segunda-feira, 20 de junho de 2016

História gótica



85. O filho de Viorica, se se lembram, escondeu o sapato de um dos homenzinhos da floresta.
Primeiro no casaco. Chegado a casa da mina, enquanto se lavava e esfregava, escondeu-o debaixo do colchão, juntamente com o baralho de cartas sebento e os dados de osso que os pais nem imaginavam que ele tinha. Muito menos que os usava. E muito. Tinha mãos hábeis e conseguia esconder ases nas mangas. Assim que o momento chegava, batia com eles na mesa e aos adversários, antes sorridentes, caía-lhes o queixo. Voavam palavrões e cuspia-se tabaco. Enchiam-se copos de aguardente. Nem se queria acreditar, a sorte do miúdo, nunca tal se vira. Ainda que não fosse especialmente inteligente, o rapaz era esperto e tinha cuidado com a batota. Não podia ganhar sempre ou muitas vezes seguidas. Tinha que fingir que perdia para que aqueles tolos não desconfiassem. E tinha que deixar que também fossem usados outros baralhos em vez do seu, cuidadosamente marcado. O rapaz sabia sempre que mão tinham os outros jogadores, mas também só se aproveitava dessa vantagem de vez em quando. Escolhia as partidas em que havia mais dinheiro em cima da mesa e desistia quando já tinha os bolsos cheios. Também fazia isto discretamente, claro. Mas já amealhara uma soma respeitável que também escondia debaixo do colchão. Só enquanto tomava banho, as mães fazem as camas e o colchão não era um sítio completamente seguro. Mas o rapaz gostava de contemplar os seus ganhos, e à noite tirava uma caixa de um buraco que abrira na parede e fazia planos para si e para o dinheiro. A mina não ia ser para sempre. Mas era preciso estar abonado para escapar dela e tentar nova vida. Nos planos do rapaz havia cidades e chapéus janotas. E mais jogo. O sucesso na aldeia fazia com que tivesse esperança de alcançar sucesso na cidade. Via os serões fumarentos do cachimbo dos aldeões como um treino para os vôos mais altos com que iria acumular mais dinheiro. Muito dinheiro. Dinheiro que chegasse e sobrasse para as mulheres de vida fácil de que falavam os homens que já tinham ido à cidade. Perfumadas, cheias de folhos, com carnes brancas de quem vive à noite e não apanha sol. É claro que estes aldeões grosseiros só as tinham visto ao longe, e imaginavam que fossem fáceis porque as viam sair e entrar em casas que tinham má reputação e de que ouviam falar nas tabernas. Aqui, as raparigas usavam vestidos mais modestos, sem folhos nem brilhos, e traziam os cabelos mais despenteados e oleosos. Embora nunca tivessem visto os dentes das mulheres das casas de má fama, nunca tinham estado assim tão perto, apostavam que os tinham mais brancos do que os das moçoilas que sentavam nos joelhos. Os dentes das moçoilas de taberna eram pretos, ou quase, e nem os tinham todos. O hálito delas não era propriamente agradável. Mas tudo isso não tinha importância nenhuma, para aquilo que as queriam estavam muito bem. Melhor do que as mulheres que tinham deixado na aldeia, que não sabiam truques e a quem não se atreviam a pedir certas coisas. E o vinho ajudava, o vinho ajuda sempre, é um bom amigo, um amigo fiel. O rapaz não ia desdenhar nem o vinho nem as moçoilas, ainda que tivesse planos de conseguir coisa melhor. Ia subir a pulso. Ia subir graças aos seus pulsos rápidos que manobravam cartas certeiras e dados que deixavam muito pouco à sorte. Quando encontrou o sapato do homenzinho da floresta imediatamente pensou que tinha ali uma oportunidade de fazer mais dinheiro. Mas não na aldeia, ali ninguém ia estar interessado em comprar um sapato só, não iam encontrar utilidade nele. E por ali não havia coxos. Assim, quando os errantes acamparam e acenderam as suas fogueiras, o rapaz dirigiu-se às caravanas coloridas e pediu para falar com o chefe.

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