terça-feira, 14 de junho de 2016

História gótica


82. Ou assim poderia pensar-se. Mas o agricultor partira o pescoço ao cair de um cavalo, e nem tivera tempo de pensar na morte, quanto mais no que se lhe segue.
A família mandara chamar o padre como mandara chamar o coveiro, não porque acreditasse que um envia para o céu o que o outro atira para debaixo da terra, mas porque é assim que costuma ser. Morre alguém, chama-se um padre, convoca-se um coveiro. É simples. Poupa os que ficam de pensar no que fazer aos que partem e de pensar no que aconteceria se em vez de os enterrarem os cortassem às postas oferecendo-os aos animais selvagens, ou se os queimassem, ou se os moessem até ficarem pó, ou atirassem para o fundo de um rio, ou deixassem à porta de um vizinho para que seja ele a incomodar-se com o assunto. As mulheres da família tinham chamado o padre sem sequer lhes ocorrer que o agricultor não iria ficar lá muito satisfeito. Ou talvez até lhes tivesse ocorrido, mas como o agricultor já não estava ali para lhes lançar um olhar severo ou uma imprecação seca, fizeram o que queriam. Talvez até tivessem pensado que, não acreditando o agricultor em almas imortais, uma vez morto o seu corpo a sua alma morreria também e não iria causar-lhes problemas, não voltaria para assombrá-las com acusações e gemidos lúgubres. Ausente em corpo e ausente em espírito, o agricultor passara de homem a coisa, e a mulher, mãe e irmãs podiam agora enfeitá-lo e exibi-lo a quem viesse prestar-lhe a última homenagem. Tinham-lhe vestido o melhor fato e calçado os melhores sapatos, mas uma das irmãs pensava enquanto lhe preparavam o cadáver que o fato e os sapatos dariam muito jeito a um filho que ia para a cidade continuar os seus estudos, e já se tramavam em sussurros formas de lhe surripiar as vestimentas entre o velório e o enterro. O caixão aberto fora colocado no centro da sala, sobre uma mesa, e o morto, de mãos postas e faces vermelhas, apesar de morto revelava alguma contrariedade quanto ao seu papel no espectáculo. Quase parecia que iria erguer-se e vociferar assim que lhe chegasse ao nariz um grão de pólen das dezenas de arranjos que o rodeavam. Continuavam a acumular-se flores à sua volta como se quisesse alguém saber até quando aguentaria sem se mexer o falecido. E a provocação final seria o padre, pensavam outros agricultores que o conheciam e que faziam já as suas apostas silenciosas quanto ao resultado do confronto. "Tão jovem ainda!", lamentava a prima em segundo grau da mulher do agricultor. "E com tanta saúde!", juntava uma tia-avó de um cunhado. Este fazia já contas aos hectares que planeava vir a somar aos seus agora que não havia mais ninguém para tratar das terras do falecido. Passava em revista na sua cabeça as vacas e os silos de grão que tantas vezes o tinham levado a amaldiçoar a providência divina por não lhe fazer chover em cima a abundância, e agradecia agora aos céus terem finalmente reconhecido que merecia aquilo e muito mais. As mulheres dos agricultores cogitavam acerca do luto da mulher e das filhas, quem seria a primeira a tirá-lo, quanto tempo passaria até que fosse anunciado um noivado, quem seria o felizardo a quem cairiam nas mãos terras tão férteis e tantos animais. Algumas lembravam-se ainda dos linhos que passavam de geração em geração como enxoval, retirados das arcas pouco antes das bodas e guardados lá pouco depois à espera das seguintes. Como devia ser. Em cada casamento os linhos de uma família juntavam-se aos linhos de outra, e estes linhos eram depois repartidos entre as filhas que iam casar-se. Só em casos raros era esta distribuição regular interrompida ou deturpada. Quando não havia filhas por quem distribuir lençóis e toalhas, quando um filho enviuvava e casava várias vezes acumulando o suficiente para muitas casas. Assim que o padre entrou, calaram-se todos e as especulações terminaram. Via-se que vinha triunfante o pároco, a cabeça muito levantada, o pescoço direito, o sorriso firme. Avançou luminoso, como se estivesse rodeado de anjos, como se fosse transportado por nuvens, na mais pura beatitude. A face só se lhe obscureceu quando viu que os seus dois companheiros de viagem, o casal estranho e enroupado a quem prestara tão pouca atenção, também estavam ali.

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