quarta-feira, 27 de abril de 2016

Pequenos milagres

Leio muito devagar e sou muito promíscua, ando sempre a ler muitos livros ao mesmo tempo. Às vezes, preciso de ler poesia e a minha leitura resume-se a abrir livros ao calhas e ler poemas. Constroem-se momentos milagrosos assim e gosto da sorte, da fortuna, e não há grande diferença entre sorte e milagre, logo crio os meus próprios milagres. Gosto muito de prosa poética, daqueles livros em que um parágrafo ou uma frase nos apanha e temos de a repetir em voz alta vezes sem conta até a absorvermos e podermos prosseguir.

Continuo a ler "O Amor Louco" de André Breton: a tradução em inglês, mas comprei a versão original e talvez tente ler outra vez. É um ciclo vicioso: o meu francês é limitado e frustra-me imenso, mas ao não ler em francês desisto da oportunidade de melhorar. Ontem, enquanto lia na cama, apareceu uma frase e fiquei encalhada nela, não consegui continuar, li-a e reli-a vezes sem conta até apagar a luz e decidir adormecer. Era esta:

"To love, to find once more the lost grace of the first moment when one is in love..."

Mas esta não é a única. Já antes fiquei encalhada noutra:

"Love is when you meet someone who tells you something new about yourself."

E esta aqui?

"People despair of love stupidly – I have despaired of it myself — they live in servitude to this idea that love is always behind them, never before them: bygone years, lies about forgetting after twenty years. They can bear to admit – and force themselves to – that love is not for them, with its procession of clarities, with this look it casts upon the world from all the eyes of diviners. They are limping with fallacious memories, for which they even invent the origin of an immemorial fall, so as not to find themselves too guilty. And yet for each, the promise of each coming hour contains life’s whole life secret, perhaps about to be revealed one day, possibly in another being."

A promessa que cada hora pode conter em si o próprio milagre... Num dos primeiros passeios que fiz com os meus cães em Houston, estava um bocadinho ausente. Houston não é uma cidade fácil porque há uma grande variância de vidas e para mim foi difícil habituar-me que, no mesmo dia, podia falar com uma pessoa que vive numa das zonas mais ricas da cidade -- e do país -- e com outra pessoa que me fala da viagem que fez para imigrar ilegalmente para os EUA e dos seus encontros com a morte.

Sofri uma pequena depressão no início, mas houve essa caminhada, nesse dia, em que o Alfred me puxou e saí do passeio e quase que bati com a cara numa árvore. Era uma nespereira e eu já não via nespereiras há mais de 15 anos, nem sequer se encontram nêsperas nos supermercados aqui. E essa nespereira fez-me tão feliz que a partir daí comecei a prestar atenção às ervas daninhas. A vegetação daqui tem algumas coisas parecidas com a de Portugal e eu tenho saudades. E Houston tornou-se suportável e até agradável a partir daí...

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