sábado, 23 de julho de 2016

História gótica

96. "Mais ou menos", Ada. "Ou digamos assim", ainda Ada. "Se o Natal durasse mil e uma noites, há um diabinho de quem podemos esperar que nos entretenha.", Ada continuou.
"E delicie. Triste triste triste e um final feliz." Contou, "no final feliz há sempre uma lareira e uma mesa com bolos e filhoses. Cheira a pinheiro." Disse, "este diabinho anda sempre à procura de anjos. Os anjos que já são anjos. Os anjos que ainda não são anjos. Os anjos que ainda não são anjos são aqueles que, vivendo todos os dias rodeados de anjos, não os vêem. São aqueles que os fantasmas de antes, de agora e de a seguir transportam de um lado para o outro. Precisam de fantasmas." Groesken interrompeu. "Esta é a história mais palerma que já ouvi." Fala agora Valodu. "A mais sacarina." Groesken outra vez. "Diabinhos ainda vá, agora anjos." Não adiantou a Ada argumentar que lera uma história parecida, que no Natal estamos autorizados a falar de coisas que não existem, que o Natal está cheio de coisas a fingir, bolas em árvores e fitas douradas, os bolos eram verdadeiros, e era verdadeiro o cheiro a canela e açúcar, mas de resto pouco mais podia dizer-se que não fosse simplesmente faz-de-conta. Ada começara a falar de lareiras, fantasmas e finais felizes por causa da criança. Mas esta parecia mais interessada em fazer bolinhas de miolo de pão. Dava-lhes piparotes como se fossem berlindes. É um instinto, querer dar piparotes em berlindes. Nasce com todos os indivíduos da espécie. Saltar à corda também, parece que ninguém consegue escapar à vontade de dar saltos com um objectivo, não ser apanhado pela corda. Polícias e ladrões também são universais, e tal como dar piparotes em berlindes e saltar à corda também vão desaparecendo com o tempo, a costela anarquista da espécie sucumbe sempre à necessidade. Já os índios e cowboys são uma aquisição do meio e por isso não se usam por todo o lado. Diz-se que nos pólos se atira bolas de neve a ursos sempre que se consegue distinguir um no meio da neve, parece que lá é tudo branco, mas parece que só num dos pólos é que há ursos, há quem diga que é porque no outro pólo não há quem atire bolas de neve. Ao desejo de usar fisgas para acertar em alguma coisa num dos hemisférios corresponde no outro o desejo de competições em que se cospe caroços ou só cuspo o mais longe possível. Há quem defenda que estas duas coisas se fazem em todos os hemisférios, mas ninguém arrisca dizer se são inatos se são adquiridos os desejos que as motivam. É que nem tudo o que é universal é instintivo pelo facto de ser universal. Os hemisférios não são estanques. É sempre possível, e muito provável, que uma coisa original de um hemisfério seja adquirida por quem viva noutro. Mas então como distinguir o inato do adquirido, perguntar-se-á. Se não podemos contar com a universalidade. Sendo uma questão que se discutirá sempre e que é afinal ideológica, o mais sensato é abandoná-la. Pensar noutra coisa qualquer. Patos, por exemplo. Desde que se consiga resistir a pensar que instintos tem um pato e de que aprendizagens é capaz. Assim que esta pergunta atravessar as nossas cabeças, mude-se de assunto. Considere-se a água, ou as pedras. Mas de coisas como estas também se pode discutir o que têm de natural e o que têm de artificial, as pedras rolam para não ficarem cobertas de musgo, as águas passam debaixo de pontes. É mais uma dor de cabeça, decidir o que é natural e o que é artificial. Use-se a cabeça para outra coisa menos dolorosa. "Mais vale falar de fantasmas de Natal." Ada, esperançosa com este novo argumento. "Como é tudo inventado." Groesken, Valodu e a criança davam piparotes nas bolas de miolo de pão, tentando atirar abaixo da mesa as bolas dos adversários.

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