sábado, 30 de abril de 2016

História gótica

50. Caça à noite.
Desce a encosta como um tigre, voa até aos vales como um falcão. Entra pelas janelas das casas e carrega nas garras e nos dentes os jovens que dormem, sempre os jovens. Nem crianças, nem velhos. Com as primeiras presas, mata a fome de um dia inteiro. Escolhe-as pela saúde das faces coradas e pela força dos músculos. Não os viu durante as horas de sol, Anghelescu pertence à raça dos noctívagos. Mas sabe quem são, onde moram, qual é a janela dos seus quartos, porque de dia tem fiéis emissários que vigiam cuidadosamente a vida dos homens. Ratazanas que nenhuma desinfestação mata, pulgas e percevejos, centopeias e baratas que se esgueiram por entre os móveis. As traças que desfazem as roupas enquanto observam. Os corvos empoleirados nas árvores, grandes bandos em que quase ninguém repara. Os cães vadios corridos a pontapé. Os gatos acusados de bruxaria e ligações satânicas. Os pássaros engaiolados. Com a informação que recolhem e passam uns aos outros traçam o mapa completo do espaço percorrido por aqueles que vigiam. Anghelescu recebe o mapa. Estuda-o. Planeia a incursão da noite. Cosmin acompanha-o, de alguma maneira consegue estar sempre perto, ainda que não voe como um falcão nem corra como um tigre. Ajuda-o a capturar aqueles que tentam fugir, paralisa-os de susto se for necessário. O cão dos infernos, devem pensar os desgraçados. O cão de Lúcifer, Lúcifer que está ali em pessoa e lhe dá ordens. Como ficam longe da verdade as iluminuras que representam demónios e monstros. Anghelescu o caçador não pode ser desenhado porque quem o vê não vive para descrevê-lo. E se por acaso consegue escapar das masmorras onde o mantêm, não é capaz de fazê-lo. Como ficam longe as palavras e frases com que podemos pensar em coisas ausentes. Fazer relatos do passado e previsões para o futuro. Anghelescu é sempre pior do que alguma coisa que possa dizer-se e que seja o sumamente mau. É um deus invertido e pouco mais consegue explicar quem o viu. É este o método de Anghelescu. Desce sobre a cidade, ou a vila, ou a aldeia. Aspira o ar em busca dos cheiros que os seus enviados lhe deram a conhecer. Voa até à janela por onde irá começar e abre-a sem dificuldade. Cai sobre a vítima com guinchos medonhos, agarra-a, sai com ela por onde entrou. Os guinchos ouve-os só quem assim é horrivelmente acordado, os outros que morem na casa, e os vizinhos, não. Não ouvem também os gritos de quem é levado pelos ares. Quando é para saciar a fome, o sangue do sacrificado é sugado, e depois os órgãos e tecidos moles, e depois os ossos. Tudo engole o estômago de Anghelescu, e por isso nunca é encontrado um corpo. O desaparecimento é um mistério para os outros, e sobre ele especula-se tanto quanto a imaginação consegue. Raptado por ciganos, caído numa cova funda, comido por um dragão, desfeito por um gigante, transformado em outra coisa por um feiticeiro, capturado por duendes numa armadilha, transfigurado por fadas, reclamado por quem habita debaixo da terra, devastado como são devastadas as colheitas, consumido como são consumidas as velas, fugido em busca de aventuras, escondido por causa de uma qualquer vergonha, fulminado por um raio algures, vitimado por uma vingança, sacrificado a uma causa nobre, morto num duelo, atraído por uma paixão, desiludido por ela e escolhendo lançar-se num precipício ou num rio, atacado por ladrões, envenenado por um inimigo, executado por um crime, espancado por estudantes bêbedos, subido aos céus, sumido nos infernos, desvanecido por magia, embarcado num navio, levado para outros planetas, derretido pelo sol, enlouquecido pela lua, regressado ao pó de onde todos viemos, aprisionado por um ogre, devorado por um canibal, retalhado por um animal selvagem, preso por dívidas, recrutado por um exército, tombado em combate, enfim, desaparecido por todos os meios menos pelo que o fez desaparecer.

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