sexta-feira, 13 de março de 2015

Os calções de Katie

Não temos a mínima tolerância para com o assédio sexual no local de trabalho. A definição de assédio sexual inclui comentários que menosprezem a aparência de uma pessoa e comentários indecentes; perguntas sobre a actividade sexual de alguém, bem como quaisquer contactos físicos que violem a dignidade de uma pessoa ou que dêem origem a um ambiente laboral intimidante, hostil, humilhante ou ofensivo para a pessoa em questão.

Não, não se trata de nenhuma proposta do Bloco de Esquerda. Esta regra faz parte do código de conduta de uma das maiores empresas mundiais de contabilidade e auditoria. À primeira vista, o objectivo é, admiravelmente, a defesa dos direitos de pessoas inocentes. Todavia, como explica Alain de Botton ("Alegrias e tristezas do trabalho"), talvez exista uma explicação mais cínica e menos altruísta para este parágrafo. Talvez a principal preocupação dos autores do texto sejam os interesses da companhia, e não os de pessoas indefesas.
Botton descreve a aparente indiferença à beleza de Katie, uma assistente de 22 anos da dita companhia, cujos calções cinzentos pela altura dos joelhos fazem suspirar os colegas quando a jovem passa pelos corredores. Os calções de Katie ameaçam subverter toda a lógica da empresa. Podem trazer à luz uma verdade incómoda: “acharíamos muito mais interessante ter relações sexuais do que trabalhar”, diz-nos Botton.
Botton reconhece, por isso, a necessidade de introduzir uma certa ("ultrapassada") repressão sexual nos nossos códigos de conduta profissional. Esta necessidade tem, todavia, um efeito paradoxal: “O escritório é para o mundo moderno o que o claustro era para a cristandade medieval: uma arena casta com uma capacidade sem rival para estimular o desejo sexual.”
Não por acaso o escritório e o convento de freiras têm sido um pasto fértil para a imaginação dos pornógrafos, relembra Botton.

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