domingo, 15 de maio de 2016

Ceteris paribus: um incómodo

Na discussão de custos de educação do ensino privado vs. público, tem-se invocado o relatório do Tribunal de Contas referente ao ano lectivo 2009/2010. Ao ler o relatório, somos informados várias vezes de que a contabilidade de custos não é muito boa e uma das conclusões do relatório foi que se devia investir em criar um sistema de contabilidade analítica que permitisse melhorar a qualidade da informação existente. Esse sistema ainda não foi implementado. Será que o anterior governo PSD/CDS pode explicar ao público porque decidiu não seguir essa recomendação?

Comparar custos entre duas opções exige que as opções sejam comparáveis, ou seja, tem de se controlar os pressupostos. Olhar para os custos não controlando a demografia, o tipo de ensino visado, a taxa de ocupação das escolas, etc. não nos permite fazer uma comparação educada. Para além disso, o relatório foi feito pré-Troika e, durante o período de ajustamento da economia, algumas despesas do sector público, como os salários, foram impedidas de aumentar. Mas no sector privado, não houve congelamento de salários, logo que podemos nós concluir do rácio de salários público-privado? Eu não concluo nada porque não tenho informação suficiente para fazer a análise.

Em economia, invoca-se muitas vezes o pressuposto "ceteris paribus", que é como quem diz que o resultado da análise está condicionado por tudo o resto ser mantido constante e nós podermos isolar o efeito. Um estudo de comparação de custos de educação nos dois regimes, público e privado, com pressupostos controlados nunca foi feito em Portugal por duas razões: insuficiência de dados e não existência de vontade para o implementar. Deduzo então que "ceteris paribus" se tornou num incómodo e alguns economistas preferem esquecer que essa ferramenta existe.

Imaginem estudar tratamentos médicos assim: cada um concluíria o que lhe apetecesse. Quem se lixava eram os doentes.

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