quinta-feira, 28 de abril de 2016

História gótica

48. Tinha que acontecer.
Não porque estivesse escrito algures, no livro poeirento de um adivinho, ou nas paredes de uma igreja arruinada. Nem nas estrelas, que na verdade não pediram que falassem por elas aqueles que as contemplam para interpretar a sua vontade. Como se a tivessem, não a têm. Tinha razão nisto O Filósofo, são fixas numa cúpula fechada. Mas também tinha razão O Dominicano, Frade, Filósofo, Matemático, Poeta, Astrólogo reduzido a cinzas numa praça que se chama das flores, não há limites, os céus são infinitos e incontáveis os corpos celestes. Tinha que acontecer, o encontro do Príncipe Egon Gustav von Tepes e da irmã mais nova de Ada. Aconteceu num salão, num baile, porque desde sempre é assim, os príncipes encontram nos bailes as suas princesas, os camponeses encontram nos bailes as suas moçoilas. Mas não tem razão quem imagina ter havido príncipes que se encantaram por moçoilas, ou princesas suspirando por camponeses. Porque são príncipes disfarçados os camponeses que roubam os corações das princesas, e princesas embruxadas as moçoilas que atraem os príncipes. Os feios são sempre afinal belos, as feias são sempre afinal belas. E se sofrem algum tempo, vivem felizes para sempre. O Príncipe Egon Gustav von Tepes convidou para dançar a irmã mais nova de Ada. Fê-la rodopiar até ficar tonta, levou-a até à varanda para que se refrescasse, segurou-lhe a mão, fitou-a nos olhos enquanto passava um dedo pelos seus lábios, beijou-a. Tudo se passou tão rapidamente, sem meses de olhares furtivos e cartas tímidas. Bastou um cottillion e o ar fresco da noite. Quando Ada procurou a irmã mais nova para voltarem para casa, não a encontrou. Alguém a tinha visto sair para a varanda, ninguém se lembrava com quem. Na varanda Ada viu no chão o leque da irmã e um lenço com monograma. Quando o cheirou o perfume lembrou-lhe alguma coisa. Fechou os olhos e viu o homem que encontrara já em diversas ocasiões. Um homem que lhe provocava uma sensação desagradável. Recordou um episódio em que viu os olhos deste homem mudar de um olhar afável para um olhar de fera esfomeada, e as mãos delicadas transformarem-se em garras. Durou só um segundo, menos até, mas ela viu e pensava nessa metamorfose quando o encontrava. Os príncipes nem sempre são jovens bons que virão a ser reis sábios. Ada correu até à extremidade da varanda e gritou o nome da irmã. Não houve resposta. Saiu da casa onde decorria o baile com tanta pressa que chocou com um criado que transportava uma bandeja carregada de taças de champanhe. Lá fora só viu as caleches que aguardavam os senhores, e os condutores que fumavam cachimbos e trocavam histórias sobre os patrões e as patroas. Perguntou-lhes se tinham visto uma jovem acompanhada de um cavalheiro, mas eles não souberam dizer, a noite e a espera convidavam não só ao cachimbo, também corria farta a aguardente. Ada ordenou ao seu cocheiro que a levasse para casa, o que ele fez de má vontade e vacilante. Ada nem pensou no perigo de ser conduzida por um indivíduo embriagado, só pensou que a irmã podia ter ido para casa, que se teria deitado exausta depois do seu primeiro baile. Ela não estava em casa. Acordou os pais e comunicou-lhes o desaparecimento. O pai saiu à procura do chefe da polícia, de quem era amigo, e organizou-se uma busca que durou três meses e se estendeu por todo o território. Foi até além-fronteiras, foram alertadas as polícias dos países vizinhos e distantes. Não se descobriu sinal sequer nem da jovem nem do príncipe. Como se nunca tivessem existido. 

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