quinta-feira, 21 de julho de 2016

História gótica

95. À medida que procuravam entre os papéis rasgados aqueles que lhes interessavam, iam-se apercebendo de que não conseguiriam completar os fragmentos que transportavam consigo há tanto tempo.
Tinham mexido e remexido várias vezes no monte amarelado e cinzento que lhes tinha caído aos pés, mas faltava sempre alguma coisa. Se soubessem que no fundo de uma arca de carvalho pesado estavam guardados ainda mais papéis, os que faltavam para que se resolvessem os três quebra-cabeças, e vários mais, a julgar pela dimensão da pilha que iam revirando, teriam parado de procurar ali e de confundir braços e vestidos e caligrafias. Queriam juntar tudo, queriam que tudo encaixasse. Queriam tanto que estavam sempre a suster a respiração ou a chamar os outros dizendo, já está! Tanto que davam razão àquele que exclamara e só um segundo exame lhes revelava que a figura que parecia fazer finalmente sentido era uma quimera ou um unicórnio, com um pé desencontrado ou uma cabeça demasiado grande para o resto do corpo. Foram fabricando sereias e sátiros, ciclopes e gárgulas, cérberos e licantropos. Seres para os quais não havia nomes porque nunca antes tinham existido. Ou que não eram conhecidos porque só tinham existido em pesadelos. Aberrações nórdicas medonhas e brutas, mas também figuras meridionais etéreas e tentadoras. As cores deixaram de significar e de se distinguir, as formas perderam os contornos, as quantidades perderam a ordem, no espaço tudo perdeu a relação. As coisas não eram mais fáceis no que respeitava às cartas. Começaram por procurar caligrafias semelhantes, a semelhança em breve se tornou irreconhecível. Tentaram categorias de grão de papel, o peso a certa altura era sempre o mesmo ou era sempre diferente. Experimentaram as cores das tintas, todas assumiram o mesmo tom ocre e a mesma imprecisão baça. Não tiveram melhor sorte quando decidiram procurar as palavras e as frases que completariam cada palavra e cada frase que um rasgão deixara incompleta. Textos ilegíveis, tal era a estranheza do que diziam, sucediam-se a parágrafos trágicos e passagens líricas. Os versos belos deslumbravam, os disformes suscitavam crítica, os cómicos arrancaram-lhes as primeiras gargalhadas desde os eventos que os tinham trazido ao castelo, de repente chega a hórrida notícia: os Iberos, depois que Árrio para lá fora, Iberos já não eram, eram 'Íberos'. Construíram peças inteiras, com três actos e múltiplas cenas. Os personagens densos dos romances alternavam com tipos de histórias satíricas e alegorias de sermões. Escreveram diálogos e tratados. Contos curtos e poemas longos. As gestas, os épicos, as fantasias históricas, os artigos científicos e os artigos de jornal, não houve dia de que não houvesse notícias, a da mãe que perdeu num incêndio os filhos, a do explorador que chegou onde aspirava, a da linha férrea inaugurada, a da estátua a pedir reparação. As recensões críticas não faltaram, uma delas dizia que o livro em causa era a melhor defesa que alguém poderia ter argumentado das virtudes do analfabetismo. As histórias infantis e os tomos de biografias. A bíblia inteira. Os vedas. O corão. Os cento e vinte dias de sodoma. A lista de compras de um ajudante de cozinheiro e a lista de objectos que um egípcio antigo quis que o acompanhassem no reino dos mortos. Leis e constituições. Exames. Receitas. Se tivessem aprendido com o labirinto que estavam sempre no mesmo lugar ao mesmo tempo que podiam vir estar num lugar diferente, Ada, Groesken e Valodu teriam pedido à criança, ou a Dimitri, que os conduzisse à cela do Confessor, onde a arca de carvalho pesado aguardava que a abrissem havia séculos.

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