quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Floricultura 1

1. É no dia mais quente do ano que se dá a ver o único espécime conhecido da Oppositum Flos Atacamensis.
Nesse dia, caravanas de curiosos e expedições de peritos dirigem-se ao centro geográfico preciso do deserto de Atacama e aguardam. Os curiosos consultam-se uns aos outros sobre os sinais de calor que garantem ser aquele o dia mais quente do ano, comparam dias anteriores de anos anteriores, recordam que já aconteceu terem-se enganado no dia e aguardado em vão, mas desses fracassos riem-se sem angústia, apontam o dedo uns aos outros e revelam quem foi que se enganou, e os denunciados riem-se também porque sabem que pertencem a uma longa linhagem de pessoas que tentam e não acertam e sabem que mais do que a arte é o acaso que coloca cada homem na lista daqueles a quem o mundo castiga e na lista daqueles a quem o mundo celebra, e por isso nada mais há a fazer do que rir de serem sucesso e fracasso a mesma coisa. Os peritos consultam termómetros e tabelas sismográficas. No dia certo, ao meio-dia exacto e no ponto médio perfeito, onde não havia nada senão pó e pedras, irrompe, supõe-se, porque a verdade é que nunca ninguém viu um fio de verde avançar por entre a terra amarela, a planta. Não estando lá antes passa a estar lá depois, sem que o instante entre o antes e o depois se torne alguma vez visível. Mas o que se vê depois, a planta toda de uma vez só, com a flor de cuja estranheza não dão conta palavras como exótica, rara ou extravagante, vê-se rigorosamente, por mais que essa estranheza que excede os termos disponíveis não possa vir a ser descrita porque excede os termos disponíveis. Quem, nunca a tendo visto, a imagina partindo do que conta quem esteve no deserto de Atacama no dia mais quente do ano, está tão longe de concebê-la como está longe um anjo de uma alface. Tão impossível é transportá-la do presente para o passado, do estou a ver para o vi, que o que quer que se forme na cabeça de quem nela pensa, seja monstruosamente belo ou sublimemente horrível, é sempre completamente outra coisa e por isso não se lhe refere, não se lhe substitui, não se lhe equivale, não a representa. O melhor que alguma vez alguém disse acerca dela disse-o um tanoeiro nunca antes dado à fantasia. Disse. O sol abrasa-a como um punhal cravado num colo setecentista.
Nota: esta é de outra série. Para variar.

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