sábado, 23 de abril de 2016

Abril

"You say you want a leader,
but you can't seem to make up your mind.
I think you'd better close it,
And let me guide you to the purple rain..."

Abril era para ser o meu mês, mas como sou lenta, nasci em Maio, no princípio, porque no fim de um mês não teria tanta graça, se calhar. Mas Abril, para nós, portugueses, é especial.

Foi em 10 de Abril do ano passado a primeira vez que vos falei em Prince. A segunda vez foi em 17 de Abril deste ano. Não há mais ninguém que tenha sido tão importante e tenha tido uma influência tão grande e tão duradoura na minha vida como Prince. Tori Amos é muito influente, mas só comecei a ouvi-la em 1998. No início, resisti a Prince. Lembro-me de ver "When doves cry" e sentir uma repulsão e uma atração simultânea ao vídeo, que tem uma imensa carga sexual. Foi apenas com Sign o' the Times que me rendi; lutei quanto podia, mas depois tive de me render. Depois disso, tornou-se uma forma de zona de conforto.

A minha prima, que vive na Holanda, tinha o álbum e comecei a ouvir por causa dela. Ela ia a concertos dele e eu sentia uma ponta de inveja por não poder ir. Nessa altura ele não ia a Portugal; ia a sítios como Amsterdão e Paris, onde ela ia. Entretanto ele começou a ir a Portugal; a primeira vez que ele foi aí eu queria ir vê-lo e o meu pai não deixou. Ele achava que era perigoso eu ir a Lisboa, mas depois deixou-me vir para os EUA sozinha. Quando me mudei para os EUA senti-me mais perto dele, pensei que eventualmente o veria. O meu sonho era ir a Minneapolis e vê-lo ao vivo. Mas havia um plano B. Às vezes, ia ver a lista de concertos para ver se ele estava perto de mim; na verdade, ele esteve sempre em mim.

Sign o' the Times é capaz de ser o álbum que mais vezes ouvi na vida. Há menos de duas semanas, deu-me vontade de o ouvir e peguei no iPod. (Não o tenho no iPhone; só consigo meter música do iTunes no iPhone e esse álbum foi rasgado de um CD. Como sou um bocado preguiçosa, não me dei ao trabalho de mudar a configuração do telefone para ter os álbuns dele lá. Uma das prendas de Natal do meu marido era álbuns de Prince porque eu não tinha trazido nenhum de Portugal.) Ouvi-o de ponta a ponta e pensei que estava tão actual como na primeira vez que o ouvi. E, ao fim destes anos todos, ainda sabia a letra toda das canções -- "it's crucial, baby!" --, mas esse não é o único disco. Há Parade, Purple Rain, Lovesexy, Batman, Musicology... E muitos mais, ele editou 39, mas no cofre tem música suficiente para continuar a editar durante anos.

Sign o' the Times foi apenas o portal por onde eu entrei. Não conheço mais nenhum disco que fale de amor, religião, a condição da mulher, sexo, civilização, e que me tenha tocado tanto. Isso não diz muito porque há muitos álbuns que não conheço, mas este disco foi instrumental na minha formação como pessoa. E eu gostava tanto dele que o levava em visitas de estudo e, depois de vir para os EUA, em road trips, e os meus amigos ouviam e ficavam surpreendidos porque nunca tinham ouvido Prince assim e gostavam.

Seria impossível ser eu sem a influência de Prince. Foi ele que me ajudou a definir a minha sexualidade, a minha identidade como mulher, a forma como eu comunico convosco. A música dele incendeia-me. Eu partilho arte e música convosco porque espero que vocês encontrem algo que vos incendeia como pessoas; algo que vos faça rebeldes, algo que vos dê aquela liberdade que vos permita ser com os outros aquilo que vocês são dentro da vossa cabeça. Porque é isso que ele me deu: a possibilidade de eu me mostrar aos outros como eu me vejo dentro de mim. O trabalho dele é muito especial para mim.

Ontem, uma amiga minha telefonou-me e disse-me que, quando soube da morte dele, a primeira pessoa em quem pensou fui eu. E não sei porquê, não me lembro de quando foi que lhe disse que ele era tão importante para mim e, no entanto, ela soube logo. Há pessoas que nos dão a nós mesmos e, ao fazer isso, permitem que nós nos dêmos aos outros numa versão muito maior e melhor do que a que poderíamos dar sem eles, e Prince é essa pessoa para mim. Espero que haja alguém que faça isso na vossa vida.

"If I was your best friend, would you let me
Take care of you and do all the things that only a best friend can?
Oh, only best friends can"

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