terça-feira, 31 de março de 2015

Orgulhosamente medíocre, apesar de austríaco

Diz um deputado austríaco que só os alemães e os austríacos trabalham e que, por trabalharem, o resto dos europeus, inclusive os portugueses, goza com eles. Tenho um amigo que me costuma dizer de certas pessoas "Aquele tipo nunca saiu do mesmo código postal.". Parece-me uma conclusão apropriada acerca deste deputado. E nós não devemos ser levados a sério porque só temos 1,60 m, continua ele. Enganou-se redondamente! Eu só tenho 1,53 m e trabalho e levam-me a sério. E se não me levam a sério, arrependem-se.

Por acaso, eu não conheço muitos austríacos; mas, no meu primeiro ano nos EUA, um dos alunos no mesmo programa de intercâmbio que eu era austríaco. Chamava-se Georg, e nós tínhamos uma aula juntos: era a aula de International Economics [ou era International Business ou International Trade, já nem sei o nome exacto] que era ensinada por um grego, se não estou em erro, de nome o Andreas Savviddes.

O malandreco do Georg, que tinha mais do que 1,60 m, fartava-se de faltar à aula. Note-se que numa universidade americana, não é muito bom faltar às aulas. Depois, lá vinha ele todo dengoso, pedir-me os apontamentos e eu dava-lhe porque eu gosto de partilhar. Uma vez, eu não fui à aula porque fiquei doente e pedi-lhe os apontamentos. Ele recusou, respondeu-me que estava tudo no livro. Ah, little fucker... Se ele partiu uma perna entretanto, foi do mau karma que cultivou nesse dia.

Podem crer que eu, que trabalhava no Gabinete de Relações Internacionais, comentei a falta de etiqueta do meu colega austríaco com as pessoas que geriam o nosso programa de intercâmbio. Eu não sou vingativa, mas também não sou estúpida, e a expectativa nos EUA é que as pessoas se ajudem umas às outras, especialmente se estão em circunstâncias semelhantes, o que era o caso, pois eramos todos participantes no mesmo programa. Para além disso, o Gabinete de Relações Internacionais tinha reuniões com todos nós, simultaneamente, para nós nos conhecermos e nos relacionarmos.

Já sei que um sujeito austríaco não é representativo de nada. Mas eu estou farta de ver generalizações negativas acerca de portugueses, mulheres, pessoas baixas, economistas, etc. E eu sou todas essas coisas: orgulhosamente portuguesa, orgulhosamente mulher, orgulhosamente baixa, orgulhosamente economista! E, por ser isso tudo, não sou uma confluência de mediocridade; pelo contrário, sou melhor do que muita gente. E não me venham com a história de falta de humildade. Humildade não é vergar-nos quando nos humilham.

E, só para verem como há austríacos que me agradam, deixo-vos as palavras de um dos meus poetas preferidos, Rainer Maria Rilke. E vocês deviam ler "Cartas a um jovem poeta".

2 comentários:

  1. O austríaco com quem mais socializei era uma simpatia, todo desportista e ecológico. Mas achava que os povos do sul eram mais baixos devido aos genes, e não fui muito eficaz a convencê-lo de que a alimentação e condições de vida também tinham um papel importante, devidamente registados na altura dos recrutas durante muitas décadas em Portugal, etc.

    Muito cuidado com generalizações!

    Betty

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