domingo, 6 de março de 2016

o retrato do presidente

Num último esforço (diria: quase póstumo) de pedagogia, Cavaco Silva escolheu Carlos Barahona Possollo para pintar o seu retrato como presidente. "Deixe-se lá dessas modernices amalucadas, que eu bem sei que não há rapazes maus", ter-lhe-á dito, "e pinte-me antes uma natureza morta". 

Meu dito, meu feito. O artista podia ter-se atrevido a mais. Podia inspirar-se no retrato do Gerhard Schröder feito por Jörg Immendorff, com o chanceler rodeado por macacos e teias de aranha - as teias de aranha podiam ficar, trocava os macacos por vaquinha e cagarras, ficava um retrato muito catita. 

(fonte: Welt)


Ou podia, em homenagem ao recuperado "dia da raça" (sim, esta ficou-me atravessada para sempre) retomar a estética triunfante da Leni Riefenstahl (aposto que o Cavaco Silva ia gostar de tão castiço retrato). 

(fonte: faheykleingallery


Mas não. Em vez disso compõe um presidente amarrado à Constituição, com a bandeira da República a fazer as vezes do leão nas imagens da Santa Eufémia. Um presidente emparedado vivo entre os limites democráticos. 

(fonte: Expresso)

Já a história de ter mandado fazer dois retratos para escolher um deixa-me uma sensação dolorosa de um presidente que vive acima das possibilidades dos portugueses. Desde que o vi a mandar uma mensagem de Natal com um cenário de vários pinheirinhos de Natal, todos enormes e sobrecarregados de tralha, suspeito que pensa que é a reencarnação do D. João V. 

Segundo a tradição, a mando d'El- Rei o Marquês de Abrantes procurou informar-se do preço de um carrilhão tendo-lhe sido indicado o valor de 400.000$00 réis, quantia tida como demasiado elevada para um país tão pequeno. Ao que D. João V, ofendido - era o monarca mais rico do seu tempo - terá respondido: “Não supunha que fosse tão barato; quero dois!” Assim, foi executado em Liége, nas oficinas de Nicolau Levache, o carrilhão da torre norte e, em Antuérpia, na fundição de Willem Witlockx, o da torre sul. 

16 comentários:

  1. É magnífica a colagem de Cavaco ao monarca D. João V, pai de D. José I.
    Cavaco Silva deu todos os sinais de se considerar um monarca, apesar de ter jurado uma constituição republicana. Mas a sua ação(?) política em muito se aproximou desse imaginário. E não só, também as circunstâncias coincidiram de alguam forma. Se D. João V teve as riquezas do Brasil, Cavaco teve as da UE, que durante um periodo relativamente longo fizeram Portugal imaginar-se de novo, o país mais rico do mundo. Até a foto publicada se aproxima em pormenores à do ministro de D. José I, após o terramoto. A diferença (aparente) reside nos simbolos, enquanto que o ministro polipotenciário fez representarcerdado de simbolos maçonicos, rosacrucianos e iluministas, Cavaco prefere uma outra subjectividade... uma enigmática constiuição de uma república que ele nunca percebeu que coisa fosse ao certo.

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  2. É impressionante como eu acerto sem saber quando escrevo posts ao domingo de manhã... ;)

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    1. Não haverá por aí um "piquinho" de vidência embrionária?!

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  3. O que um simples retrato faz! Por que será que me parece que, qualquer que fosse o retratista ou o quadro pintado, o Cavaco estaria a ser criticado e, provavelmente, pelas mesmas pessoas e com argumentos eventualmente opostos? O "bandwagon effect" é danado, não há quem não queira ser lido, ouvido ou "ouvisto" (se for na TV) a dar pancada no homem.

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    1. Sim, tem toda a razão, todos os pretextos são bons para falar mal do Cavaco.
      O retrato também me parece um motivo tão bom como qualquer outro.

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  4. mmpf, boa pergunta: porque será que lhe parece que, qualquer que fosse o retratista ou o quadro pintado, o Cavaco estaria a ser criticado? Porque é que conclui que se trata de um "bandwagon effect"? Parece-lhe então que o Cavaco é criticado injustamente, e que quem o critica está a entrar acefala e bovinamente numa moda de mal-dizer?
    Tomara eu criar um "bandwagon effect" a propósito daquele "dia da raça". É inacreditável que um presidente português diga uma enormidade daquelas no séc. XXI, e continue a ser presidente de um país democrático.
    Também gostava que se falasse mais do despesismo deste Presidente - e a encomenda de dois retratos para escolher um é disso mais uma prova.

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    1. Faz sentido a pergunta que mmpf coloca.
      Aliás, uma interrogação pretinente relativamente a muitas outras personalidades da vida política portuguesa.
      Mas, seguindo a linha do despesismo de um presidente que se apresentou e apresenta recoberto de uma capa austera, vertical, metodista, etc. em tudo pretendendo ser o paradigma de como deve comportar-se um estado que vive em fralda de camisa (rota), acrescento: é inacreditável que um presidente de um país a viver dificuldades económicas tão severas, a ser ajudado financeiramente por fundos estrangeiros, a ter de gramar com um trio de fiscais a farejar-lhe as contas, a "botar letra" e a exigir cortes nas despesas sociais, de saúde, pensões educação, etc. e se dê ao luxo de gastar rios de dinheiro em viagens com comitivas compostas por centenas de convidados (os donos das empresas do Norte que financiaram a campanha)tudo hospedado em hoteis de luxo, algumas em aviões fretados e a maioria da comitiva em executiva. Aliás, assunto que fêz o presidente passar pela humilhação de levar uma "boca" do presidente Checo, aquando da visita àquele país.
      Quanto ao quadro, cujo obra do autor incide especialmente em pintar nus naturais... não seria mais revelante se cavaco tivese posado nú?! E em lugar de mandar pintar dois quadros, mandasse pintar uns milhares ? Tenho quase a certeza que haveria uma legião de acolitos que acorreria à galeria e alguns provávelmente adequiririam vários exemplares...

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    2. Talvez a Helena não criticasse o quadro qualquer que fosse o retratista. Mas tendo em conta a crítica que escreveu, não é dificil concluir que qualquer que fosse o quadro escolhido por Cavaco, a Helena o criticaria. O quadro, tal como Cavaco, é inteiramente previsível. Uma "natureza morta". Pois. É precisamente o tipo de quadro que se esperaria que Cavaco escolhesse.

      Nesse sentido, tudo o que escreveu (com uma ressalva importante) poderia ter sido escrito sem ver o quadro. O quadro torna-se apenas mais uma desculpa, tão boa como qualquer outra, para o criticar.

      Ressalva feita para a originalidade de terem sido pedidos dois quadros. São justificadas as suspeitas de despesismo, que ficaria bem a Cavaco esclarecer.

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    3. Nuno, tem razão. Não é o quadro que eu estou a criticar.

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  5. Senhor (ou senhora) mmpf:
    E eu arrisco, com enormíssima possibilidade de ter sucesso, que, qualquer que fosse o retrato, o retratista ou a crítica a Cavaco, o senhor (ou senhora) mmpf estaria aqui a dar o peito às balas pelo homem.
    Portanto, antes e acusarmos os outros de incoerência (criticar por ser branco e criticar por ser preto), olhemos para nós próprios.
    Não faremos o mesmo defendendo, quer o que é branco, quer o que é preto (quando se trata de defender os nossos amigos ou as nossas figuras de estimação)?

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    1. Caro Manuel Silva
      Já lhe respondi, começando por me identificar e explicar que não sabia porque o Google me identificava por mmpf. Mais tarde descobri como alterar e actualizar o meu perfil. Nessa resposta explicava o que penso de Cavaco Silva e a razão do meu comentário. Esteve visível e quando procurei eventuais réplicas descobri que tinha tinha sido apagada. Não guardei cópia e não vou tentar reescrever tudo de novo. Lamento. Cumprimentos, Manuel Maria Pacheco Figueiredo

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    2. Apaguei a resposta? Foi por engano, peço imensa desculpa. Vou ver se a encontro no meu email. Por favor, aceite as minhas desculpas e não deixe de cá comentar por causa deste erro.

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    3. Deve ser este o comentário em causa:

      "Caro Manuel Silva

      Chamo-me Manuel Maria Pacheco Figueiredo e por qualquer razão que me escapa o Google identifica-me como "mmpf" (nota: fui verificar o meu perfil público na conta Google+ e está lá o meu nome completo e a fotografia).

      Esclarecida a questão do meu eventual anonimato, passemos ao tema, i.e., Cavaco Silva. Com a pessoa nunca simpatizei, mas votei sempre nele enquanto candidato a primeiro-ministro - se pudesse voltar atrás, sabendo o que sei hoje, voltaria a fazê-lo. Nestas coisas conta muito a alternativa - a procura do óptimo está quase sempre sujeita a imensas restrições (uma das quais é a nossa ignorância sobre tanta coisa, até sobre nós próprios quanto mais sobre os outros; os mais cínicos dizem votar no mal menor).

      Agora Cavaco Silva, Presidente da República, 1º mandato: não votei nele porque, entre outras razões, contribuiu para o derrube da maioria governativa da área política a que pertencia (o famoso artigo sobre a moeda má) sem que objectivamente tal se justificasse (é verdade, houve umas "trapalhadas"..., mas depois foi o que se sabe). Não votei por razões simétricas às dele: se um governo de uma cor adversa lhe pavimentava o caminho para Belém (a tal história dos ovos e da cesta), também acreditava que o regresso ao poder da área política com que simpatizo se faria mais facilmente se ele não fosse Presidente. Neste aspecto enganei-me porque não contava com a loucura do então primeiro-ministro. E também não votei porque me parecia evidente que, na linha do que acabei de referir, tudo faria para assegurar um segundo mandato, i.e., seria conivente com a maioria parlamentar para afugentar eventuais anti-corpos eleitorais. A coisa só começou a descarrilar com a estúpida (e inconstitucional, como se veio a provar) afronta que lhe fizeram por causa do Estatuto dos Açores. Entretanto, quanto às opções do governo de então, que nos conduziram à bancarrota, limitou-se a umas (poucas) declarações que lhe permitiram mais tarde dizer: eu bem avisei. Pouco, muito pouco. Nessa época eu chamava-lhe o notário de Belém.

      Finalmente Cavaco Silva, Presidente da República, 2º mandato: votei nele porque já era visível o caminho que o país estava a tomar e, também, porque as alternativas eram assustadoras. E, desculpem-me a presunção, desta vez também não me enganei. Livre de calculismos eleitorais, foi fundamental para aguentar a travessia da tempestade, mesmo quando alguns perdiam "irrevogavelmente" a cabeça, apesar de nervoso por causa do corte da pensão da CGA (que "não lhe dava para as despesas") e de ter dado uns contributos para a profecia da "espiral recessiva". E também esteve bem quando, a propósito da demissão "irrevogável", quis forçar um entendimento político duradouro entre PS, PSD e CDS - se tivesse sido melhor compreendido não estaríamos a viver o actual processo de reversão em curso.

      Em suma, quando esteve mal foi eleito duas vezes Presidente à 1ª volta; finalmente, quando esteve muito bem, leva pancada de todos os lados!

      Já tenho idade suficiente para saber que há muita gente que gosta de estar com a corrente dominante, "a força", ou lá o que lhe queiram chamar; e que, também, há muito valente que pontapeia quem já foi forte e agora aparenta estar caído no chão. Isto irrita-me, em particular numa época em que, no espaço público, se instala um progressivo sufoco imposto pelas patrulhas do politicamente correcto. As mesmas que andam sempre com o 25 de Abril, a liberdade e a democracia na boca.

      Caro Manuel Silva, cara Helena Araújo (autora do "post"), não gostam do homem, tudo bem, estão no vosso direito. Agora usarem o retrato, que é isso mesmo, um retrato e nada mais, é que já me parece mais do domínio da "bandwagon effect"."

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  6. Caro Manuel Figueiredo:
    Há um ditado popular segundo o qual, «quem feio ama bonito lhe parece».
    E o meu caro tem todo o direito de amar feio e parecer-lhe bonito.
    Eu respeito isso.
    Mas tenho o direito de pensar o contrário de si.
    Eu não o questionei por causa dos seus gostos políticos pessoais, cada um «ama» quem quiser, fi-lo por uma questão de forma, pela contradição em que caia na sua crítica, cuja lógica era semelhante à da sua defesa do dito Cavaco.
    Como a prosa justificativa no seu extenso comentário comprova.
    Sabe que, se tivermos duas criaturas muito semelhantes, quer nos defeitos, quer nas qualidades, mas, a uma apagar-mos os defeitos ficamos perante um deus.
    Se à outra apagarmos as qualidades ficamos com um diabo.
    Mas à partida eram semelhantes e continuarão semelhante na sua essência.
    E por aqui me fico pois não tenho a pretensão, nem quero tê-la, de o convencer de nada.
    Quanto ao «bandwagon effect» (eu prefiro usar a expressão portuguesa «efeito de manada»), tanto pode acontecer nas críticas como nos elogios, aplicando-se como uma luva à desculpabilização «à outrance» que faz de Cavaco e da sua acção política.

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    1. Caro Manuel Silva
      Neste caso, não me parece que o ditado popular se aplique a mim. Se reler o que escrevi verá que apontei o "feio" e o "bonito". E, já agora, os críticos do último mandato já repararam que o homem, involuntariamente creio eu, protegeu o regime ao atrair nele o odioso da situação? Nos tempos que correm, com as ventanias populistas que aí andam, não é um serviço de valor despiciendo: muda-se o homem e o regime continua.
      Quanto à questão da "manada": em português usaria outra expressão, mas seria igualmente indelicada atendendo a que estava a responder à autora do "post". É o que dá ter nascido quando ainda vigorava a constituição salazarista de 1933 e, imagino eu, haver lá um artigo que mandava ter maneiras com as Senhoras... Está a ver como eu gosto de ser politicamente incorrecto?

      Caro Luís Aguiar-Conraria, acontece, não há problemas.

      Obrigado por me aturarem e cumprimentos a todos.

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