sábado, 28 de maio de 2016

História gótica



71. Protegidos pelo sol do meio-dia, Ada, Groesken e Valodu olham para a entrada imensa atrás da qual esperam encontrar, não sabem o que esperam encontrar, ainda que procurem isso, essa coisa, há muito tempo.
Assim que começam a afastar-se procurando outra entrada para o castelo, negro mesmo sob o sol, ouvem ranger a porta alta e larga de madeira manchada de verde, e vêem-na abrir-se devagar, mais uma armadilha do que um sinal boas-vindas, e perceberiam isso se conseguissem pensar por cima do tropel do coração. Avançam. Também sem pensar, dão-se as mãos, que apertam. Groesken, o mais velho, está no centro, mas nenhum avança mais depressa do que qualquer outro, o medo é o mesmo, a coragem também. Ainda que saibam pouco uns dos outros, sabem isto, até onde estão dispostos a ir. E a nenhum deles ocorre recuar. O átrio do castelo é escuro porque as frestas por onde entra alguma luz são tão estreitas que apenas traçam linhas sobre o chão. Era difícil distinguir a princípio essas linhas daquelas que o mármore preto e branco formava debaixo dos pés de cada um deles, losangos baços e quebrados cobertos de lixo que já não deviam ver água e sabão, ou sequer uma vassoura, há séculos. A escadaria que ocupava o centro do átrio também tem os degraus e o corrimão, desta vez de mármore avermelhado, partidos e sujos, com teias de aranha espessas nos ângulos e ligando as colunatas barrocas que flanqueiam a subida. A porta pesada fecha-se com estrondo por trás deles quando começam a pisar os degraus. Empalidecem com um pequeno sobressalto, e continuam. Prestam atenção a ruídos que possam vir de algum lado e que sejam diferentes dos ecos que os seus passos fazem naquele espaço fechado sem móveis. Não ouvem nada. Já estão habituados à escuridão e às nuvens de pó que vão levantando e que tornam o ar denso quando as linhas de luz as iluminam. Por isso, também prestam atenção a movimentos e coisas. Nada, tudo se mantém tão imóvel quanto silencioso. O castelo não parece mais do que abandonado e inútil e, mais uma vez se fossem capazes de pensar, perguntariam uns aos outros por que razão não estava arruinado, como se mantinham erguidas e incólumes as paredes e as portas. O castelo era uma caixa forte resistindo à passagem do tempo. O corredor no topo da escadaria estendia-se para a esquerda e para a direita e ao longo dele viam-se muitas portas, todas fechadas. Olhando uns para os outros sem falar, decidiram tentar a porta que ficava mesmo em frente do sítio onde tinham chegado. Ada girou a maçaneta de ferro. Ao contrário do que antecipavam, a porta não ofereceu resistência, e seria tão normal abri-la como qualquer outra se não fosse o rangido agudo que se propagava batendo contra as paredes. Do outro lado, e apesar de uma nova escuridão, viram estátuas tombadas e cobertas das teias de aranha que eram o único sinal de vida que até agora tinham conseguido encontrar. Os braços, os narizes, por vezes até as cabeças, estavam partidos. Várias das estátuas deviam ter segurado taças de metal, espadas, cornucópias, mas estas tinham desaparecido há muito. É uma verdade acerca dos castelos desertos, que são saqueados. Tal como é verdade que há violadores de túmulos em busca de jóias, dentes de ouro, ou cadáveres para anatomistas, mas por vezes aquilo que acham são mortos-vivos de roupas esfarrapadas ou maldições de múmias. À medida que penetravam em novas salas quase vazias, Valodu, Groesken e Ada abriam portas que se fechavam por trás deles, por vezes fazendo grande barulho, outras suavemente. Foram assim percorrendo salas e mais salas até que se deram conta de que por mais diferentes que fossem aquelas que atravessavam, a certa altura voltavam a uma mesma sala, a sala inicial com as estátuas mutiladas por onde tinham começado a exploração do castelo. Era mesmo uma armadilha, ou melhor. Um labirinto.

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