terça-feira, 31 de maio de 2016

História gótica

72. E se pudessem dar um passo atrás e olhar para as suas próprias deambulações de sala em sala, de corredor em corredor, Groesken, Valodu e Ada veriam que o labirinto tinha a forma de um cérebro dentro de uma cabeça, ou de
uma mente dentro de um cérebro, ou de um espírito dentro de um corpo, ou de uma alma dentro de uma prisão, ou de um marinheiro dentro de um navio, e que quando pensavam andar de sala em sala e de corredor em corredor na verdade circulavam de lóbulo em lóbulo, deste córtex para aquele, em afluxos de sangue, o sangue líquido que dessedenta fibras e neurónios, o sangue qualquer outra coisa que encharca os pensamentos, estes também qualquer outra coisa, nem líquidos, nem sólidos, nem gasosos mas sem dúvida sangrentos, o sangue figurado mas espesso que satura espíritos, almas e marinheiros, que aos espíritos faz aparecer infelizes no fundo dos lagos, que às almas trava na ascensão ao paraíso, que o marinheiro limpa da lâmina da faca que enterrou no bucho de um bêbedo incapaz de acreditar nas suas aventuras. Ainda outro passo atrás, mais atrás, e veriam que o cérebro, o espírito, a alma, o marinheiro, aquilo de que estavam dentro era mais terrível do que alguma vez poderia ser descrito, e que mesmo pensamentos sangrentos, os mais sangrentos, teriam dificuldade em imaginar o que os continha para além do cérebro, do espírito, da alma, do marinheiro. É por isso que nada será dito aqui acerca disto a não ser que existe, é terrível, e contém outros terrores. É sempre assim onde há limites porque o limite não é aquilo que limita ou não se distinguiria do que limita e sem distinção não saberíamos nunca se alguma coisa acabou já, nem sequer se continua. E dos limites não sabemos nada porque nunca lá chegamos já que o que existe é demasiado extenso e levaria demasiado tempo percorrê-lo mesmo nos milhares ou milhões de anos que uma espécie pode durar. Mesmo as nossas hipóteses não fariam justiça ao limite, inventá-lo-iam com as qualidades do que sabemos, e dos limites não sabemos nada. Nas hipóteses dos nevróticos, o limite é uma linha, ou é um precipício, ou é uma conjura de monstros. Ou uma esfera transparente, ou uma cúpula azul. Os nevróticos muito perturbados são os que não se contentam com hipóteses silenciosas e indiferentes, e assim o limite é um homem muito grande, ou muitos homens muito grandes, ou uma ideia. Os sãos não se incomodam muito com hipóteses porque percebem que os limites de que as nossas hipóteses falam não são mais do que superlativos daquilo que limitam, e não há diferença entre o limite e o que o limite limita, só há quantidades diferentes de coisas limitadas. E quando se tenta dizer que uma diferença de quantidade a certo ponto se transforma numa diferença de qualidade, e que o superlativo do limitado pode ser o limite, choca-se com o problema do infinito, que é a negação do limite e a continuidade constante daquilo que o limite limitaria. Sendo ilimitado aquele como é ilimitado isto. Nada teria fim. Como não tem fim o susto com que receberam Ada, Groesken e Valodu a notícia de que estavam condenados à repetição infinita, se é que o infinito pode conter em si repetições, processos que começam e acabam, começam e acabam, como saberíamos nós se alguma coisa começa e acaba sem invocar o limite e a sua queda na ausência.

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