sexta-feira, 22 de abril de 2016

História gótica

41. Anghelescu atirava para dentro da lareira as rolhas das garrafas que acabara de esvaziar.
De cada vez que o combustível criava uma chama mais intensa, Cosmin rosnava baixinho e, em seguida, bocejava como se afinal o inimigo anunciado pela súbita animação do fogo se revelasse como pouco mais do que uma pulga. Nada de nada para quem vive num lugar habituado a grandes terrores. Estava-se bem ali ao calor, o castelo era demasiado grande, e tinha demasiadas correntes de ar, para estar quente em todo o lado, e Cosmin apreciava aquele conforto depois de comer. Sabia também que a hora do tapete em frente à lareira significava que o homem a quem obedecia o deixava em paz. Em vez da voz áspera e hostil que lhe dava ordens, ouvia mastigar, sorver, estalar a língua, ressonar. Por vezes ouvia sons semelhantes aos das ordens, mas agora abafados e que não compreendia. Nem queria compreender, não compreender era um alívio depois de um dia de orelhas tensas a interpretar cada ruído e cada tom que saía da boca do homem. E ainda havia os gestos, era um esforço grande juntar tudo e adivinhar o que queriam dele. Nem sempre conseguia agradar. Nessas alturas, apanhava pontapés e comia menos. E tinha sempre tanta fome, mesmo quando comia bem, era uma fome que não passava. Comeria tudo o que lhe dessem, mas aprendera a controlar os impulsos que lhe punham o nariz a tremer. Tinha saudades de quando podia atirar-se aos ossos no prato e afastar os irmãos com um encontrão. Durou pouco tempo essa época da sua vida, depressa lhe mostraram as consequências de fazer o que queria quando queria. Depressa o amarraram àquele homem duro e mau, não o amarraram com cordas, mas com aquela voz dura e má. Atacaria fosse quem fosse por ele. Mataria por ele. Mas não por devoção ou por amizade. Mataria porque era esse o seu dever. Porque não poderia fazer outra coisa quando recebesse a ordem. Era um assassino, duro e mau como o homem que se afundava no cadeirão e de quem só se separava às escondidas. Porque havia uma coisa que lhe quebrava a disciplina de ser um instrumento, uma coisa de que gostava, ir à cozinha, onde o calor era muito melhor do que o da sala. As pessoas não eram duras e más na cozinha, às vezes davam-lhe muito mais do que ossos, e passavam-lhe pelo lombo umas mãos que não magoavam. Coçavam-lhe a cabeça. Gostava especialmente de um homem mais pequeno do que os outros, mais pequeno até do que ele, e que costumava esconder-se debaixo da mesa. Só podia querer brincar, uma coisa que Cosmin também ainda se lembrava de fazer com os irmãos. Sabia que tinha que ter cuidado para não assustar o homem baixinho com pernas muito finas e mãos pequenas, um encontrão mais forte e podia fazê-lo cair, uma dentada mais séria e podia rasgá-lo e ia sair dele aquele líquido vermelho que era o mesmo que lhe tinha também já encharcado o pêlo, não por causa de dentadas mas de uma tira dura e má que o homem grande trazia sempre à cintura. Nos dias em que não ficava molhado por andar lá fora e o céu mudava de côr, seguia o anãozinho até ao fundo do terreno por trás do castelo e corria com ele sem ter uma missão a cumprir. Corria porque era bom, e não era para nada. E apanhava paus que o homem pequeno lhe atirava. Mas só fazia essas coisas se quisesse, e só até estar cansado. O homenzinho não lhe dava ordens, só o convidava para lhe levar os paus que agarrava com um salto, e às vezes Cosmin até o enganava, fazia de conta que se aproximava e fugia no último momento, quando o anãozinho pensava que ia receber os paus para os atirar outra vez. E nessas alturas acontecia uma coisa que das primeiras vezes lhe pareceu muito estranha, o homenzinho não ficava zangado por Cosmin não ter feito aquilo que ele queria, por se ter enganado, por tê-lo enganado. Atrevera-se a fazê-lo porque soube desde que conheceu o homenzinho que podia fazer aquilo sem medo. E as consequências foram sempre boas. O pequeno ficava contente, Cosmin agradava. Em frente à lareira, suspirou por não ser sempre assim e adormeceu.

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