terça-feira, 21 de julho de 2015

O problema francês ou o privilégio exorbitante

Desde pelo menos os anos 60, a França procurou combater o privilégio exorbitante de utilizar a política monetária de que (ainda) beneficiam os Estados Unidos e de que a Alemanha beneficiou nos anos 80 e 90. A expressão, utilizada por Valéry Giscard D’Estaing, Ministro das Finanças de Charles De Gaulle, capta a vantagem de um país, numa economia aberta, poder utilizar a política monetária para promover a sua competitividade.
A pressão que a França colocou na criação da moeda única europeia deve ser entendida como uma via para fortalecer a soberania da França, dado que a sua política económica se encontrava cada vez mais condicionada pela globalização comercial e financeira. Isto é, o euro era visto como uma forma de mitigar a submissão da sua política económica à política económica da Alemanha. É importante lembrar este facto no momento em que a França avança com a proposta de criação de uma governação da zona euro pelos países fundadores da CEE.
A França não tem hoje os meios, que teve nos anos 90, como a questão da reunificação alemã, de condicionar a Alemanha. No  entanto, esta proposta francesa terá muitos apoiantes entre os países do norte da Europa. Portugal e os outros países não fundadores têm de se opor veemente a este projecto francês, que nos tornaria parceiros de segunda ordem da UEM e acentuaria a clivagem norte/sul na UE.   
O projecto francês de então e de agora é muito bem descrito no livro de Jean-Paul Fitoussi, O Debate-Tabu, publicado em 1995:
“A União Económica e Monetária Europeia é, com efeito, para muitos países europeus, incluindo a França, o meio de recuperar uma soberania perdida. Mais vale co-pilotar um navio livre na sua rota do que estar sozinho ao leme de um navio teleguiado por outros. 
De facto, a moeda única oferece a possibilidade de equilibrar os poderes monetários na Europa, de perspectivar de novo as relações entre a Alemanha e o resto da Europa, num sentido que nos seja mais favorável.”


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