locais para troca civilizada de ideias e onde o objectivo era a aprendizagem mútua convertidas em feudos do politicamente correcto. Em termos ambientais, tudo o que saia dos cânones da ditadura dos passarinhos é, também, enxovalhado sem perdão. As ciências criminais sofrem tremendamente às mãos do politicamente correcto dado hoje em dia não poderem segmentar-se os criminosos em ordem a uma série de factores começando logo pela raça mas indo muito além disso até nem se poder segmentar por local de residência em escala fina. Sem essa segmentação perde-se uma ferramenta, o profiling, que permite melhorar largamente a eficiencia do combate à criminalidade poupando milhões ao erário público. E, certamente, poderia estar aqui o resto do dia perorando sobre os malefícios que o politicamente correcto tem trazido às sociedades ocidentais.

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    3. Plenamente de acordo, caro Züricher (boa terra!). Uma vizinha dos autores do atentado de San Bernardino, disse que tinha notado várias movimentações estranhas na casa deles, mas que não participou às autoridades por medo de ser acusada de "islamofobia".

      Enfim, estamos entregues à bicaharada! (oops, que isto deve ser altamento incorrecto!).

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    4. No Norte de Inglaterra acabou por ter se ser a polícia a dar formação sobre isso - que não era crime, nem reprovável, participar os crimes contra crianças, alguns deles cometidos por maometanos. E, já agora, a acção da polícia resultou de ter recebido estudos académicos, cujo trabalho de campo era concludente. E se, a seguir, passássemos por um tribunal sueco e por um tribunal australiano, a propósito de violações colectivas, veríamos mais do mesmo, em maior escala, com uma diferença - as sentenças tiveram linguagem politicamente correcta mas as condenações tiveram a medida certa (os advogados de defesa criticaram a moderação da linguagem, mas concordaram com a medida das penas). Quanto à moderação de linguagem, que veio a ser considerada justificada, os factos subjecentes não merecem mesmo publicidade, a não ser em formação destinada a tanto.

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    5. Isidro, não é tanto pela penalização de crimes específicos que fui mas mais pela prevenção e, sobretudo, pela detecção de criminosos. Exemplo: se após devidamente estudado o assunto se concluir que existe uma probabilidade de 0,0003% de uma simpática velhinha acima dos 80 anos ser uma foragida da justiça e uma probabilidade de 4% de um jovem entre os 18 e os 25 anos, negro e residente num bairro manhoso dos suburbios ser um foragido da justiça então, se calhar, não vale a pena perder tempo e gastar recursos a identificar velhinhas na rua mas vale a pena, sim, usar esses recursos a identificar jovens, negros, entre 18 e 25 anos. Só que isto não pode fazer-se. Chama-se profiling e é, aliás, ilegal em várias jurisdições.

      Num registo mais doméstico, há 15-17 anos, o Relatório Anual de Segurança Interna fazia a discriminação estatística dos crimes segundo a raça do criminoso e vários outros aspectos. Hoje em dia já não aparece muito do tratamento estatístico que havia.

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    6. Isidro Dias, depois de escrever o comentário anterior recordei-me dum episódio, este real, passado em Madrid há uns 2-3 anos. Foram dadas instruções aos agentes da Polícia Nacional para interceptar estrangeiros ilegais em Espanha havendo até um quantitativo que os agentes deveriam cumprir. Ora, como é evidente, de nada lhes valia ir identificar gente para a Calle Serrano ou para Conde de Orgaz portanto fizeram o óbvio, fizeram acções fortes em Lavapiés e Tetuan, sítios com conhecidissima concentração de estrangeiros ilegais. Eu diria que era o crasso, claro e óbvio a fazer, ir procurar criminosos onde eles mais se encontram. Pois, não, para os adeptos do politicamente correcto não. Para além do escândalo do quantitativo mínimo de ilegais detidos, foi uma escandaleira pegada muito maior por a Polícia Nacional estar a focar os seus esforços em Lavapiés e Tetuan. Por fim a coisa foi toda desmantelada e acabou-se com o assunto.

      Ou seja, uma coisa que estava a funcionar bem e a ter efeitos positivos foi atirada pelo chão porque isto de focar os esforços da autoridade num sítio específico para apanhar criminosos frequentadores desse sítio específico, pelos vistos vai contra a sensibilidade dos censores.

      Eu, por mim, tinha-os mandado todos "a freír espárragos" como se diz em bom Castelhano.

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  4. Um livro muito interessante acerca do fenómeno.

    https://en.wikipedia.org/wiki/The_Closing_of_the_American_Mind

    No contexto actual, "politicamente correcto" tem um sentido depreciativo, claro.

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  5. Já agora, também um artigo sobre o assunto (que eu plagiei em parte no meu primeiro comentário):

    http://reason.com/blog/2015/01/30/what-the-hell-does-politically-correct-m

    A respeito do livro do Allan Bloom - que penso ser o que foi publicado em Portugal com o titulo de "A Cultura Inculta", e que eu ainda li umas páginas numa livraria; pela leitura dessas 2 ou 3 páginas (que me tornam especialmente qualificado para analisar a tese do livro), por uma critica que li, e também pelos elogios que a minha explicadora de inglês do 10º ano fez ao livro, a impressão que me dá do livro é que o seu autor era daqueles anti-politicamente correto que no fundo não tem qualquer problema com a ideia de existir um "politicamente correto" (e, se alguma coisa, até achava que o mal da sociedade norte-americana até era excessivo subjetivismo, relativismo e falta de um conjunto de valores comuns), apenas discordava do conteúdo concreto do "politicamente correto" atual (ou o de 1987, mas imagino que ele achasse o atual ainda pior).

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    1. Esse livro do Allan Bloom foi marcante para mim. Li-o na faculdade na mesma altura que tinha como professor o Boaventura Sousa Santos (sem dúvida, um homem muito inteligente e carismático) e digamos que me serviu de antídoto a algumas das teses do grande sociólogo português.

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    2. Será que o bem-aventurado Professor Santos algum dia leu Allan Bloom?

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    3. Por acaso, leu pelo menos este, porque me lembro de um texto qualquer do BSS no qual é referido o livro do Bloom e, se bem me lembro, e para minha surpresa, não era referido em tom crítico.

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  6. O que é o "Politicamente Correcto"? Pareceu-me que, neste artigo, não está delimitado e, sendo um assunto de estimação do seu autor, acredito que está prevenido para completar.

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    1. Não sei o que é que o autor vai responder. Mas, para mim, uma condição sine qua non para classificar qualquer coisa de politicamente correcta é o primado da forma sobre o conteúdo. Por exemplo, como bem dizia o Carlos Duarte algures numa discussão sobre meninos e meninas, o problema não é haver brinquedos e roupas ditos para meninos e brinquedos e roupas ditos para meninas mas sim o facto de um menino se envergonhar de brincar ou se vestir como uma menina (hoje em dia, não me parece que o contrário seja verdadeiro, o que significa que, tacitamente, ser menino é melhor que ser menina). Para varrer esse problema para debaixo do tapete, passa-se ao unisexo.
      Penso eu de que.

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    2. Caro Isidro Dias, não sou nenhum especialista no assunto - aliás, não sou especialista em coisa nenhuma, sou apenas alguém com curiosidade intelectual. Em relação à sua questão. O Miguel fez o favor de tentar delimitar o conceito, o Zuricher deu vários exemplos e o Lutz Brückelmann até deu uma definição a que não tenho nada a opor: "O "politicamente correcto" que surgiu nos anos '80 é uma campanha - bem sucedida - de modificar a linguagem e assim a nossa forma de pensar." De facto, modificar a forma de pensar, ou melhor, acabar com o pensamento era o principal objectivo da novilíngua descrita por Orwell no "mil novecentos e oitenta e quatro". Um vocabulário cada vez mais reduzido, no qual eram eliminadas ou substituídas "palavras indesejáveis" como "livre pensamento"; "mau" dava lugar a "imbom", escuro a "inclaro", etc.. Como diz o Miguel Madeira, num certo sentido sempre existiu o "politicamente correcto" em todas as épocas, se o entendermos como conjunto de valores dominantes. O que me parece inaudito nestes últimos 20 ou 30 anos é a obsessão com a linguagem, o estilo persecutório e de intimidação em relação aos infractores, aos que se afastam daquilo que alguns entendem ser o correcto. É claro que, como eu disse antes, há também boas intenções à mistura e, em parte, o politicamente correcto foi nutrido pela negligência de valores culturais e históricos e pela ignorância do contributo das minorias. Penso que a Doris Lessing tem alguma razão. Muitas destas causas foram assumidas pelos órfãos do comunismo e o "politicamente correcto" acabou numa tirania intelectual, num travesti de argumentação responsável, como lhe chamou também o George Steiner.

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    3. Obrigado. Fiquei com referências para dar mais um passo.

      "MODIFICAR A LINGUAGEM E ASSIM A NOSSA FORMA DE PENSAR"
      - Num documento da ONU sobre a catalogação de doenças salientou-se a importância de evitar rotular as pessoas com base em características peculiares, porque isso as limitaria de modo gratuito. Por exemplo foi recomendado aos legisladores que evitassem o termo "deficiente", porque denomina uma pessoa e não uma característica da sua situação de saúde. Em Portugal isto teve consequências nas apólices dos seguros de saúde. Teve também outro tipo de consequências entre os intérpretes vocacionados para serem pequenos ditadores, mas isso é de outra área. Neste passo, e regressando à ONU, dizia o documento que as mudanças de linguagem visavam ajudar a mudar atitudes, o que teria de ser conseguido com meios suplementares, para além do "saneamento de termos". Ainda assim, parece existir um pouco de sucesso no uso da Programação Neurolinguistica em certos tipos de formação avançada. No meu conhecimento actual é por causa da maneira como é aplicada e não por ela mesma, e isso é mais complicado que o que parece.

      "A OBSESSÃO com a linguagem, o estilo PERSECUTÓRIO e de INTIMIDAÇÃO em relação aos infractores, aos que se afastam daquilo que alguns entendem ser o correcto"
      - Não deixo passar esse tipo de tentativas, porque, mais que mentirem, alteram os factos.

      "O politicamente correcto foi nutrido pela NEGLIGÊNCIA de valores culturais e históricos e pela IGNORÂNCIA do contributo das minorias"
      - Exacto. É do pós-modernismo e, antes de mais, da preguiça, como secar o ramo de uma árvore, que é o que aquela filosofia tem feito às ciências. Que saudades da "Filosofia Natural"!

      "MUITAS destas causas foram assumidas pelos órfãos do comunismo"
      - É possível que sim, e mais por falta de ciência no quotidiano que pelas suas ideologias.

      "TIRANIA intelectual, num travesti de argumentação responsável"
      - Sim. Simples tiranetes, e abomináveis contra quem a melhoria dos argumentos nunca é suficiente. Só a exposição de outros caminhos nos ajuda um pouco, e apenas perante os que querem ser ajudados. São uma praga...

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  7. A propósito poderia também ser nomeado Chesterton ou I. Kristol como percursores no combate ao mainstream intelectual (que será sempre a fonte do politicamente correcto em determinada época histórica - no fundo, a linguagem como triunfo ideológico) representado fundamentalmente pelo marxismo e pela contra cultura libertária.

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    1. Boa síntese: "a linguagem como triunfo ideológico"

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