quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Qualificações desejáveis nos EUA

Hoje estava a ler o Washington Post, no qual uma investigadora defendia que os EUA não precisam de mais pessoas de STEM (Science, Technology, Engineering, and Mathematics); o que os EUA precisam é de pessoas qualificadas simultaneamente em STEM e nas artes liberais (línguas, arte, filosofia, etc.). No meu emprego anterior, que era na área de consulting, um dos vice-presidentes apresentou-me a um cliente e disse que eu servia para tudo: fazia análise quantitativa, qualitativa, recolhia dados em inglês, português, e espanhol, dava-me bem com as pessoas de todos os departamentos da firma e de todos os níveis hierárquicos, e escrevia bem. Uma vez, estava a estudar o mercado de mandioca e até recolhi dados da Tailândia e usei o Google para traduzir a informação de tailandês para inglês. No meu emprego actual (eu trabalho numa Commodity Trading Advisor, uma firma que compra e vende contratos de futuros agrícolas), a minha supervisora também utiliza as minhas qualificações linguísticas para diferenciar a nossa companhia dos nossos competidores. Diz ela que eu posso recolher informação directamente de países como a Argentina e o Brasil, logo ela elimina parte do enviesamento que os analistas de mercado nossos fornecedores podem introduzir, para além de eu produzir investigação que é propriedade exclusiva da nossa empresa.

Quando eu vim para os EUA, notei que muito tempo e esforço eram dedicados à forma como as pessoas comunicavam. Para além da competência técnica, a forma como as pessoas se expressavam era analisada ao microscópio. Como o inglês era a minha segunda língua, no início passei grande parte do meu tempo a investigar qual a forma de escrita que maximizava a minha performance. Há 20 anos atrás, ainda aparecia muito a voz passiva, mas cada vez mais os professores e os livros de estilo indicavam que era preferível escrever com a voz activa e o uso da voz passiva devia ser minimizado ou eliminado. Outra coisa que os incomodava era ler coisas que eram muito "wordy" (palavrosas, verbosas) e, no início, muitos dos comentários que eu recebia eram no sentido de eliminar tudo o que era desnecessário e não dava informação adicional ao leitor. Este conselho era particularmente importante quando se escrevia para publicações científicas onde cada página custava dinheiro--no Journal onde eu publiquei, a meio da década de 2000, o preço por página era de $65, se a memória não me falha,--logo quanto mais curto o artigo, mais barato para o departamento ficava.

Na universidade onde eu estudei, havia um "Writing Center", onde os alunos mais avançados de Inglês atendiam estudantes de todas as áreas para os ajudar com a escrita dos trabalhos de casa. Cheguei a ir a esse centro várias vezes no início. Para além disso, quando era necessário escrever "papers" para as cadeiras, eu submetia-os sempre às ferramentas de avaliação disponíveis no Microsoft Word, que me corrigiam, para além dos erros ortográficos, a gramática. Um dia descobri que Microsoft Word também tinha estatísticas que mediam a facilidade com que um texto era compreendido; são as chamadas "Readability Scores". Há lá duas: a "Flesch Reading Ease score" e a Flesch-Kincaid Grade Level test". Destas duas, a que eu acho mais gira é a segunda que mede a nossa escrita em termos do ano académico da escola secundária americana. O desejável era que se escrevesse ao nível do sétimo e do oitavo ano, como podem ver na imagem abaixo que descreve estes métodos de análise:

Deixo-vos também um pequeno texto que escrevi em inglês para o meu Facebook, o qual submeti às tais estatísticas para vos mostrar um exemplo. Como vêem, escrevi ao nível do décimo ano americano.

É comum aparecer nas notícias e na Internet coisas a dizer que os americanos são muito ignorantes e muitos amigos meus portugueses até me perguntam como é que eu consigo viver no meio de tanta "estupidez". A meu ver, nos EUA há de tudo como em toda a parte, mas os americanos são muito bons a dar tempo de antena a pessoas de todos os níveis e oportunidades a pessoas menos qualificadas. E, tradicionalmente, os americanos têm taxas de desemprego muito mais baixas do que os europeus e menos apoios sociais, o que quer dizer que há pessoas com poucas qualificações que conseguem emprego. O país está estruturado para que pessoas com poucas capacidades possam funcionar e mesmo indivíduos com capacidade mental diminuída podem arranjar emprego. Há alguns anos, eu fiz voluntariado num centro onde eu ensinava uma jovem com síndroma de Down a cozinhar e ela tinha um emprego part-time, para além de receber ajuda do estado.

É lógico que quem é menos qualificado tem uma luta muito mais difícil e muito menos oportunidades, mas os americanos colocam muito ênfase na iniciativa pessoal. Quando eu estava a fazer o doutoramento, um dos meus colegas tinha 56 anos, era um ano mais velho do que o orientador dele. Ele tinha sido agricultor e tinha decidido regressar à escola, pois a sua saúde já estava frágil para trabalhos físicos. Era um dos alunos mais fortes do departamento e era muito bom poder colaborar com ele em trabalhos de casa e projectos porque era uma daquelas pessoas com as quais podíamos aprender. Depois de terminar o curso, ele conseguia arranjar emprego muito mais facilmente do que eu porque tinha mais experiência do que eu. No entanto, enquanto estávamos a tirar o doutoramento, os apontamentos mais desejados do departamento eram os meus--diziam os meus colegas que eu devia vendê-los de tão bons que eram. Pudera, aqueles anos todos na faculdade em Portugal de alguma coisa me serviram...

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