quarta-feira, 29 de junho de 2016

História gótica



87. Dilúvios, furúnculos, gafanhotos. Muito maior ainda é o domínio de Zephaniah, A Grande. Muito mais vasto, muito mais populoso.
Não é quando lhe pedem que se senta na sua almofada de borlas douradas e consulta os ossos que ninguém se atreve a perguntar a que animal pertenceram. É só a ela que os ossos dizem como será o mundo amanhã, daqui a dois meses, daqui a vinte anos. E do que lhe dizem os ossos retira ela detalhes sobre os quais exercer a sua vontade arbitrária. O mundo nunca se muda todo de uma vez. Mudam coisas nele. Coisas muito pequenas com efeitos muito grandes. Não porque à matriarca faltasse o poder de criá-lo novo e diferente, mas porque não quer. Aprecia esses detalhes, as pequenas dobras do espaço. É capaz de ver os padrões e figuras que fazem do tempo uma história e dos homens fantoches. E como gosta ela de fantoches, dos espectáculos de polichinelos que afastam rivais à cacetada e levantam as saias às raparigas, vestidos de fatos brilhantes e botões enormes. Ridículos. Com narizes vermelhos e chapéus que não lembrariam ao diabo. A este conta Zephaniah as histórias que inventou a partir das histórias que viu nos ossos atirados sobre veludo branco. Também as conta ao anjo, mais uma vez é ela quem escolhe, no domínio dela cabem todas as forças que os homens procuram para que lhes corram melhor as vidas. São os seus fantoches também, o diabo e o anjo, títeres que balançam títeres na ponta de fios que nunca são invisíveis. Sentam-se em frente a ela e admiram a sua perfídia e a sua generosidade, pois Zephaniah nunca é só uma. É ela que quer tudo quanto existe, é do seu bel-prazer que são gerados os rios que gelam e o movimento das rodas na estrada. É por isso que nunca é só uma, por ser ao seu deleite que se subordina a criação. Contém as criaturas como se sobre elas lançasse um manto que seria uma abóbada estrelada de noite e nebulosa de dia. Como se fosse um tecto e um chão. Um chão fértil ou seco, um abismo ou um abismo dentro de um abismo, mais uma vez é o seu desígnio quem manda. Quem pede para ir à lua irá se ir à lua agradar à fantasia da deusa-mãe. Quem implora a morte de outro poderá ver a morte debruçar-se antes sobre si próprio se for irónica a disposição dela. Porque enganam-se aqueles que a ela recorrem convictos de que falam apenas com um veículo de outros poderes. O poder é ela. É dela o máximo império. O império cobiçado por Átila e Calígula. Canuto soube que não há império humano ao qual obedeçam as ondas do mar. Lear tornou-se um louco e matou a filha, a única a quem podia chamar filha. Nunca, nunca, nunca, foi Zephaniah quem ofereceu ao poeta este que é um dos mais belos versos. Um dos mais tristes. O dente negro que tem na boca não impede que Zephaniah distinga o belo do feio, afinal é ela que nos dá o critério do gosto. O olho cego que tem numa das órbitas não impede que Zephaniah veja as almas através dos corpos. A cicatriz que lhe deforma o rosto, o nariz carcomido pela lepra, a mão decepada, a perna de que a gangrena fez uma úlcera, a fronte por onde escorre uma gota de sangue, não são obstáculos. Não tem imperfeições porque resplende tendo-as e é perfeito quem resplende. E quem cria. E a vida de Zephaniah é criação. É destruição também, é extermínio, ruína, esmagamento. Zephaniah, A Grande. Um metro e meio de perigo puro.

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