quarta-feira, 13 de abril de 2016

História gótica


36. A criança não fugiu e Groesken começou a fazer as suas perguntas.
"Tens nome, miúdo?" A criança encolheu os ombros. "Toda a gente tem um nome, miúdo. Diz-me lá o teu." "Iuliu." "Moras aqui, no castelo?" A criança disse que sim abanando a cabeça. "E os teus pais também?" A criança voltou a abanar a cabeça, desta vez para dizer não. "Vives com quem, então?" Passaram alguns segundos, enquanto a criança olhava para cima como se contasse e não quisesse esquecer-se de ninguém. "Com a Matriona, o Gavril, a Nica e o Cosmin." "Quem são, da tua família?" A criança voltou a encolher os ombros. "São os donos do castelo?" A criança disse que não com a cabeça e acrescentou "A Nica e a Matriona cozinham. O Gavril leva a comida para cima. O Cosmin brinca comigo." "É teu amigo esse Cosmin, então", disse Groesken, como se se tratasse de uma conclusão natural. A criança fez um ar de quem não tinha compreendido. "Brinca comigo", repetiu. "Para quem é a comida? A que vai para cima?" "Não sei. Há um homem que às vezes vem à cozinha com o Cosmin, um homem mau. Vem lá de cima, com uma cara zangada." "Mau porquê?" "Não sei. A Matriona diz que ele é mau, e o Gavril e a Nica concordam. Eu tenho sempre que me esconder debaixo da mesa. Uma vez escondi-me num caldeirão muito grande. O Cosmin encontrou-me, ele consegue encontrar tudo pelo cheiro. Mas não ladrou. Só olhou para mim. Eu nem respirava, a Matriona mandou-me ficar calado e disse que se alguém se aproximasse eu não podia respirar. Escondi-me no caldeirão porque não tive tempo de chegar ao armário na parede. Lá dentro está a minha cama. E os meus sapatos, tenho dois pares. Também tenho um livro, com figuras. Um lobo, diz a Matriona que é como o homem lá de cima, que é um lobo mau. E um mocho, à noite ouvimos muitos. E um morcego, a Matriona não gosta que eu veja esse e vira sempre a página muito depressa. Mas quando ela não está a ver eu espreito. É muito feio. Preto. Parece a ratazana que a Nica anda sempre a tentar apanhar para lhe dar com a vassoura, mas tem asas. Nunca vi nenhum, só no livro. Aqui não deve haver, lobos e mochos não vi mas ouvi. Se calhar não fazem barulhos, e afinal existem mas não se ouvem porque não fazem barulhos. Um dia, saio da cozinha de noite e pode ser que veja um. E um lobo e um mocho também. Mas o Gavril fecha sempre a porta, e dorme com a chave debaixo da almofada. Mas um dia roubo a chave e saio. Com o Cosmin. Ele dorme lá em cima, mas sabe sempre quando eu quero que ele venha ter comigo. E um dia também vou lá acima. Só que para ir lá acima preciso de uma vela porque é muito escuro à noite. Lá fora há lua e estrelas e não preciso de uma vela, mas o Gavril diz que lá em cima é mesmo muito escuro porque as cortinas estão sempre fechadas. As pessoas devem estar sempre a tropeçar, de vez em quando também fazem barulho à noite como os lobos e os mochos. A Matriona vem sempre ver se eu estou a dormir quando os barulhos são muito fortes e eu faço de conta que estou a dormir, mas logo que ela sai eu levanto-me e sento-me no degrau da escada e fico a ouvir. Quando a Matriona me apanha dá-me um grande raspanete. Mas nunca me bate. Nem a Nica. Nem o Gavril. Mas às vezes fico sem sobremesa. E tenho pena, porque a Nica faz bolos muito bons. Ela faz sempre dois, um grande lá para cima e um pequeno para nós. Nunca se esquece. E se eu fico uma vez sem sobremesa, ela dá-me sempre a minha fatia passado pouco tempo. Mas eu tento portar-me bem, porque eles ficam com muito medo quando eu me porto mal. Não ficam zangados, só ficam com muito medo e eu fico com medo também." A criança falou como se nunca tivesse falado antes, como se nunca tivesse contado a ninguém as suas pequenas aventuras, falou numa torrente e quase sem parar para retomar o fôlego, falou, falou, falou enquanto Groesken ouvia e olhava para ela com espanto, e também com pena e ternura.

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